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Palavras on-line

Quatro estudantes de diferentes regiões do Brasil debatem a leitura e a escrita no universo digital

12/08/2011

12/08/2011

Equipe Onda Jovem

O computador e a Internet promoveram novas maneiras de conviver, estudar, pensar, ler e explorar os gêneros de escrita. Na escola e fora dela, os recursos eletrônico-digitais ampliaram o jeito de “ler” e aprender sobre o mundo. Para apreender esse universo, é importante que os educadores saibam como seus alunos andam explorando a leitura e a escrita na Internet, tema debatido neste espaço por quatro jovens:
 
   

Ana Lúcia Justina, 19 anos

Cursa o 2º ano do ensino médio na Escola Estadual Tenente Almachio, em Florianópolis, SC, e descobriu o gosto pela leitura e a escrita com o poeta Manoel Bandeira. Já encheu cinco cadernos com poesias próprias, mas colocá-las na Internet tem um gostinho especial. “Quero que minha palavra alcance um voo mais alto que o céu...”, registra a estudante num poema.

 
   

Guilherme Silva Souza, 17 anos

Divide o trabalho de auxiliar de cozinha num restaurante com o 3º ano noturno do ensino médio da Escola Estadual Walkir Vergani, no município de São Sebastião, litoral norte do estado de São Paulo. Ele tem paixão por pintar, ler e escrever. Já participou de várias competições de redação na escola e foi sempre finalista. “Não venci porque alguns colegas se expressavam melhor”, diz. Guilherme quer formar-se em artes cênicas e lê muito para se preparar: “Estou sempre lendo, e não importa o tamanho do livro, se ele me envolve”

 
   

Maurício Tavano Bacal, 15 anos

Cursa o primeiro colegial na Escola da Vila na capital paulista. Apaixonado pelas letras, seus escritos (contos, poesias e outros textos) estão no blog Escrivaninha, criado no início de 2009. “Por conta dos deveres da escola, o blog ficou desatualizado. Voltar a postar é um dos meus projetos neste ano”, promete.

 
   

Layanne de Oliveira Almeida, 17 anos

Aluna do ensino médio do Centro Educacional Vitória Régia, em Salvador (BA), também desenvolveu um blog (www.creunasociologia2b.blogspot.com) com colegas de classe e professores para debater atualidades. “Foi um bom treino de expressão. A cada semana era um assunto diferente, como violência urbana, múltiplas identidades, conceitos e ações de educação, temas que nos faziam refletir sobre nossa sociedade”, conta.

Acompanhe os principais trechos do debate entre os jovens:
A Internet mudou sua prática de leitura e de escrita?

Maurício: Sempre fui muito tradicional nisso, só tentei baixar uns dois livros na Internet em toda a minha vida. Costumo ler mais os impressos em papel. O blog na web não mudou meu modo de escrever, mas tornou minha escrita mais constante por ter de atualizá-lo diariamente. Isso é difícil num blog, porque as boas ideias vêm de vez em quando e nem sempre ficam boas quando escritas.

Guilherme: Gosto de escrever mais no papel. A web mudou um pouco minha prática, comecei a abreviar as palavras para escrever rápido.

Layanne: Leio livros, jornais e vejo TV como sempre fiz para me informar. A Internet é um recurso a mais, mas reconheço que melhorou minha escrita. Eu era influenciada pela moda on-line, aquele internetês rápido, tipo bjuz, miguxus etc. Com a prática do blog, passei a me expressar melhor. Um problema com a web é que a gente se desconcentra mais. Impossível utilizá-la sem acessar os sites de que gosto.

Ana Lucia: Tudo mudou pelo fato de que a Internet proporciona mais conhecimento pela facilidade do acesso à informação. A comunicação em geral ficou mais avançada.
Para estudar ou ler, você divide os campos: tal conteúdo eu leio na Internet; tal conteúdo busco em livros?

Guilherme: Sim, romances, histórias de aventuras eu encontro nos livros. Para trabalhos da escola, costumo usar mais a Internet, mas, dependendo do assunto, ainda acho mais confiáveis as informações de um livro, ou de um jornal impresso.

Maurício: Nunca dividi muito as coisas. Leio quase tudo em livro impresso. Só vou procurar livros na Internet quando estes estão difíceis de achar nas livrarias, ou quando quero ler, mas emprestei para algum amigo. Numa dessas procuras, até me deparei com um site interessante que armazenava textos e poesias de vários autores importantes, chamado “Releituras”.

Layanne: Uso a Internet mais para pesquisas escolares, mas nesse espaço também podemos encontrar ótimas sinopses de livros, o que é bastante útil.

Ana Lucia: A Internet é um complemento para mim, não substitui o livro em nenhuma situação.
Os blogs podem ser como os antigos diários, mas na Internet você não está escrevendo só para si. Essa característica o estimula a registrar mais seus pensamentos em textos, poesias e outros gêneros de escrita?

Maurício: Acho que foi basicamente a ideia de expor textos que incentivou a criação do meu blog, o Escrivaninha. Acho que sempre busquei mais leitores para os meus textos.

