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Desempenho com arte

Quatro projetos aproveitam o potencial integrador e sensibilizador da arte para fomentar a escrita e a leitura na escola

12/08/2011

12/08/2011

Equipe Onda Jovem 

 

A educação básica brasileira não tem apresentado os melhores resultados no que diz respeito às habilidades dos estudantes em compreensão e leitura, e expressão escrita. O que os educadores podem fazer para elevar o desempenho dos alunos nessas competências? Quatro projetos, desenvolvidos no Rio de Janeiro, em Mato Grosso, Rondônia e Minas Gerais, encontraram essa resposta na cultura e em suas diferentes manifestações.

A Escola Sesc de Ensino Médio, no Rio de Janeiro, possui uma Assessoria de Cultura, setor responsável pela programação anual dos eventos artísticos da instituição, como peças de teatro, apresentações musicais e literárias, e exposições de artes plásticas dos alunos. “Tudo envolve leitura, escrita, reflexão, a construção de conhecimentos. E há um aproveitamento interdisciplinar a partir do intercâmbio entre a assessoria e a área pedagógica”, explica Gustavo Gavião, professor de história da arte e coordenador do Ensino Médio.

Em Mato Grosso, o exemplo é dado pelo projeto Cantando em Libras, um dos destaques da edição 2009 do Prêmio Professores do Brasil. Desenvolvido pela professora de artes Nilva Oliveira na Escola Estadual 14 de Fevereiro, em Pontes de Lacerda, Mato Grosso, o projeto socializou o ensino da linguagem brasileira dos sinais por meio da música. “A música facilita o aprendizado em geral por estimular a memória, a concentração, a leitura e outras habilidades linguísticas”, ressalta Nilva.

Em Minas Gerais, vale o mesmo para a poesia, apresentada em recitais que revelam jovens talentos da Escola Estadual Coronel José Ildefonso, em Piranga. Idealizado pela professora Renilda Resende em 2002, o projeto tornou-se o principal evento cultural do município. “Integrou a escola à comunidade e despertou o gosto dos jovens pela leitura”, diz a diretora Maria Aparecida Dias e Souza.

Igual efeito ocorreu em Vilhena, Rondônia, na Escola Estadual Álvares de Azevedo, com a reorganização da biblioteca, iniciativa da professora de língua portuguesa Nidiane Latocheski. “Um ambiente adequado torna o ato de ler um prazer, e a leitura propicia a aprendizagem”, diz Nidiane, também vencedora do “Professores do Brasil” 2009. Conheça mais detalhes dos projetos.



Rio de Janeiro, RJ - Encontro das Artes na Escola Sesc de Ensino Médio

 
   

A instituição, escola-residência que recebe alunos de todos os estados brasileiros, é referência de educação integral. O Encontro das Artes é a apresentação semestral das produções dos alunos, orientados por uma equipe de professores de arte, dividida em teoria e prática. Os alunos são estimulados a formar bandas, grupos de poesia, núcleos de artes visuais e cineclubes. “A arte dá sentido aos diálogos entre as disciplinas”, explica o coordenador Gustavo Gavião. É possível envolver até a biologia, como ocorreu quando a escola trabalhava a questão da identidade com alunos de diferentes regiões que iniciavam o convívio na instituição. Em literatura, os jovens liam O Alienista, de Machado de Assis, que trata da loucura, uma fragmentação do conceito de identidade. Em biologia, conhecendo as teorias da origem da vida, percebiam que as teorias faziam parte da necessidade do homem de se conhecer, o que está no contexto de construção da identidade. Por fim, o trabalho resultou em produções plásticas, visita ao Museu do Inconsciente e exposição/seminário sobre o conhecimento construído. “Foi uma experiência complexa, porém fascinante”, lembra o professor. “A leitura associada a um trabalho plástico dá prazer ao aluno, pois ela é como uma fonte para resolver um desafio. O mesmo ocorre com a escrita no trabalho de produção de um jornal, de composição de peça teatral ou letra de música.”



