Você está aqui: Página Inicial Acervo Edição 17 Só para meninos ou meninas

Só para meninos ou meninas

Escolas ainda mantêm educação separada por gênero e há quem veja vantagens e inovação na estratégia

12/08/2011

12/08/2011

Liliane Oraggio

 As melhores notas do ENEM por três anos consecutivos são dos alunos do Colégio São Bento, no Rio de Janeiro, o único do País que mantém a educação exclusiva para meninos. Em torno de 90% dos quase 300 estudantes do ensino médio deste estabelecimento de ensino fundado pelos padres beneditinos entram com facilidade nas melhores universidades do País.

No Colégio São Bento, o período é integral. Francês, Música e História da Arte fazem parte do currículo e um dos pontos importantes da linha pedagógica é desenvolver o senso crítico e a bagagem cultural, além, é claro, da sólida base em Matemática, Física, Química, Português.
Família e carreira

Só para meninas, a Escola Doméstica de Natal, fundada em 1914, é a única do Brasil a incluir na grade curricular oficial matérias como Culinária, Puericultura, Etiqueta Social e Profissional, Economia Doméstica.

Se no passado o objetivo era formar apenas boas esposas e mães, hoje, esses assuntos femininos são abordados em outro contexto. Este aprendizado procura facilitar a vida das moças, levando em conta que é uma necessidade contemporânea conciliar o desempenho profissional com a vida familiar, equilibrando os desafios do trabalho com a solução de problemas simples do cotidiano.

Já não se trata de escolher entre a família e a carreira, mas de considerar que os dois aspectos são importantíssimos para a realização da mulher. Por isso, o conteúdo do ensino oficial é de ótimo nível, o que permite às alunas também conquistarem vagas nas melhores universidades do País.

Na opinião de muita gente, as duas correntes podem refletir um apego às formas conservadoras de lidar com a questão de gênero. Afinal, não se poderia pensar também em uma escola que ensinasse jovens do sexo masculino a dividir tarefas relacionadas à vida familiar? E o que explicaria então, em pleno século 21, o fato de ambos os colégios que separam as classes por gênero terem vagas concorridíssimas – mesmo com mensalidades altas para o padrão médio brasileiro?

Novos motivos para separar?

Há quem apresente justificativas diferentes para classes exclusivas de meninos, ou meninas, como é o caso do venezuelano Leonardo Amaya, médico, professor de Ética e Psicologia da Adolescência e Infância. Para ele, as classes exclusivas podem ser uma tendência para o futuro, pois levam em conta as diferenças neurológicas entre meninos e meninas em fase de desenvolvimento.
“As diferenças não são cognitivas, ambos os gêneros têm as mesmas capacidades de raciocínio e manejo de informação. Mas os meninos amadurecem mais lentamente que as meninas, apresentando uma defasagem de dois anos em média”.

Segundo ele, a Biologia, nesta etapa, favorece as meninas: “O córtex pré-frontal as faz mais capazes de controlar as respostas emocionais intensas, apresentam melhor correlação entre emoções e memória, lembram mais detalhes, são capazes de realizar várias tarefas simultâneas e, se interromperem uma atividade, retomam-na com rapidez, muito mais facilmente que os homens.

Por outro lado, Amaya destaca que os meninos têm duas vezes mais estimulação cerebral para o interesse sexual direto. “Isso faz com que os garotos tenham mais necessidade de se autoafirmar sexualmente diante das meninas da mesma idade, que já superaram o desenvolvimento cerebral deles”, diz.

“Não há um modelo de escola ideal, mas respondendo às necessidades específicas de meninos e meninas seria mais fácil estimular a construção pessoal, descobrir e potencializar os talentos”, afirma o médico e professor.

Aos críticos que veem na convivência das turmas mistas uma condição imprescindível para a superação de qualquer tipo de sexismo, o especialista lembra que, no passado, o modelo educacional com classes exclusivas para meninos e meninas surgiu por questões morais e religiosas, como forma eficiente de manter afastados os sexos e conter a libido de homens e mulheres que, mesmo em outros espaços, pouco conviviam.

Mas, hoje, esse controle não só é considerado absurdo como impossível de ser exercido. O contato social entre meninos e meninas é intenso em todos os ambientes reais e virtuais.

Aposta na heterogeneidade


A professora Kátia Pupo, coordenadora pedagógica de São Paulo, que há anos dedica-se ao estudo das questões de gênero na educação, discorda da argumentação de diferença de maturidade para a separação: “Defendo que a heterogeneidade de sexos, de níveis de conhecimento, de classes sociais é sempre positiva para o desenvolvimento dos jovens. Considero que a idade cronológica é o fator que deve indicar o nível escolar do aluno, não o gênero. As meninas mais desenvolvidas ‘puxam’ os meninos e isso é muito positivo”, afirma.