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Oficina literária

Escritor e ministrante de oficinas de produção de textos criativos, o professor Luiz Antonio de Assis Brasil faz uma reflexão sobre a pertinência dessas oficinas na escola

12/08/2011

12/08/2011

Luiz Antonio de Assis Brasil

Os laboratórios de escrita, ou oficinas literárias, vêm obtendo crescente aceitação no mundo todo, desde que foram criados nos Estados Unidos a partir da década de 40 do século XX. Grandes escritores saíram das oficinas, entre estes, Raymond Carver. No Brasil, já temos várias atividades nessa área, realizadas em distintos pontos do País. Algumas recebem apoios institucionais como, por exemplo, a da PUC do Rio Grande do Sul, que funciona há 26 anos ininterruptos; outras são mantidas pela persistência de seus ministrantes, e ainda há aquelas esporádicas, em geral de curta duração, mas igualmente valiosas.

É preciso dizer que não há unanimidade quanto às oficinas literárias em geral: alguns pensam que, no fundo, a oficina será, sempre, uma fábrica de clones do ministrante, em geral um escritor de renome. E mais: ou o escritor nasce feito, ou não haverá escritor. Outros – a imensa maioria, felizmente – consideram a prática regular e orientada da escrita um caminho apropriado para a expressão de suas inquietações, carências, sentimentos, e para muito mais: para tornarem-se escritores.

Desde logo, colocamo-nos ao lado dos que acreditam que, em praticando, é possível aprender a escrever boa literatura. Se o resultado, além da correção, da elegância, da boa argumentação, evidenciar notável qualidade estética e imaginativa, isso terá decorrido, paradoxalmente, de procedimentos anteriores, da aprendizagem da boa técnica – única chave capaz de libertar um talento.
Imagine-se um jardineiro: ele precisa conhecer as plantas, a terra, a acidez do solo, os adubos. Deve saber quando e como podar cada planta, de quanto sol necessita e a quais horas do dia. Não pode desconhecer se a planta precisa de pouca ou muita água e que jamais deve regá-la ao sol abrasador. Essas necessidades – e os conhecimentos do jardineiro – são diferentes para cada variedade. O jardineiro, capacitando-se, por certo há de mostrar-se um profissional eficiente. Se talentoso, quem sabe produzirá novas espécies e será um mestre.

O estudante de piano não se envergonha de aprender solfejo, teoria, de corrigir seguidamente a posição das mãos, de estudar e estudar, para tornar-se um grande solista. Por que, então, o escritor haveria de nascer pronto, num canteiro de nuvens?

Pensando na raiz desses preconceitos e equívocos, percebe-se, subjacente, uma atitude algo elitista, algo reacionária, algo romântica, algo ingênua, que leva alguns autores a acreditarem apenas no talento; algo problemático, por dividir as pessoas entre talentosas e não-talentosas, partição inaceitável num mundo que se esforça para, sem discriminações, assimilar e integrar as diferenças e as minorias. A propósito, há um interessante livro de Beth Joselow, chamado, muito significativamente, de Writing without the muse, ou seja, escrevendo sem a musa.
Oficinas em sala de aula

Tanto na vida como na escola, uma das primeiras aprendizagens é a da escrita. E das mais fáceis e universais. Então, o desejo de expressar-se pela palavra escrita tende a ser muito presente na sociedade mediada pela palavra.

Eva Kavian, em seu Écrire e faire écrire [Escrever e fazer escrever], lista quatro tipos de oficina, definidos, cada um, por seu objetivo. São eles: as oficinas recreativas, nas quais a escritura é um meio de recordar, reencontrar-se, divertir-se de modo criativo; as oficinas de desenvolvimento pessoal, em que a escrita é instrumento privilegiado de autoexpressão; as oficinas de objetivos sociais, onde a expressão escrita e a dinâmica de grupo visam uma melhor integração à sociedade; as oficinas literárias, onde a produção escrita de cada participante é o objetivo em si [encontrar sua voz, seu estilo, descobrir as ferramentas, aprender a retrabalhar um texto etc]. É sobre este último tipo que falamos.
Cristina Norton, escritora portuguesa, a convite do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, recorreu, durante vários anos, às bibliotecas de seu país, ministrando cursos de escrita criativa a estudantes na faixa dos 8 aos 18 anos. Chamava de “jogos”, as suas atividades, a fim de não parecerem, logo de início, algo a ser construído a partir da razão crítica, como o faz, em geral, a ação escolar.