Ana Lucia: O texto publicado na Internet permite compartilhar opiniões, gera mais conhecimento sobre o conteúdo. É bom ouvir outras pessoas para ampliarmos nossa análise sobre um tema.

Guilherme: Na Internet, não escrevo coisas pessoais, apenas sobre temas que eu sei, e aí é bom ver a opinião dos outros sobre o trabalho da gente.

Layanne: Sim, acredito que estimula. Eu já tive um blog nessa linha mais pessoal, e nele descrevia o meu dia, como estava me sentindo naquele momento, colocava textos, poesias, músicas e fotos marcantes. Mas nada publicado na Internet é mais íntimo. O autor está sujeito a todo tipo de comentário. E os internautas acabam provocando novos pensamentos no autor, gerando novos textos, comentários, novas leituras.
O “internetês” enriquece ou empobrece a leitura e a escrita?

Maurício: O internetês é mais usado em bate-papos e sites de relacionamento, e isso não quer dizer que quem usa não sabe o português correto. É apenas uma língua criada pela pressa dos diálogos em tempo real.

Ana Lucia: Há o risco de virar um hábito e aí empobrece a escrita, porque se pensa menos ao escrever.

Layanne: Pergunta difícil. O internetês facilita a escrita, mas passa o conteúdo de forma muito resumida. É preciso encontrar um meio termo.

Guilherme: Essas mudanças estão nos fazendo esquecer aos poucos da linguagem formal. Daqui a alguns anos, essas abreviações serão permitidas no mundo do trabalho, e aí?
Na escola, seus professores estimulam a leitura e a escrita com os recursos da web?

Maurício: Sim, lembro da minha professora de língua portuguesa. Desenvolvemos com ela um projeto literário sobre texto poético, que envolvia leitura de autores consagrados como Guimarães Rosa e Machado de Assis, além de conteúdos da web que ela apresentava a cada aula, como vídeos de autores recitando a própria poesia e indicação de sites do gênero. Tudo isso estimulava mais pesquisa e leitura.

Ana Lucia: Minha escola estimula, mas depende mais de nós buscarmos na web um conhecimento novo, ou o aperfeiçoamento de algo que aprendemos.

Guilherme: Os professores dão certas orientações. Sugerem que nós não abreviemos as palavras e que procuremos informações que tragam algo bom para nós.

Layanne: No meu colégio, a Internet é utilizada, mas muitos professores pensam que o quadro-negro ainda é o ideal. Não só os professores, alguns alunos também têm esse pensamento e eu sou um deles. Acho que o recurso computador desconcentra muito, são diversas pessoas no mesmo ambiente, há conversas paralelas, comentários fora de hora que acabam atrapalhando o rendimento. Mas havia uma disciplina específica, a sociologia, em que o uso da web era essencial e o rendimento, excelente. Recebíamos textos para preparar resenhas críticas. Era uma iniciativa do professor nos colocar diante dos recursos tecnológicos e nos mostrar seu uso e benefícios.
Para explorar o mundo digital, você sente falta de novas competências leitoras e escritoras?

Maurício: Não, não sinto falta de nada.

Ana Lucia: Sinto falta de conhecimento sobre o próprio mundo digital.
Guilherme: Na minha escola, falta mais treino para fazer textos, pesquisas, e mais informação sobre o que ler.

Layanne: O meio é tão amplo que não sinto falta de nada.
Nesta era digital, você acha que está mais fácil conhecer e entender a história do mundo?

Maurício: Essa é uma pergunta muito delicada. Se por um lado é fácil achar conteúdos sobre todos os temas pelos sites de buscas, por outro, não conhecendo o assunto, é difícil saber se o que está escrito lá na web é verdadeiro. Já achei um site que dizia que a letra de “Chega de Saudades”, de Tom Jobim, era de Vinicius de Morais.

Guilherme: Creio que sim, porque na web nos encontramos a um clique de conhecimentos os mais diversos.
Layanne: Sim, na era digital é possível viajar pelo mundo. Uma informação nova tem, em poucos segundos, acesso livre.

Ana Lucia: Não, não acho. A tecnologia é um complemento. A Internet oferece informações, mas não revela o que é o mundo.
Várias iniciativas procuram hoje resgatar o prestígio da leitura. Você acha que o livro é capaz de fazer esse resgate?

Maurício: Nunca pensei muito nisso, mas os jovens passam mais tempo na Internet do que fazendo qualquer outra coisa. A resposta, então, está em fazer campanhas digitais para esse fim e em incentivar os sites que expõem algum tipo de literatura. Antes de chegar aos livros, é preciso chegar à literatura em si.

Guilherme: Sim, mas antes do livro tem de ser despertado o interesse pela leitura.
Layanne: Sim, embora digam que o livro vem perdendo seu valor. A Internet é mais rápida, mas ler um livro é essencial.

Ana Lucia: Sim, velhos costumes são sempre utilizados. É bom lembrar que foi na escrita que tudo começou. Um livro dá liberdade, eu diria até que um atrevimento de conhecimento e de poder.