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“Se eu não tivesse paixão, não teria talento”

A frase é da escritora, cronista e roteirista carioca Adriana Falcão, que deixa aqui um conselho aos jovens: nunca fazer nada mais ou menos, sem paixão e entrega

05/08/2011

05/08/2011

Foto: Deise Lane Lima Com 11 livros publicados, crônicas e roteiros em programas como “A grande família”, a carioca Adriana Falcão, 48 anos, começou cedo sua relação com a cultura. Aos quatro anos aprendeu a ler em casa, onde teve o incentivo para o consumo voraz de livros variados. Aos seis, escreveu um romance policial, por influência da mãe, que era leitora ávida de Agatha Christie. “Foi algo absolutamente infantil, mas o curioso é a pretensão de tentar ser escritora tão cedo. Era como se eu inventasse ser bailarina russa”, conta a autora do sucesso “A máquina” que, no teatro, pelas mãos do diretor e marido João Falcão, revelou Wagner Moura e Lázaro Ramos, entre outros. 

Adriana vive imersa em cultura, mundo que no passado a ajudou a superar dramas como o suicídio do pai, quando ela tinha 18, e a morte da mãe, 13 anos depois. Suas filhas, Tatiana, Clarice e Isabel, seguem seu caminho, com variações. Resultado das escolhas da mãe e de onde a vida a levou. 

Roteirista de programas de TV, como “A grande família”, Adriana Falcão se organiza para dar conta também de crônicas, roteiros de filmes e peças de teatro. Sobre essas e outras conquistas alcançadas, ela não faz festa nem se vangloria. Entende ser consequência do trabalho organizado, cuidadoso, aplicado. Uma rotina interrompida, numa tarde quente de verão, para a conversa com ONDA JOVEM, na qual descreveu sua relação com a leitura e a escrita, e revelou angústias com caminhos novos, pavimentados, em especial, pela Internet.
Qual é sua lembrança mais remota de contato com a leitura e a escrita?

Adriana Falcão: Lia muito quando era pequena. Não sei o que veio primeiro – Monteiro Lobato, Condessa de Ségur (todas as crianças liam nos anos 1960), ou o próprio Tintim, com quem tenho relação até hoje, em bonecos e quadros espalhados pela casa. Aos 11 anos, fui morar em Recife, à época um lugar muito distante do centro cultural do Brasil. Mas as coisas foram acontecendo. Eu me apaixonei por Fernando Pessoa, Clarice Lispector, até que, aos 15 anos, li “O estrangeiro”, de Albert Camus. Marcou a minha vida, mexeu comigo de tal maneira que a partir de então comecei a escrever - escondido, mas por vergonha, jamais por repressão.
O que você escrevia na adolescência?

Ensaiava poesias, contos, crônicas. E eu sempre ganhava os concursos de redação na escola. Mantinha uma pretensão secreta de escrever, agora com temas mais melosos, românticos. Tenho guardadas algumas coisas, mas não há nada de qualidade. Foi a época em que descobri Cortázar e Gabriel García Marquez.
Seus pais a motivaram de que maneira?

Eles me mostravam novidades da música, como Beatles, Caetano Veloso, a Tropicália. Lembro de ainda criança ir ao cinema, com a minha mãe, assistir a filmes de arte, de movimentos como a Nouvelle Vague. Às vezes, não entendia nem gostava, mas ia assim mesmo, pelo clima e pela curiosidade. Meus pais tiveram importância enorme na minha formação.
Mais adiante, no início da vida adulta, como era seu cotidiano em relação a ler e escrever?

Na verdade, mudou muito ainda na adolescência, porque me casei com 17 anos. Meu primeiro marido, um professor de matemática e latim chamado Tácio Maciel, entende à beça de literatura e português e tem um irmão, Tomás, que lecionava literatura. Eu andava numa turma de professores, e fui sendo apresentada por eles a coisas novas, como Pablo Neruda e Jorge Luiz Borges. Fui mãe muito nova, antes dos 20 anos, e me afastei dessa atividade cultural mais intensa.
Quem a influenciou para que você se tornasse escritora?

Desde criança, fui apaixonada também por Fernando Sabino, porque adorava crônica – “O homem nu”, “Encontro marcado“ etc. Nos livros da escola, tinha Drummond e Paulo Mendes Campos, hoje um dos meus autores preferidos, um mito para mim. Ainda nessa época, a MPB era muito rica. As letras de Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, Milton Nascimento tinham qualidade poética e literária imensa e foram muito importantes na minha formação. Adoro música. Tive a felicidade de nascer na década dos grandes cronistas, como Antonio Maria e Rubem Braga.
Como é hoje sua dedicação à leitura e à escrita?

Ando tão enrolada com o trabalho de escrever – são crônicas, livros e roteiros, começando por “A grande família” –, que a rotina me afasta um pouco da leitura. Quando leio, é como se estivesse trabalhando, procuro observar a estrutura, as viradas usadas pelo escritor. Só leio coisas que me interessam especialmente, por alguma razão. Agora, estou lendo “Trem noturno para Lisboa”, de Pascal Mercier, que me foi recomendado, e estou gostando muito. Também procuro ler autores fundamentais que antes não tive oportunidade de conhecer. Sou muito ruim em literatura russa, vou ler para buscar preencher lacunas na minha formação. Só tem um problema: isso me distancia do que está acontecendo de mais contemporâneo.
Como você estimula suas filhas a ler? E em relação à escrita?