O método que Cristina Norton propôs – muito seguido por quem ministra oficinas – introduz o riso, o ridículo; faz possíveis as impossibilidades, olha a vida de outros modos, espia por diferentes frestas, abebera-se nas fontes da imaginação e da fantasia. “A imaginação das crianças deve ser treinada, atiçada, para que surjam as ideias e, por detrás dessas ideias, apareça uma história”, afirma Cristina, em Os mecanismos da escrita criativa; e ela mesma cita um pensamento de Freud, comparando o escritor criativo à criança que, ao brincar, reorganiza o mundo, usando, como matéria-prima a imaginação e a fantasia.

Seguindo o que parece brincadeira, as crianças e os adolescentes produzem, primeiro, textos soltos, depois historietas ou pequenos poemas, até chegar ao conto, conhecendo e reconhecendo-lhe a estrutura, sempre conforme seus níveis de desenvolvimento intelectual e psíquico*.

A cada etapa de escrita, segue-se a leitura dos textos em voz alta e, então, os textos recebem avaliação crítica dos demais participantes. Essa “crítica” é sempre orientada no sentido de ouvir e respeitar os diversos pontos de vista, de ajudar o autor a encontrar uma ou outra palavra que lhe tenha faltado e, sobretudo, perceber se as ideias foram expostas com clareza suficiente para um leitor desconhecido.
Estímulo à leitura

A prática da escritura, inevitavelmente, leva ao desejo de ler. A partir de certo momento – não muito distante do início – o aluno passa a dar-se conta do quanto mais precisa para encontrar as palavras, a respiração, o ritmo que suas ideias exigem. Daí, vai aos livros dos grandes autores, primeiro em busca do que precisa para o seu texto. Em seguida, é tomado pelo fascínio da leitura de um Eça de Queirós, de um Machado de Assis, de um Graciliano Ramos, e esquece a busca pragmática. Embebe-se dos mestres. E quer mais, sempre mais. O que ele precisava antes é agora muito pouco. Escrever numa oficina orientada não só desvela, como – em razão das trocas constantes – sustenta o desejo e a necessidade da leitura.
Uma outra virtude: a escritura, nas palavras de Héril e Mégrier, “cria, igualmente, a permanência e o porvir”, ao fixar vivências – transfiguradas ou não –, e ao servir de plataforma de lançamento para possibilidades hoje consideradas delirantes.

No plano pessoal, tais experiências darão, à criança, ao jovem e ao próprio adulto, uma leitura mais compreensiva, mais sistemática e, sobretudo, mais pessoal do mundo em que vivem. Irá abrir-lhes os olhos para outros universos possíveis. Dar-lhes-á mais confiança em si e nas suas possibilidades futuras. Tornará suas vidas mais ricas.

Uma oficina, como vimos, é um lugar de trocas, de encontros, de partilhas. É a experiência corajosa de ir, com a bagagem mais íntima, ao encontro de outros que, por sua vez, trazem e partilham a sua própria intimidade. É expor-se ao colega-leitor e aos comentários e avaliações.
Professor animador

Na escola, tal experiência vem ao encontro dos mais elevados propósitos educacionais, quer no âmbito cognitivo, quer no emocional, quer na construção de valores e de consciência cidadã. Mas é preciso que o animador desta atividade [o professor, via de regra] conheça o que faz, esteja sempre em processo de atualização e, mais do que tudo, saiba adaptar os exercícios práticos à realidade de suas turmas.

