Você está aqui: Página Inicial Acervo Edição 18 As leituras do mundo

As leituras do mundo

Muito além da alfabetização, ler e escrever são competências com lastros na realidade do jovem

12/08/2011

12/08/2011

Liliane Oraggio 

 

O que existe em comum entre um conto de Machado de Assis, uma bula de remédio, um e-mail para o chefe, uma piada no Twitter, a plaqueta que indica o itinerário de um ônibus, uma passagem bíblica, uma carta de amor e as questões de matemática do vestibular?

Embora sejam conteúdos distintos, todas essas mensagens têm a mesma característica essencial: são escritas e, portanto, dependem de leitura (de texto e/ou de imagem) para que sejam entendidas e respondidas. E isso vai muito além de juntar as sílabas, como na alfabetização. Essa qualidade de expressão, que assegura a integração social do indivíduo, é o letramento, termo cunhado pelo educador Paulo Freire para designar a capacidade do aluno de, por meio da leitura e da escrita, “ler” o mundo.

“O termo surgiu da necessidade de observar o estado de quem sabe ler e escrever, em contraposição a uma preocupação anterior, que se voltava apenas para o alfabetismo. É preciso saber fazer uso efetivo da leitura e da escrita para dar conta das demandas sociais, que mantêm o acesso à escola, ao mercado de trabalho, à cultura, ao lazer, ao consumo. Mais do que nunca, nesta era virtual, o letramento é questão de sobrevivência.”, diz Cláudia Graziano Paes de Barros, professora do Departamento de Letras e do Programa de Mestrado em Estudos de Linguagem da Universidade Federal do Mato Grosso.

Para a professora, autora de vários estudos sobre modos de leitura e escrita de jovens, pessoas que gostam de ler geralmente tiveram na infância o contato com um adulto que contava histórias, ou foram embaladas com canções de ninar. “Esta é uma prática letrada sem material impresso”, diz ela.

De fato, uma pesquisa nacional feita pelo Instituto Pró-Livro (www.prolivro.org.br), divulgada no ano passado, confirma que esse processo tem grande influência familiar: 49% dos brasileiros considerados leitores, isto é, que declararam ler um livro a cada três meses, foram incentivados pela mãe. Outros 39% foram impulsionados pelos educadores. “Isso mostra que a família tem um papel relevante na formação de leitores, porque na escola o contato com os livros é geralmente encarado apenas como tarefa. A escolha espontânea de um livro e o prazer de ler não são despertados nas crianças e nos jovens”, diz Zoara Faillan, gerente Executiva de Projetos do Instituto Pró-Livro.

A pesquisa constatou ainda que, na faixa etária de 14 a 17 anos, os jovens leem 6,6 livros anualmente, sendo que 5 são indicados pela escola. Já entre 18 e 22 anos, o número baixa para 4,4 livros por ano. Dois deles indicados pela escola. Em geral, segundo esse estudo, o brasileiro lê em média 4,7 livros por ano. “A biblioteca é vista apenas como um espaço para ficar fora da sala de aula e não como local de interação dinâmica com os livros e com o saber. A questão da leitura vai além da alfabetização, tem gente de nível superior que não lê. Além disso, muitos professores não são leitores e, aí, como estimular os alunos? Seria fundamental que a formação de educadores de todas as disciplinas incluísse o letramento”, afirma Zoara.

Competência de base

Essa é uma exigência cada vez maior. A ênfase na leitura e na escrita como competência de base permeia toda a proposta de Ensino Médio Inovador, do Ministério da Educação, pelo qual as escolas recebem recursos para implantar projetos nas áreas de Cultura, Ciência, Tecnologia e Trabalho.

“Nas últimas décadas, o foco do Ministério foi ampliar o acesso ao ensino fundamental. Esse salto quantitativo ocorreu, mas com perda da qualidade. Agora, o objetivo é melhorar a qualidade do ensino médio e isso não se faz sem o letramento”, diz Jorge Teles, diretor de Políticas da Educação de Jovens e Adultos.

“O termo letramento é novo e muitos professores fizeram sua formação universitária sem levar isso em conta. Hoje, além de transmitir o conteúdo de uma matéria específica, o professor tem de participar da formação do aluno e garantir que ela tenha continuidade no futuro. É um processo contínuo, assim como o letramento que começa antes de a criança ir para a escola e continua até depois de ter o diploma da universidade, pois nunca paramos de aprender.”

