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A transformação pelo texto

Alunos do ensino médio contam como os hábitos de ler e escrever afetam suas vidas, na escola e fora dela

12/08/2011

12/08/2011

Cristiane Ballerini

 Definida por si mesma como “muito tímida”, a estudante Aline Brito Campos, de 17 anos, nunca imaginou que, um dia, estaria no palco de sua escola em Parnamirim (RN), contando histórias para um grande público. Menos ainda que seria o contato mais intenso com a literatura o responsável por tamanha transformação. O “feito” é resultado da ousadia de sua professora de língua portuguesa e literatura, Claudia Gomes de Araújo.

Convencida de que as tradicionais aulas expositivas desagradam boa parte dos alunos, Claudia sempre buscou estratégias inovadoras de ensino. Seu último projeto, a Cafeteria Sabor Literário, envolveu a participação de 1.400 alunos da Escola Estadual Presidente Roosevelt e lhe rendeu o Prêmio Professores do Brasil, em 2009.

Diante de um salão pouco utilizado da escola, Claudia vislumbrou uma cafeteria onde, além de saborear quitutes, os pais e moradores do bairro pudessem acompanhar apresentações culturais, como teatro, música e poesia. Lançado o desafio aos alunos, o trabalho envolveu boa parte dos jovens do ensino médio da escola.
O projeto, que está na segunda edição e tem duração de uma semana, utiliza os conteúdos das aulas de literatura: livros se transformam em peças, canções e recitais. Assim, no meio do cafezinho, por exemplo, é possível encontrar Aluísio Azevedo falando com o público sobre sua obra mais famosa, “O Cortiço”; ou escutar as canções de Caetano Veloso que trazem traços do trovadorismo, uma das primeiras manifestações literárias da língua portuguesa.

Além de se revezarem nos palcos, os alunos também são responsáveis por atender às mesas, elaborar os convites, os cardápios e a decoração. “Nessas tarefas, eles constroem e experimentam ao extremo suas capacidades de expressão e comunicação. E, quando mergulham em um livro para transformá-lo em outra linguagem, não aprendem apenas literatura. Surgem também outros conteúdos como contextos históricos, geográficos e políticos”, conta a professora Claudia.

No caso de Aline, que chegou a perder nota por fugir de apresentações de trabalhos e tremia cada vez que ouvia um professor lhe perguntar algo, a Cafeteria Sabor Literário despertou a autoconfiança e novas habilidades: “Fiquei mais segura, certa da minha capacidade de produzir muitas coisas boas e também me expressar em público.”

Também quem vê Kleber Lacerda Costa, de 17 anos, interpretar os textos mais diversos em rodas de leitura, sempre arrebatando a atenção dos ouvintes, não imagina que as aulas de português e literatura já foram apenas “uma obrigação” para o jovem estudante de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Até a oitava série, ele lia apenas o essencial para ir adiante com a matéria. “O jeito que a escola ensina português pode até afastar o aluno do livro. Tive professores que transformavam a leitura em um terror. Era sempre aquela ameaça: se você não ler esse livro, não vai passar. É um retrocesso porque você deixa de gostar do livro antes mesmo de lê-lo”, diz Kleber.

O rapaz só foi mesmo experimentar o prazer da leitura no ensino médio. Aluno da Escola Estadual Guadalajara, que mantém um projeto de acesso democrático e estímulo à leitura em parceria com a ONG Care Brasil, Kleber foi incentivado a participar de um curso para formação de mediadores de leitura. Em pouco tempo, sua relação com os livros se tornou outra: “Descobri que os livros podem ampliar horizontes. Você não fica preso naquele mundinho imposto. Você cresce, aprende a discernir as coisas, a ter opinião própria.”

Hoje, quatro anos depois, Kleber não é o único a desfrutar dos benefícios que a leitura lhe trouxe. Sua atuação como mediador desperta o interesse pelos livros na família, na rua e no bairro onde mora. Além de participar de rodas de leitura e saraus, com histórias escolhidas sob medida para cada grupo de ouvintes, ele atua na formação de outros jovens mediadores. “Eu me sinto realizado. É gratificante ver como os livros podem mudar a vida das pessoas”, diz Kleber.
Ler sem imperativos

Movimentar uma sala de aula, ou uma escola inteira em torno da leitura e da escrita pode parecer missão das mais difíceis e complexas. Nem sempre. Munidos de sensibilidade para captar os interesses dos alunos, vários professores simplesmente leem em voz alta algo que instigue a turma. E, aos poucos, vão descobrindo estratégias bem-sucedidas, como parar de ler em momentos de suspense, fazendo com que muitos alunos corram à biblioteca para dar continuidade à história antes da próxima aula.

