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Questões de gênero

Mais rapazes deixam a escola e se envolvem em ações violentas, enquanto as moças têm escolaridade maior, mas são muito afetadas pela maternidade

12/08/2011

12/08/2011

Liliane Oraggio

Quando o galo canta, o dia começa para Ronaldo José de Jesus, 20 anos, que mora na área rural de Euclides da Cunha, a 331 km de Salvador. Ele mesmo prepara a comida para levar para a roça, onde passa oito horas cuidando de ovinos e caprinos e cultivando plantações de batata, mandioca, feijão e milho na pequena propriedade da família.

Somente depois dessa jornada de trabalho braçal, Ronaldo segue para as aulas do terceiro ano do ensino médio no Educandário Oliveira Brito. “Nascer do sexo feminino ou masculino faz muita diferença no meio rural. Desde criança é assim, meninos são para cuidar da plantação e dos animais, e meninas cuidam da casa. Quando chega a idade de trabalhar, as moças não querem ficar na lavoura, querem ir para a cidade, seja para estudar, ou para trabalhar em serviços domésticos. Já 80% dos moços querem ficar no campo. Eu mesmo pretendo ficar por aqui”, diz ele, que quer fazer um curso técnico em Agronomia.

De fato, as mulheres têm estudado mais. Dados do IBGE mostram que, em 2008, no campo, a escolaridade média das mulheres era de 5,2 anos contra 4,4 anos dos rapazes. Em áreas urbanas, elas somam 9,2 anos de estudos, contra 8,2 anos dos homens. Mas isso não tem sido suficiente para mudar totalmente as coisas.

Ronaldo participa do Projeto Gente de Valor, do governo da Bahia, e dá palestras para comunidades carentes do meio rural. Uma de suas tarefas é mudar a cabeça de homens e mulheres em relação às questões de gênero: “Quando digo que os tempos mudaram, que os sexos podem fazer as mesmas coisas, muita gente não entende. Tentamos provocar a reflexão e mostrar que a mulher não pode ser escrava do homem, mas que os dois podem dividir tarefas e progredir juntos”, diz

Ronaldo mora sozinho há dois anos e conta que antes a mãe fazia tudo. “Agora aprendi a me cuidar e também a ajudá-la quando estou na casa dela. Isso não é comum no interior da Bahia e costuma ser chamado de ‘desvio’ na sexualidade, mas eu não me importo e quero ajudar a mudar essa mentalidade atrasada”, diz o moço.

Pois é. Mesmo depois de quase 50 anos da chamada revolução sexual e do movimento feminista, e mesmo com a participação de quase 50% de mulheres no mercado de trabalho, sustentando 35% das famílias do País, a equidade de gêneros ainda parece um sonho distante. Alguns desequilíbrios são tão rotineiros que parecem até naturais. Como a divisão dos serviços domésticos. Segundo a última pesquisa do IBGE, entre as mulheres que têm emprego, 87,9% cuidam também dos afazeres do lar, para 46,1% dos homens. Elas passam 20,9 horas por semana nas tarefas do lar e no cuidado com os filhos; eles, apenas 9,2 horas.

Papel da escola

Os desequilíbrios, que se estendem também à remuneração e à ocupação de postos de chefia, se refletem em discriminações de todos os matizes, psicológicos e sociais, contra as diversas orientações sexuais, em especial as homossexuais, e se materializam, de forma dramática, na divisão dos altos índices de violência: a urbana, que vitima principalmente os rapazes, e a doméstica, que atinge as mulheres, agredidas por pais, maridos, namorados. Questão social tão candente envolve, com certeza, a educação.

“Mas a escola, por sua vez, reflete o sexismo que trespassa toda a sociedade, reproduzindo, com frequência, as estruturas sociais, reforçando os preconceitos e privilégios de um sexo sobre o outro”, afirma a professora Kátia Pupo, coordenadora pedagógica do Colégio Miguel de Cervantes, de São Paulo, autora da pesquisa “Violência Moral no Interior da Escola: Um Estudo Exploratório das Representações do Fenômeno sob a Perspectiva de Gênero”.
E onde tudo começa? Na família, ou no ambiente escolar? A especialista explica: “Os meninos são criados por mulheres que não se dão conta que perpetuam certos estereótipos. Por exemplo, meninas são mais delicadas, e meninos são mais agressivos. Eles brigam mais, elas estudam mais. Isso é tão arraigado na cultura que fica invisível. E, claro, as questões de gênero não estão isoladas das questões sociais, pois, quanto menos recursos, mais forte é o machismo”.

O jeito de remover a capa de invisibilidade dessas questões é estimular a reflexão a todo o momento em que a assimetria entre os gêneros e as diferentes orientações sexuais, incluindo as homossexuais, se manifestarem no cotidiano: “Acredito que é tarefa da escola desmantelar essa mentalidade retrógrada entre os jovens em formação. Nesse processo, vale incluir em sala de aula discussões sobre a participação igualitária na sociedade, questionando os papéis e padrões preestabelecidos. E também reforçar que tanto meninos quanto meninas podem ser agressivos, delicados, impulsivos, passivos, dependendo do temperamento de cada um e não, apenas, das qualidades atribuídas a cada sexo”, diz a professora.