É ele, o professor, quem vai colocar em movimento o processo de escrita criativa na escola onde trabalha. Essa é sua imensa responsabilidade: tomar pela mão o estudante onde ele estiver e, com o auxílio da técnica, da instigação planejada, deixá-lo andar e viver todos os níveis de seu processo criativo. Olhando de longe e, quando necessário, intervindo com firme delicadeza.

Sabemos o quanto são escassos os meios para a instrumentalização do professor brasileiro em novas áreas do saber. No caso da escrita criativa, a precariedade bibliográfica é enorme, pois só agora despertamos para esta área; listamos, abaixo , os livros já saídos no nosso país e que podem ser bons auxiliares do ensino. São, fundamentalmente, obras para/sobre oficinas literárias para aspirantes a escritores; o professor cuidadoso, entretanto, saberá como adaptá-las à realidade de seus alunos.

* Um exemplo, dentre centenas de jogos possíveis: depois de separar o próprio nome em sílabas, o aluno recorta-as e forma novos conjuntos de palavras, aparentemente absurdos; depois escolhe um desses conjuntos e cria uma história em que todos os colegas possam acreditar.
Sobre o autor

Luiz Antonio de Assis Brasil é professor e ministrante da Oficina de Criação Literária do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Letras da PUC-RS. É autor de obras como A margem Imóvel do Rio e Música Perdida, entre outras
 
   

É preciso oferecer ao jovens livros que eles queiram ler

“Desde os cinco anos de idade eu lia livros. Mas a escrita foi um interesse que surgiu no fim da adolescência, como resultado da minha experiência anterior como leitor. O escritor é antes de tudo um leitor apaixonado. Alguns professores elogiavam minhas redações no colégio. Especialmente o de filosofia e o de língua portuguesa me incentivaram a escrever e foram muito importantes para que eu desse meus primeiros passos na produção de textos. Depois, tive professores de criação literária na faculdade de Publicidade que solidificaram minha decisão de me dedicar à literatura. Por fim, na oficina do professor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC de Porto Alegre, comecei a conviver com outros escritores e a publicar meus primeiros contos na Internet. A oficina nos exigia um conto por semana e propunha desafios como narrar uma saga familiar em cinco linhas, ou um episódio de dez segundos em dez páginas. Era um exercício intenso e divertido. A partir daí as coisas seguiram seu curso e estreei na literatura aos 21 anos. É preciso oferecer aos jovens livros que eles queiram ler, não apenas os que deveriam ler. Apreciei muito alguns livros na adolescência, como “À Mão Esquerda”, de Fausto Wolff, “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, todos os da Hilda Hilst, os contos de Edgar Allan Poe, de Tchekov. Novos autores brasileiros podem interessar muito aos adolescentes, como Carol Bensimon, João Paulo Cuenca, Simone Campos, Antônio Xerxenesky... e também livros de mistério, como os de Denis Lehane.”


Daniel Galera, 30 anos, cresceu e vive em Porto Alegre. Estreou aos 21 anos, com “Dentes Guardados” (ed. Livros do Mal). Depois vieram “Até o Dia em que o Cão Morreu”, “Mãos de Cavalo” e “Cordilheira” (todos da Cia. das Letras). Em abril, lança “Cachalote”, história em quadrinhos, ilustrada por Rafael Coutinho.


Bibliografia sobre criação literária

CARRERO, R. Os segredos da ficção. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
CARRERO, R. A preparação do escritor. São Paulo: Iluminuras, 2009.
GARDNER, J. A arte da ficção. Rio: Civilização Brasileira, 1997.
GOLDBERG, N. Escrevendo com a alma. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
KOCH, S. Oficina de escritores. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
LAMAS, B. e HINTZ, M. Oficina de criação literária. [2ª. e.] Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.
LODGE, D. A arte da ficção. Porto Alegre: L&PM, 2009.
PROSE, F. Para ler como um escritor. Rio: Jorge Zahar, 2008.
RIVADENEIRA, A. Como escrever um livro. São Paulo: Ediouro, 2009.