Como enfatiza o escritor e professor francês Daniel Pennac, o importante é lembrar que “o verbo ler não suporta imperativo”. Pennac, que tem dedicado parte de sua obra a desvendar as armadilhas escolares que costumam resultar na formação de “não-leitores”, destaca que um dos caminhos para reconciliar os alunos com a leitura é, muitas vezes, não pedir nada em troca. Em vez do entendimento do texto, ou da análise gramatical, que tal só um pouco de prazer ao ler uma boa história?

Mesmo em atividades oficiais da escola, como os concursos de redação, cobranças exageradas podem comprometer as possibilidades de aprendizado. É o que mostra a experiência de Deyvson Pereira, um recifense de 19 anos, que acaba de concluir o ensino médio. Ex-aluno da bem-sucedida Escola Experimental Porto Digital, Deyvson venceu o 15° Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação no Ensino Médio.

Com o vestibular se aproximando, ele pensava em não participar do concurso. Foi o processo de pesquisa, realizada coletivamente pelos alunos, que o cativou. Os professores não fizeram qualquer pressão, mesmo sabendo que o rapaz tinha chances de trazer o prêmio para a escola. “Sempre gostei de ler e escrever. Tanto que estou prestando vestibular para Letras. Mas, aqui na Porto Digital, aprofundei meus conhecimentos. Eles gostam de trazer o aluno para o centro das atividades, de experimentar. Não é aquela coisa bitolada no conteúdo obrigatório”, conta Deyvson.

Para tratar do tema proposto pelo concurso – Rondon: a luta pela integração nacional e a causa indígena –, ele trilhou um caminho original, estabelecendo paralelos entre rituais indígenas e acontecimentos históricos. Preocupado em dosar razão e emoção, realidade e imaginação, Deyvson diz que nem sempre é fácil dar sentido ao texto: “Se você é crítico, fica ali sempre querendo fazer melhor, mas no final, o resultado é compensador”. E foi trabalhando em parceria com outros colegas, quando os alunos com mais facilidade para a escrita ajudavam os outros, que Deyvson descobriu a vocação de professor. “Foi como se eu pudesse experimentar um pouco do gosto de ensinar”, diz o futuro mestre.

Os torneios e concursos são oportunidades para a revelação de talentos. Outra vencedora das competições de redação, Thaís Nunes Souto, de 15 anos, da pequena cidade de Rubim (MG), venceu mais de 500 concorrentes no IV Concurso das Minibibliotecas, promovido pela Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Minibibliotecas é um projeto da Embrapa que disponibiliza acervos multimídias, inclusive com livros e impressos, para 1.370 escolas públicas do País, em áreas rurais. A intenção é democratizar informações e gerar renda entre alunos e agricultores, com materiais sobre preservação ambiental, técnicas de cultivo de hortas, criação de animais e formação de pequenas agroindústrias, entre outros assuntos.

O tema do último concurso, “Conhecimento que Gera Desenvolvimento”, remete justamente a um dos maiores desafios de comunidades como Rubim – consolidar conhecimentos entre as pessoas e gerar qualidade de vida a partir daí. Filha de pais que não tiveram oportunidade de ir além dos primeiros anos escolares, Thaís sempre soube que estudar poderia mudar seu destino: “Justamente por não terem tido essa chance, meus pais sempre me incentivaram”.

Para chegar à frente de tantos outros autores, Thaís revela que contou com a ajuda valiosa de Cacilda Alves Braga, a bibliotecária da escola. Muito próxima dos alunos, a ponto de pedir para a turma ajudar a colocar ordem nos mais de 1.000 livros do acervo, Cacilda inspirou a redação de Thaís, falando sobre como os moradores usufruíam dos livros. “Cheguei à conclusão de que a biblioteca vai além das fronteiras da escola. Muitos pequenos agricultores procuram livros aqui para aprender melhor sobre cultivo. É o conhecimento mudando a vida das pessoas”, diz a jovem.
Expressão digital

Já vai longe o tempo em que o papel era o único suporte para a expressão escrita. Os meios digitais não apenas prescindem de papel, tinta e impressão, como também revolucionam a forma como produzimos e trocamos informações. Parte das escolas e dos educadores, no entanto, ainda usa como referência nosso passado analógico.