Mesmo em escolas urbanas que concentram filhos de pais mais liberais esses modelos vigoram. Camila Brunetta Collor, 15 anos, está no segundo ano do ensino médio particular, em Tangará da Serra, Mato Grosso do Sul, a 200 quilômetros de Cuiabá. Filha de empresária e enteada de piloto, ela conta como os limites são impostos em sua casa: “Tenho um irmão pequeno, mas tenho certeza de que quando ele crescer vai poder chegar em casa a hora que quiser e ir a todas as festas. Eu não posso passar do horário e, dependendo do lugar, meus pais me proíbem mesmo de ir.”

Camila conta que embora esse tipo de limite não seja assunto em sua escola, o fato de ela ser mista, até nas aulas de Educação Física, produz uma interação legal. “Acho que é pela convivência, e tem os grupinhos que são bem opostos. Nós somos mais maduras, falamos de tudo, de cultura e de coisas fúteis também. Eles competem mais e falam de joguinhos. E quando meninos e meninas se encontram na mesma roda, falamos somente sobre as coisas da escola. Não tenho nenhum menino amigo mesmo”, diz ela.
Sonho de igualdade
Sonho de igualdade

Na opinião da cearense Ana Raquel dos Santos Souza, 17 anos, que cursa o terceiro ano do ensino médio na Escola Estadual Virgílio Távora, em Fortaleza, isso está longe de acontecer, e essa discussão não faz parte da vida escolar nem familiar. “Eu adorava futebol, mas parei de jogar de tanto ouvir dizer que isso era coisa de homem. Sinto que os pais estão afastados dos filhos, que falta diálogo, por isso os valores machistas continuam vigorando, e o preconceito é muito grande, com as mulheres, com os homossexuais, com quem vem do interior, com quem é gordinha, baixinha. Acho que a escola deveria puxar mais assuntos a respeito de todos os tipos de discriminação. Sinto falta disso”, conta ela.

Ana Raquel pretende fazer faculdade de psicologia, ou enfermagem. E essas seriam profissões típicas femininas? “Acho que a mulher pode assumir qualquer posto, mas o mundo não aceita assim. Ainda tem homem que pensa que só ele pode trazer o sustento para casa. Eu não conseguiria viver sendo bancada por um homem, tenho de lutar para conseguir o meu dinheiro. Claro, quero me casar, mas quero um marido que não me sufoque e que me deixe educar meus filhos junto com ele, sempre conversando muito”, sonha a moça.
Porém há riscos específicos que podem comprometer essa expectativa de futuro. Segundo o professor Marcelo Néri, coordenador do Instituto de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, que coordenou pesquisas como Você no Mercado de Trabalho e Tempo de Permanência na Escola, enquanto os meninos abandonam os estudos por se envolverem com violência, drogas e acidentes de trânsito, as meninas têm a educação ameaçada pela gravidez na adolescência.

“No geral, as meninas passam mais tempo na escola do que os garotos. Mas apenas 23% das mães de até 17 anos estão matriculadas. As que estudam têm 15% de faltas, enquanto as outras estão presentes em 95% das aulas. Esses dados me surpreenderam, pois essa entrada precoce na vida adulta faz com que as moças deixem de investir na própria educação, o que vai prejudicar suas conquistas futuras”, diz Néri.

Esses dados são confirmados por uma recente pesquisa do Instituto Mapear com alunos do ensino médio público do Rio de Janeiro: dos 1,5 milhão de estudantes, 12% têm filho. Destes, 76% já interromperam os estudos. A maioria das meninas tem menos de 20 anos, e 15% delas já são mães; os jovens pais são 11,2%.
Agressividade manifesta

“Na minha cidade, os meninos são mais baderneiros, começam a trabalhar cedo, e a metade deles para os estudos. Meu pai mesmo tem o ensino médio, não fez faculdade, enquanto minha mãe é pós-graduada em Psicopedagogia”, conta Lorena Soares Lima, 16 anos, cursando o segundo ano do ciclo médio na Escola Estadual Josefina Vieira, de Santa Rita de Minas (MG), a 317 quilômetros de Belo Horizonte.

Lorena diz que a escola dá tratamento igual para meninos e meninas, e que a diretora é rigorosa na hora de conter a agressividade dos meninos. “Eles ficam em grupinhos, falam muita besteira e têm mania de colocar apelidos pejorativos nas meninas. Outro dia isso aconteceu, o moleque foi parar na diretoria e não mexeu mais com a garota. Parece que eles têm de usar a agressividade para mostrar que são homens”, diz Lorena, que pretende ser advogada. “Acho que tenho potencial para um cargo alto e não imagino ser menos do que uma promotora de Justiça. Primeiro quero estruturar o meu trabalho, para depois formar uma família. Meu namorado, que tem 18 anos, concorda e minha mãe me dá todo o apoio”, diz ela.

