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Acesso limitado

A gestão das bibliotecas e a mediação da leitura inadequadas afastam alunos dos livros

12/08/2011

12/08/2011

Cristiane Ballerini

 Para muitos jovens, estudar em uma escola com biblioteca nem sempre significa acesso aos livros e à possibilidade de descobrir o prazer da leitura. A ideia de que os alunos “estragam” os livros ainda vigora entre parte dos diretores e influencia diretamente a prática de gestão das bibliotecas. Em várias delas, o aluno não pode nem mesmo se aproximar das prateleiras de livros, tampouco levá-los para casa.

“Dessa forma, o aluno lê o que o funcionário da biblioteca acha que ele deve ler ou pesquisar. Ele não tem a chance de experimentar a literatura por iniciativa ou gosto próprio”, diz Jane Paiva, professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Doutora em educação, Jane coordenou uma pesquisa solicitada pelo Ministério da Educação em parceria com a Organização dos Estados Ibero-americanos, para avaliar as condições e atividades das bibliotecas escolares. Foram entrevistados alunos de várias séries, inclusive do primeiro ano do ensino médio, diretores, professores e responsáveis pelas bibliotecas de 200 escolas, em cinco estados brasileiros – Acre, Goiás, Bahia, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Os resultados do estudo são esperados para o começo de abril, mas Jane Paiva, que já coordenou outra pesquisa semelhante em 2005, lança algumas luzes sobre o assunto: “O que a gente observa, pelas respostas dos questionários, é que, de modo geral, os alunos não são refratários aos livros. Os problemas acontecem em relação ao uso da biblioteca e dos materiais disponíveis para incentivo à leitura”.
Livros na escola pública

Atualmente, o Ministério da Educação mantém o Programa Nacional Biblioteca da Escola, por meio do qual distribui livros para todas as escolas públicas, utilizando como referência o número de alunos. Uma escola com até 250 alunos, por exemplo, recebe 20 livros de sua escolha por ano. A conta dá 0,08 livro por estudante.

O número é assustadoramente pequeno, mas se considerarmos que as bibliotecas formam seus acervos ao longo de anos e há muitos municípios que custeiam programas de incentivo à leitura e formação de bibliotecas, como prevê a lei, esse aspecto perde parte de sua relevância.

“Acho que os acervos encaminhados para as escolas são muito ricos. Os problemas são de outra ordem. Já vimos escolas nas quais os pacotes com os livros estão fechados até hoje, como se não fossem importantes. Então, na verdade, é uma falha na formação dos educadores que não elegem o livro e as ações em torno da leitura como fundamentais”, diz Jane Paiva.
Os educadores e a leitura

Mais do que permitir que os alunos mexam nas prateleiras e abrir suas bibliotecas para toda a comunidade, em horários ampliados, as escolas com bibliotecas precisam de educadores e mediadores capazes de envolver os alunos em experiências positivas e prazerosas de leitura.

Protegidos pelo anonimato das pesquisas, como a coordenada por Jane em 2005, vários professores revelam o que pode estar no cerne dessa questão: eles mesmos não são leitores.
Devido a falhas em sua formação escolar e profissional, esses educadores estão longe de encontrar na leitura uma fonte de conhecimento e prazer, além de desconhecerem os acervos das escolas. “Não tem jeito, quem não é leitor não forma leitor. Por isso, é preciso repensar a formação dos educadores”, conclui Jane Paiva.