Vilhena, RO - Reestruturação da Sala de Leitura Álvares de Azevedo

 O projeto teve como objetivo central criar um ambiente de leitura propício à aprendizagem para facilitar e estimular o acesso dos alunos à cultura. “Tudo requeria a reorganização da sala de leitura que tínhamos, criada em 1999”, conta a professora Nidiane Latocheski, idealizadora da iniciativa. Os móveis se deterioraram com o tempo, o acervo de livros precisava de mais qualidade e diversidade para atender o público leitor adolescente. A professora buscou parcerias na escola e com empresários locais. Em agosto de 2008, recebeu do Ibama autorização para utilizar madeira apreendida na região. Um grupo de alunos e professores se encarregou de transportar as toras para a marcenaria que, em apoio à escola, fabricou bancos, estantes e escrivaninhas. Estudantes do ensino médio realizaram o evento Poesia Solidária, apresentando produções próprias de forma teatral, musical, ou declamadas em vídeos. A ideia era angariar fundos e comprar espumas para almofadas, mas uma fábrica de colchões decidiu doar o material. Funcionárias da escola costuraram capas para as almofadas. Em março de 2009, a sala de leitura foi reinaugurada com apresentações culturais produzidas pelos estudantes. Coube a eles, ainda, discutir e estabelecer novas regras para o bom funcionamento do espaço. “O projeto aproximou os alunos dos livros, e eles aprenderam como realizar uma ação em parceria com a comunidade”, diz a professora.



Pontes de Lacerda, MT - Grupo Cantando em Libras

 
   

As dificuldades de comunicação de alunos surdos foram a motivação inicial para a criação do Grupo Cantando em Libras, na Escola Estadual 14 de Fevereiro, projeto da professora de artes Nilva Fátima de Oliveira. Mas ela queria tanto divulgar a linguagem de sinais quanto desenvolver habilidades nos alunos para favorecer o aprendizado em geral. Recorreu à música, que ensina as pessoas a ouvir de maneira ativa e refletida, estimula a criatividade, a memória, a concentração, a disciplina. Os jovens do grupo, ouvintes e surdos, foram sensibilizados com um vídeo em Libras, que apresentava o poema “Você precisa ser surdo para entender!”. Na sequência, exercícios corporais se alternavam com o alfabeto de sinais. Os alunos treinavam com dramatizações. Músicas do repertório adolescente, como “Abcdário da Xuxa”, facilitavam o desafio. Depois, mais confiantes, os jovens selecionaram músicas variadas e o grupo traduzia as letras para Libras. A primeira apresentação foi em maio de 2008, no Dia das Mães, seguindo-se desde então programações na escola e também na cidade: no Natal, com interpretações de “Noite Feliz” e “Todo Dia é Natal”, e em eventos de educação inclusiva e educação ambiental. E os ganhos no aprendizado? “Os alunos afirmam que as aulas se tornaram bem mais prazerosas, que eles agora se expressam melhor e leem um texto com menos dificuldade de entender suas mensagens”, diz a professora.



Piranga, MG - Recital Poético

 
   

Um dos mais esperados eventos culturais da cidade de Piranga nasceu na Escola Estadual Coronel José Idelfonso, em 2002, no centenário do poeta Carlos Drummond de Andrade. A professora de português da escola, Renilda Resende, aproveitou a ocasião para criar o projeto Recital Poético, estimulando o envolvimento dos alunos com a leitura e a escrita e, por fim, a apresentação dos poemas para o público. A escola, fundada em 1912, uma década depois do nascimento do poeta, tem cerca de 1.500 alunos, 600 no ensino médio. A cada ano, as últimas classes do ensino fundamental e as do ciclo médio recebem nomes de autores de poesia e prosa, brasileiros e estrangeiros. É definido um tema para as atividades de leitura e escrita, que resultam no recital, em geral no mês de outubro de cada ano. Em 2007, foi Amor. As turmas leram e apresentaram trabalhos do autor definido para a classe. Conheceram os poemas de Shakespeare, apresentados em cenários com Romeus e Julietas. Em 2009, o tema foi Humanidades. “Os estudantes criam também suas próprias poesias. O recital revela talentos, tem aluno que dá show”, diz a diretora Maria Aparecida. “O objetivo é despertar o gosto pela leitura, que abre as portas para a cultura. O projeto melhorou a interpretação de textos dos alunos”, afirma. O recital acontece no Cine Teatro Municipal. “O prefeito disse que foi o melhor espetáculo de cultura que ele já viu”, conta a diretora.