Para a professora Maria do Carmo Brant de Carvalho, superintendente do CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, a escola perde oportunidade de usar os novos meios em favor do ensino da leitura e da escrita. “A filha de minha empregada repetiu o ano por faltas. Ela lê muito bem, vive em lan houses, sabe fazer blogs e pesquisas na rede. Mas a escola não está usando essas habilidades importantes. São capacidades substantivas que estão na base da escrita – a fluência comunicativa e a interação com vários atores”, diz Maria do Carmo.

A estudante paulistana Deborah Salles, de 17 anos, mantém o blog “Cia. Penélope e a maçã” há seis meses. Em parceria com a amiga Renata, Deborah mostra suas experiências com pintura, desenho, fotografia e outros suportes. Mais do que uma vitrine de trabalho, o blog é acompanhado de perto pelos amigos, gente da mesma idade que tem interesses semelhantes. “Sei de muita gente que fica com preguiça de ler e preferiria apenas ver imagens. Mas o texto é importante. Ele me ajuda a refletir sobre o que estou fazendo”, diz Deborah.

Filha de uma psicanalista e irmã de um jornalista, ela conta que os livros eram parte importante de sua vida antes mesmo da escola. Mas foi no ensino médio de uma escola particular que ela teve oportunidade de “ir fundo” na leitura e participar de atividades interdisciplinares de produção de textos: “Há algum tempo, por exemplo, fiz um trabalho sobre Cubatão que envolvia filosofia, história e arte. Isso colabora para você aprender a conectar idéias que, a princípio, parecem não ter ligação”, diz a jovem artista plástica.

Também blogueira, Jéssica Elisa Posenato, de 18 anos, nunca havia pensado em marcar presença no mundo virtual. Seu interesse inicial era mesmo produzir um jornal em parceria com Pedro, um colega da Escola Estadual Professora Ephigenia Cardoso Machado Fortunato, em Bariri (SP), onde concluiu o ensino médio no ano passado. Diante da falta de recursos para papel e impressão, recorreram à professora de português Meire Falseti, que desenvolve um projeto de correspondência entre os alunos da escola e da APAE local. “Conversamos com a professora e ela deu a sugestão do blog. Pensamos, então, que também seria uma forma de incentivar outros colegas a darem seus pontos de vista sobre os assuntos comentados”, conta Jéssica.

Na condução do blog, Pedro se mostra mais interessado em assuntos políticos e polêmicos, enquanto Jéssica usa o espaço para textos pessoais e reflexivos. A experiência está sendo tão positiva para a garota que, no momento, ela se aventura a escrever um livro. A narrativa, carregada de sonho e romantismo, em breve deve estar também nas páginas do blog. “A leitura para mim é um portal mágico que transporta você para outras realidades. Daí vem minha vontade de escrever e poder viajar nas minhas próprias histórias”, diz Jéssica.

Enquanto alguns jovens buscam espaço para expressar as próprias ideias, o agora universitário e bolsista do ProUni Renan da Silva Costa, de 19 anos, recém-saído do ensino médio, confessa que começou a escrever textos mais pessoais com a única finalidade de conquistar garotas. Esperto, ele logo escolheu um dos poetas mais arrebatadores como inspiração. “Foi lendo e roubando algumas frases do Vinicius de Moraes que comecei a gostar de poesia”, diz Renan, que hoje estuda Logística, mas não deixa de participar dos saraus literários na biblioteca municipal de Suzano (SP). Ele, que achava esse tipo de apresentação “muito cafona”, hoje saca um caderninho do bolso e declama seus próprios versos para quem quiser ouvir. Fala quase sempre de amor, mas, de uns tempos para cá, questões sociais, como a violência e a desigualdade, também o inspiram.

Além das conquistas amorosas, é preciso dizer que a mãe de Renan também teve participação decisiva para que o rapaz passasse a ler e se expressar por escrito. Na adolescência, ele pouco lia. A mãe, que já frequentava a biblioteca do bairro, começou a levar para casa sempre algo que pudesse interessar ao garoto. Eram gibis, histórias de ficção científica e de ação. O prazer em ler sobre temas de seu interesse, e a liberdade de escolha dos livros fizeram o que a escola, até então, não tinha conseguido. Em pouco tempo, Renan já tinha se tornado um ávido leitor.