A professora Valéria Leão Ramos, que dá aulas de história no primeiro e terceiro anos do ensino médio, na Escola Estadual Professor Aroldo de Azevedo, zona leste da capital paulista, já se antecipou: “Para mim, é claro que o letramento é uma atribuição de todas as disciplinas e não apenas responsabilidade dos docentes de língua portuguesa. Acredito que não adianta fazer o aluno ler e escrever apenas no dia da avaliação. É preciso insistir nisso em todas as aulas”, diz ela, que costuma cobrar a leitura e, em seguida, a produção de textos reflexivos. Cópia de pesquisa não vale. E o prazer, onde fica? “Para despertá-lo, também incluo letras de músicas, poesia, quadrinhos, desde que relacionados com os períodos históricos, pois esses gêneros são mais próximos dos jovens. Percebo muito envolvimento quando peço que eles escrevam um texto autobiográfico. Eles se expressam muito bem contando a história de suas próprias vidas”, diz a professora, que está sempre de olho nos recursos tecnológicos que podem complementar sua atuação em sala: “Não dá pra continuar oferecendo somente lousa e giz enquanto os jovens têm acesso à Internet, às linguagens virtuais, a equipamentos e programas que são muito lúdicos e podem ajudar – e muito – a ampliar o conhecimento.

Considero falsa a crença de que os jovens não se interessam pela escrita e pela leitura, mas cabe a nós descobrir como usar esses recursos com o objetivo de ampliar a cultura desses jovens”, diz Valéria.
Hiperleitura

É verdade que na era virtual o ‘saber ler’ já não é mais o mesmo. Em vez da leitura linear dos livros e outros materiais impressos, os meios eletrônicos cruzam informações em alta velocidade. Exigem a apreensão de um mosaico de discursos transmitidos em hipertextos, links. Nesta ação, o leitor monta e desmonta os textos, tornando-se um coautor do conteúdo e exercitando intensamente a capacidade de articulação. Ele determina no momento do acesso, e não mais da criação, o caminho da leitura.

Os jovens que cursam o ensino médio hoje já nasceram nessa era pós-Internet e estão à vontade nesse jeito de navegar. O professor que não quiser ficar atrás dos alunos tem de aprender, até mesmo com eles, a lidar com a ciberlinguagem. Essa é a raiz de um descompasso que vem afetando a educação formal: “A escola é antiga e ainda responde a modelos fixados em 1622, no Ratio studiorum, documento escrito pelos jesuítas sobre a organização escolar. Há professores que não sabem nem ligar o computador e ficam impermeáveis às mudanças, até para se proteger da sobrecarga de trabalho. Ao passo que os alunos dominam o computador, o celular, as múltiplas linguagens usadas na prática, no dia a dia. Isso é novo para o professor, não para o aluno. O turbilhão da realidade está pressionando os muros da escola, que já não pode ficar limitada às formas antigas, que tendem a perder a validade se não forem devidamente atualizadas”, diz Edson Machado, formado em Letras e coordenador de Oficinas Pedagógicas em que são treinados os professores coordenadores do ensino médio de 715 escolas da região Leste III de São Paulo.

Nesse mar de mudanças e de influências, a união dos saberes faz a força: “A tarefa de descobrir os interesses genuínos dos alunos e aproveitar isso no processo de letramento é uma tarefa coletiva, de todas as disciplinas”, afirma a educadora Ana Paula Corti, da ONG Ação Educativa. “O primeiro passo é perguntar o que eles leem, dentro e fora da escola. Por exemplo: entrevistei um menino que dizia que não gostava de ler, que não era leitor porque não conseguia dar conta de um livro inteiro. Mas, conversando, descobrimos que ele escrevia letras de samba. Então, ele gostava de escrever! O gosto pela leitura surgiu quando sugeri que ele pesquisasse a vida dos sambistas que ele admirava. A partir do que já era prazeroso para ele, fomos ampliando o repertório e as formas de leitura”. Em coautoria com Ana Lúcia Souza e Márcia Mendonça, Ana Paula escreveu o livro Letramentos no Ensino Médio, que discute o tema e aponta várias iniciativas que podem ser postas em prática por professores de qualquer disciplina, em qualquer escola.
Contextos

Além da compreensão do conteúdo, é preciso fazer com que o aluno perceba que há várias linguagens e saiba usá-las na ocasião certa. “O letramento tem de estar associado aos contextos em que vivemos. Na igreja, lê-se a Bíblia. No trabalho, há outras demandas de leitura, e assim os diferentes gêneros discursivos devem ser alternados. Por isso não dá para falar de leitura e escrita de maneira generalizada. Antes de definir como estimular o aluno, é preciso saber: de qual jovem estamos falando? De que tipo de leitura? De que tipo de escrita? Em que contexto? Em seguida, o jovem deve se reconhecer como leitor. Mesmo que não leia livros, se ele mapear o seu dia a dia e listar o que faz na escola, em casa, na lan house, vai detectar práticas de leitura e escrita. A idéia é propor uma ampliação prazerosa a partir desta base que o aluno já tem”, diz Ana Paula.