Tatiana, minha filha mais velha, hoje com 30 anos, leu muito mais porque não tinha a Internet para disputar o tempo com os livros. Quando apareceu, ela já estava com 16 anos. Foi uma menina meio solitária, e também por isso tem grande cultura literária. Minhas outras filhas também leram “O estrangeiro” com 15 anos – fiz questão de apresentar a elas -, mas foi tudo bem diferente. Elas não leem jornal nem revista, por exemplo, informam-se pela Internet, em especial as redes sociais. Outra coisa que rivaliza muito com a leitura é seriado americano. As duas veem até reprises. A Clarice, minha filha do meio, que tem 20 anos, é expert nisso. A vida dela está muito ligada a essa coisa do humor contemporâneo do sitcom. A mais nova, Isabel, de 17, vai estudar Letras.
Como você avalia o incentivo à leitura e à escrita na escola?

Tenho ótimas experiências de visitar escolas e ser bem-recebida por professores preparados, que trabalham meus livros de uma maneira emocionante. Claro que é diferente nas escolas mais ricas, infelizmente. Mas sempre que eu fui, encontrei a mesma boa vontade, a mesma receptividade, em qualquer colégio. Vai funcionando de acordo com as possibilidades, a partir da estrutura da biblioteca. Mas fico satisfeita com o esforço, em todas as escolas, ricas, médias ou pobres.
Ainda estimula em suas filhas o hábito da leitura?

Está parando de acontecer. Agora, elas é que me apresentam coisas novas, em especial no cinema e na TV. Já mostrei todo o meu repertório a elas, que felizmente mergulharam de cabeça. Clarice e Isabel são apaixonadas por Paulo Mendes Campos, como eu. Por Pirandello, Cortázar e Raymond Queneau também. E Tatiana, a mais velha, terminou de ler a coleção completa de Agatha Christie aos 10 anos!
Clarice foi trabalhar na área de cultura, como atriz. Você incentivou essa escolha?

Ela estuda cinema na PUC, é atriz, escritora, canta e compõe. Fez a adaptação do “Confissões de adolescente”, a peça do Domingos de Oliveira. Agora, Daniel Filho a convidou para escrever um seriado. Com as outras filhas, a ligação com a cultura também é forte. Tatiana estudou cinema e, como tem facilidade com línguas, trabalha como assistente de direção em filmes estrangeiros rodados aqui. Ela publicou um romance, “O homem dos sonhos”, aos 26 anos. Houve, sim, um incentivo inconsciente, apesar de nós sempre termos dito e mostrado como é difícil sobreviver na área cultural. Às vezes, queria ter uma filha engenheira, ou médica, para cuidar de mim na velhice. Mas elas cresceram brincando nas coxias de teatro, enquanto João ensaiava, brincavam com filhos do Guel Arraes, do Jorge Furtado. Era meio difícil fugir disso.
Como a escrita se diferencia nos seus vários ofícios (teatro, TV, coluna de jornal)?

Sou muito organizada, muito responsável. Não deixo nada para a última hora e consigo dar conta de tudo, indo à academia de manhã e trabalhando até 20h. Antes eu varava a madrugada, mas tenho insônia, parei com isso. Acho que é assim também porque sou mulher. A relação do João com a profissão é totalmente diferente. Numa tarde, tenho ideia para uma crônica, e trabalho nela até certa hora para depois escrever para “A grande família”. Eu me permito interromper, atender telefone, cuidar de outras coisas. Há dias em que é mais difícil, mas normalmente consigo dar conta.
Você fez do seu talento um ofício que lhe permite trabalhar em várias áreas, de várias formas. Como são suas regras de trabalho?

Na verdade, a vida me levou. Nunca planejei nada disso, nem ser escritora, nem fazer crônica para jornal, muito menos para TV ou cinema. As coisas foram acontecendo. Acho muito pretensioso falar em talento. Tem mais a ver com a minha paixão. Se eu não tivesse paixão, não teria talento. Por ela me aprimoro, tenho vontade de fazer o que faço, me entregar como me entrego. Sempre que falo com estudantes, falo de paixão e entrega sem medo de ser piegas. Meu conselho é nunca fazer nada mais ou menos. Pelo menos tentar fazer melhor.
Em relação aos jovens em geral, como você avalia a relação deles com a escrita e a leitura?

É difícil para mim, porque conheço a realidade do Leblon e dos filhos de artista. São exceções. Mas é muito assustador entrar no Orkut de uma menina que escreve com dois corações, três exclamações, o profile dela é uma letra de funk, e ela integra a comunidade “To na pista pra negócio”. Mas é a realidade brasileira. Tenho medo de parecer reacionária, mas fico meio impressionada com essas coisas.

Aydano André Motta