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Novas Cartilhas

Professores de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia renovam os métodos para conduzir seus alunos pelo universo da leitura e da escrita

12/08/2011

12/08/2011

Silvana Tavano

 Como estimular um grupo de “sujeitos”, quase sempre despreparados, a buscar “predicados” especiais para dar outro sentido ao “verbo” aprender? A partir desta pergunta essencial, três professores de português criaram experiências de escrita e leitura emblemáticas no ensino médio, envolvendo os jovens em dinâmicas inspiradas, desafiadoras e gratificantes.

Em São Paulo, os alunos de Wagner Garcia Siqueira, da Escola Estadual Prof.ª Ruth Cabral Troncarelli, são os protagonistas do projeto “Penso, Logo Escrevo”, elegendo seus temas e produzindo textos que buscam, mais do que uma boa nota, a aprovação do grupo e a satisfação pessoal. Ao longo desse processo, aprendem regras gramaticais e ortografia, percebem o alcance das palavras e descobrem que podem expressar ideias.

Já os alunos da “Oficina de Linguagem Teatral”, coordenada pela professora Kátia Macabu de Sousa Soares, mergulham na palavra pela emoção, reescrevendo e adaptando obras teatrais que ganham corpo e voz no palco do Instituto Federal Fluminense de Educação, Ciência e Tecnologia, em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro.

E é por meio da poesia que os alunos de Patrícia Costa de Santana investigam todos os gêneros literários e de quebra aprendem história, geografia e artes, entre outros conteúdos que, ao longo do trabalho, vão se inscrevendo naturalmente nas entrelinhas. Depois de virar um acontecimento em Governador Mangabeira, no interior da Bahia, o “Recital de Poesia” acabou mudando a imagem do Colégio Estadual José Bonifácio dentro da própria comunidade.
Além da matéria, esses três professores partilham da mesma paixão – a que os motivou a criar atividades culturais que empolgam os jovens, levando-os a ler, escrever e ver a língua portuguesa com outros olhos.
Redações de autor

Susto e perplexidade. Essa foi a primeira reação de Wagner Garcia Siqueira enquanto corrigia as redações de seus alunos de 3º ano do ensino médio, em 2004 – textos ruins que pesaram na média de 3,6 que a Escola Estadual Prof.ª Ruth Cabral Troncarelli, em Itaquera, obteve naquele ano no boletim do SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo). Ao ler frases como: “Não sei fazer redação” em inúmeras provas, Wagner se deu conta de que precisava encontrar estratégias para mudar aquela situação, pois de nada adiantaria tentar culpar os alunos pela incapacidade de produzir um texto com começo, ideias e fim.

Depois do baque, a reação: conversou com a direção da escola sobre suas inquietações e recebeu carta branca para atuar com liberdade a partir de uma proposta básica – a de relacionar o pensar e o escrever. Esse foi o ponto de partida do “Penso, Logo Escrevo”, um projeto simples que conquistou os adolescentes, ganhou a parceria dos professores da escola e também de fundações internacionais ligadas ao ensino, numa carreira cheia de êxitos e premiada pelo Ministério da Educação, em 2009, na 4ª edição do “Professores do Brasil”.

“A ideia era fazer com que os jovens pensassem em temas do seu interesse, trouxessem esses conteúdos e traduzissem seus pensamentos em palavra escrita”, diz o professor. Em 2004, com esse plano piloto em mente, Wagner convidou seus alunos a falar sobre os assuntos que gostariam de discutir naquele momento. Drogas, ídolos, sexualidade e outros temas do universo dos jovens entraram na sala de aula pela porta da frente e viraram pautas de trabalho – redações que, num segundo momento, seriam lidas em voz alta, garantindo um capricho ainda maior na tarefa: “Nessa etapa, eles já não estavam escrevendo para o professor, mas assinando um texto autoral que seria comentado por todo o grupo”.