Por isso, o livro didático não deve ser o único instrumento de letramento dos alunos, e pesquisas mostram que mesmo nas classes mais pobres existem livros, enciclopédias, revistas (que são o material impresso preferido de 52% dos leitores brasileiros, segundo o Instituto Pró-Livro). “Nenhuma outra geração de jovens escreveu tanto como a de agora. Eles estão on-line, em rede, e a comunicação é a escrita. Sim, a escrita é abreviada, não segue as normas da gramática e a grafia convencionais, mas isso também é escrita, e o jovem sabe quando e como usá-la. Prova disso é que corrigi duas mil redações de vestibular e não houve nenhuma ocorrência de ciberlinguagem. Os jovens entendem que são esferas diferentes, que a linguagem é para ser usada como uma roupa, mais ou menos formal. Acho que eles têm muita prática nesse trânsito, e isso falta aos professores”, diz Claudia Graziano.

“Não importa o suporte. Seja o livro, a Internet, o quadrinho, ou a música, o mais importante é estimular a curiosidade do jovem e criar atividades em que ele escolha, espontaneamente, o que quer ler e escrever”, diz Edson Machado. “Eu me apaixonei pela leitura quando uma professora chegou com uma caixa de livros, despejou todos eles no centro da sala e pediu que cada um escolhesse o que queria levar para casa. Se fosse só mais uma obrigação escolar, sem gosto de brincadeira, não teria tido esse efeito”.
Sobre a autora

Liliane Oraggio, 47 anos, é jornalista, escreve para várias publicações nas áreas de Comportamento, Educação e Sustentabilidade. É também roteirista e diretora de vídeos institucionais. Assina a coluna “Tesouros sem Frescura”, do site www.modasemfrescura.com, em que publica minicontos e outras observações poéticas do cotidiano.



Professores inspirados, alunos motivados

A história é comum: mestres apaixonados pela matéria que lecionam contagiam seus alunos e têm influência decisiva sobre suas escolhas profissionais. Aconteceu comigo, no fim da década de 1970. A monotonia das aulas de português no Colégio Estadual Casemiro de Abreu, na zona norte de São Paulo, foi quebrada pelo professor Manoel Cardoso, sergipano, cheio de energia e leitor voraz de literatura brasileira. Além da gramática, que ensinava com muita leveza, duas vezes por semana ele coloria as aulas com trechos apetitosos de Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e muitos outros. O professor conta: “Nasci no interior de Sergipe e fui alfabetizado por minha mãe. Em casa, circulavam jornais e revistas e lia tudo que me chegava às mãos. Cada aluno só escreverá bem se for capaz de apaixonar-se pela palavra, de brincar com ela, de desmontá-la, a ponto de ler propaganda, cartazes, anúncios e descobrir que por trás de tudo existe algo delicioso, lúdico. Devo muito às ideias de Samir Curi Meserani, que lançou os primeiros Cadernos de Criatividade. Aproveitei muitas das sugestões desse grande educador”.

Nas aulas do professor Cardoso, que lecionou em várias escolas estaduais da capital e do interior de São Paulo, escrever não era tarefa cobrada, apenas estimulada. O aluno tinha liberdade de não entregar suas redações para avaliação. A alegria estava mais em percorrer o caminho do que em atingir uma meta. Foi assim que eu comecei a ter coragem de mostrar meus poemas e crônicas para o mestre que re-al-men-te se importava com elas. E era uma emoção ler seus comentários manuscritos nas margens dos meus textos datilografados.

Além disso, ele encabeçava a realização de oficinas e torneios literários, que envolviam a escola toda durante várias semanas. “Daí surgiram vários talentos, mas julgo, porém, que o mais importante de tudo eram as aulas de redação, semanais, que abriam as fronteiras de cada jovem ao maravilhamento que a palavra proporciona. Faziam parte das aulas notícias do jornal, da revista, que superassem o meramente informativo; os artigos, as crônicas, os poemas, os quadrinhos, as charges eram analisados e avaliados. Os livros eram selecionados não somente atendendo às exigências do vestibular, mas como leituras prazerosas. É preciso dar poder de escolha aos alunos”, diz o mestre septuagenário, que mantém o entusiasmo preparando grupos de alunos para o vestibular.

Na época, busquei ler tudo o que Cardoso citava nas aulas e, por conta da gostosura que era isso, acabei trocando a vaga já conquistada na faculdade de Engenharia Industrial pela faculdade de Letras e, depois, de Jornalismo. Há mais de vinte anos ganho a vida lendo e escrevendo, e, essencialmente, transitando em várias redes em busca de boas histórias para contar, com o mesmo entusiasmo e curiosidade estimulados pelo professor naquelas aulas da adolescência. Sou muito grata a esse grande encontro nascido e criado na rotina escolar. (L. O.)