Como todas as questões complexas, as de gênero também comportam seus paradoxos. É o que aponta o jovem Andrew Ferreira Grube, 16 anos, aluno do terceiro ano do ensino médio na Escola Estadual Yolanda de Araujo Silva Paiva, em Cananéia, litoral sul de São Paulo, a 361 quilômetros da capital paulista. “As próprias meninas cobram atitudes agressivas dos meninos. Sou um cara pacífico e conciliador e já fui cobrado muita vezes por não ter entrado numa briga. Para a maioria, isso parece ser um sinônimo de fraqueza, mas para mim a conciliação é a atitude mais ética que posso ter. Da mesma forma, gosto de jogar vôlei e não de futsal e tenho de aguentar piadinhas, pois quem prefere esse ‘esporte feminino’ já é logo tido como gay”, diz o moço, que é militante do Movimento Estudantil de Cananéia e do Coletivo Jovem Caiçara.

Andrew diz que as diferenças entre gêneros já foram tema da aula de História: “A professora propôs a discussão sobre a Lei Maria da Penha, que considera crime toda agressão no âmbito doméstico. Os meninos participaram pouco, mas as meninas se posicionaram bem, dizendo que a Lei devia existir para punir os homens e diminuir a discriminação contra elas. Para mim, essas desigualdades de gênero já deviam ter acabado. Homens e mulheres são iguais, e a gente tem que começar a lutar para manter esse equilíbrio”.

Menos otimista é a estudante Jeniffer Eduarda Rosa, 18 anos, no último ano do ciclo médio, na Escola Municipal Antonio Francisco Machado, em São José, a meia hora de Florianópolis. Ela é aprendiz na administração de um hospital e estuda à noite. Ela também acredita que os meninos não perdem a chance de ser agressivos e discriminam as meninas. “É comum no colégio os rapazes afirmarem que são homens, por isso podem fazer o que querem. Eles também se acham mais inteligentes e fortes. Esse julgamento não chega a me prejudicar, mas é constrangedor”, diz ela.

E se Jeniffer pudesse mudar alguma coisa, o que faria? “Mudaria o machismo, gostaria de provar que também sou boa e inteligente, que cada um tem qualidades e defeitos, e somos todos iguais. Mas, se eu fosse me impor dessa maneira, eles não iriam me ouvir, então acho que isso sempre vai ser assim”, lamenta. E as coisas não mudam muito na vida pessoal. “Meu namorado, que parou de estudar, não gosta que eu fique papeando na Internet. Quando ele sai com os amigos, quer que eu fique em casa. Eu brigo e ele argumenta que tem que ser assim porque ele é homem. Acho que isso vem da educação. Todos são assim”, diz a moça.
Homens novos

Não é o que pensa Roger Aparecido Ferreira, 18 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Átila Ferreira Vaz, de Diadema, na Grande São Paulo. Ele é o mais velho de seis filhos criados pela mãe. “Nós dois trabalhamos fora e todo mundo ajuda a arrumar a casa. Cozinho, lavo, faço de tudo. A gente, como homem, não serve só para o trabalho braçal e é bom compartilhar, porque assim não pesa nem para a mãe nem para as irmãs”, diz Roger, que é professor de capoeira e vê uma mudança de papéis até mesmo nesse esporte, originalmente masculino. “Há seis anos, quando comecei, somente os homens podiam tocar o berimbau, e as mulheres ficavam no pandeiro, ou batendo palma. Havia movimentos específicos para nós, e elas não passavam de um certo ponto do jogo. Hoje, não existe mais essa distinção, nem nos gestos nem no acesso aos instrumentos. É tudo igual para todos”, diz ele, que ensina 50 jovens da Rede Cultural Beija-Flor, um projeto que envolve 1.200 jovens da comunidade.

Na escola de Roger, as diferenças entre gêneros não são assunto das aulas, mas estão sempre nas conversas com os amigos. “Existem muitos garotos pacíficos, que já não têm que se autoafirmar na agressividade. Mas as meninas são mais maduras, ágeis e prestam mais atenção”, diz.

A parceira ideal para Roger é aquela que não vai depender dele nem ele dela. “Essa é a base do verdadeiro companheirismo. Acho muito importante que o pai participe da criação dos filhos. Já troquei fraldas e dei mamadeira para os meus irmãos mais novos, e não vejo nenhum problema nisso. Ao contrário, isso me dá muita autonomia. Quando for morar sozinho, sei que vou poder me manter bem”.

A crença também tem a ver com o bem-estar e a construção de uma sociedade positiva, como alerta o professor Marcelo Néri: “As estatísticas comprovam que os níveis de felicidade são maiores nos países em que há igualdade de direitos e deveres para homens e mulheres”.