No meio do processo, outra novidade importante – a reescrita: “Revisar, reescrever e editar o próprio texto também fazia parte do exercício, inaugurando uma prática até então inexistente”. Com autonomia e liberdade, os alunos pesquisaram, escreveram e lapidaram vários textos até chegar ao que consideravam ideal, a última versão que, então, recebia a avaliação do professor:

“Nosso projeto vai pelo caminho inverso. Começa pela produção, e a necessidade de referências e informações conduz à leitura”. Já no primeiro ano, o programa se revelou eficiente: “A postura do aluno mudou, refletindo a minha própria mudança. Com uma proposta clara, eu já não estava ali para promover a produção do conhecimento, mas para ajudá-los, confiando que eram capazes, e eles corresponderam. Nesse momento, percebi que havia encontrado um caminho”.

Com os primeiros bons resultados práticos – uma melhora significativa na produção textual –, Wagner participou de um concurso promovido pelo SESC de Belo Horizonte e conquistou o 4º lugar entre as experiências inovadoras de ensino que foram selecionadas em 2005, estímulo que o levou a procurar mais informações para aprofundar e sistematizar seu trabalho. Durante essa pesquisa, descobriu a fundação holandesa APS (Centro de Aperfeiçoamento de Escolas) e resolveu escrever, expondo seu projeto e pedindo ajuda. A resposta veio logo, com sinal verde e o nome da professora carioca Madza Ednir, especialista em mudanças educacionais e pedagoga do CECIP (Centro de Criação de Imagem Popular). Sob a sua supervisão, o projeto amadureceu e se expandiu, envolvendo outros professores, ganhando o palco no evento de fim de ano da escola e estimulando seu autor a analisar todo esse processo em uma tese de pós-graduação.

Em 2008, novos resultados do SARESP refletiam o efeito das mudanças: dessa vez, apenas 1,6% dos alunos apresentaram redações insatisfatórias, um índice muito distante dos 80% que, antes, não dominavam as competências e habilidades relacionadas à escrita. Mas o sucesso do “Penso, Logo Escrevo” não se mede apenas por números: o trabalho tem forte impacto na vida desses jovens, promovendo ganhos que se refletem não só na média escolar, mas, principalmente, na própria autoestima.
No palco, a palavra

Dar vida a um texto que está no papel, criando uma obra aberta a várias leituras e que pode ser absorvida por muitas pessoas ao mesmo tempo. A magia do teatro sempre encantou a professora Kátia Macabu de Sousa Soares que, não por acaso, acabou transformando a sala de aula em palco e levando os alunos a experimentarem a literatura sob os holofotes.

Prestes a completar 30 anos de magistério, Kátia hoje se dedica exclusivamente à Oficina de Linguagem Teatral, uma das diversas atividades artísticas oferecidas pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense. “As oficinas de artes fazem parte da matriz curricular do nosso ensino médio. O aluno pode optar por uma delas, mas precisa obter média anual e cumprir um limite mínimo de frequência para ser aprovado, como em qualquer disciplina”, explica Kátia que, atualmente também é Coordenadora de Assuntos Comunitários, dirigindo diversos projetos culturais extensivos, como o grupo “Nós do Teatro”, formado por ex-alunos da oficina, e o PROLEITOR, que também se vale da metodologia do teatro para despertar o prazer da leitura, expandindo a experiência das oficinas para outras escolas da região.

Formada em Letras, Kátia sentiu necessidade de criar um canal de comunicação que pudesse reverter o desinteresse e o desprazer que os jovens demonstravam com relação à leitura. Em 1995, introduziu o estudo de textos dramáticos nas aulas, envolvendo os alunos num novo enredo, no qual são conduzidos a fazer a reescrita e a adaptação das histórias, assim como a construção dos personagens. “A própria dramatização traz a oportunidade de perceber de que forma um texto se amplia e ganha outros significados”. Uma vivência que, segundo Kátia, faz que esses jovens passem a observar o que há por trás de um discurso político, de uma publicidade e de todos os textos aos quais todos são expostos o tempo todo. Com essa nova percepção, os alunos da oficina de teatro apresentam um desempenho diferenciado, até mesmo nas disciplinas exatas, às quais aplicam a capacidade de concentração exigida pelo teatro.

Na prática, o trabalho parte da leitura de textos narrativos conhecidos, poemas e crônicas, como as de Luis Fernando Veríssimo, aproximando-se gradativamente de clássicos como Shakespeare e Molière. “O grupo formado em 2009, por exemplo, trabalhou nas adaptações de “Meno Male”, de Juca de Oliveira, e da peça infantil “Muitas Luas”, de Tatiana Belinky. Conseguimos unir textos tão diferentes numa única montagem, construída em torno da questão do ‘poder’, e colocamos as duas histórias em cena simultaneamente, intercalando as histórias, com um resultado bastante interessante”. O trabalho em grupo se estende à pesquisa de figurino, maquiagem e sonoplastia, além da produção do cenário: “Durante o ano, acompanho o crescimento desses alunos, despertando para a leitura, pesquisando textos de apoio, colaborando com ideias, e ansiosos pelo dia da apresentação”.

Muitos prolongam a experiência do que ela chama de “literatura viva”, integrando o grupo “Nós do Teatro”, outro projeto da professora, iniciado há 15 anos, e que se mantém sem nenhum tipo de remuneração ou, como ela mesma diz, por puro amor à arte.
Em clima de poesia

Depois de ser aprovada no Concurso do Estado, Patrícia Costa de Santana topou o convite para lecionar no Colégio Estadual José Bonifácio, no município baiano de Governador Mangabeira, contrariando os amigos que, na época, desaprovaram sua escolha. Com alunos vindos da zona rural e também do precário bairro de Portão, a escola era marginalizada e tinha uma imagem muito negativa na comunidade: “Logo percebi que os alunos não eram ‘ruins’ e que algo poderia ser feito para provar o contrário”.

Desse desafio – o de mudar a imagem da escola e seus alunos – nasceu o projeto “Recital de Poesias”: “Era preciso criar um evento cultural que proporcionasse aos jovens um encontro com a arte. Como eu imaginava, a proximidade com a leitura e a prática de produção de textos realmente deram conta de demonstrar que os alunos são inteligentes e podem transformar o meio em que vivem”, conta a professora, formada em Letras Vernáculas, com especialização em Psicopedagogia.

Desde 2004, ela vem desenvolvendo e aprimorando essa ideia, abraçada com entusiasmo pelos 100 alunos, em média, que participam anualmente do projeto em todas as suas fases. Na primeira etapa de trabalho, todas as turmas estudam os poemas, a biografia do autor, o contexto histórico em que foram escritos, e produzem seus próprios textos. Num segundo momento, cada um escolhe de que forma vai participar do Recital com base nos seus interesses, integrando equipes que se preparam para declamar, cuidar dos figurinos, do cenário, do som, da filmagem, da fotografia e da iluminação, da divulgação e até da produção de lembrancinhas.

Oficializado como parte do conteúdo de seu curso de Literatura e Língua Portuguesa, o “Recital” recebeu o apoio da diretoria da escola desde o início e tem crescido ano após ano. Em 2006, o tema “Amor: Encanto e Magia nas Poesias Românticas” apresentou os alunos aos poetas Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Castro Alves, resultando no espetáculo “Sentimento da Noite”. Já, em 2007, o trabalho focou as poesias indianistas de Gonçalves Dias para produzir o recital “A Voz que Não Pode se Calar”. A poesia abolicionista de Castro Alves inspirou a 3ª edição do recital, em 2008, e também a produção de um livro de poemas escritos pelos alunos, intitulado “Lutas e Conquistas – Uma Trajetória de Vida”.

Além do aprimoramento da escrita e das questões gramaticais, da compreensão do texto e dos gêneros narrativos, o recital envolve diferentes conteúdos ligados a outras disciplinas. “Mas o aproveitamento vai além. Os alunos descobrem a leitura, pedem indicações de outros autores, eu os vejo lendo pela escola e percebo a preocupação com a qualidade de seus textos”. Para alguns, o recital segue dando frutos saborosos, como no caso da ex-aluna Aline Souza, que representou a escola no TAL – Tempos de Arte Literária –, em Salvador, chegando à 3ª etapa do projeto, promovido pelo estado.