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Prazer em conversar

Na escola e em casa, educadores apostam no diálogo para orientar os jovens

12/08/2011

12/08/2011

Aydano André Motta
 

 Alegrias e angústias, paixões e incertezas, mudanças e decepções – vai tudo misturado, no caldeirão de emoções chamado adolescência. Aos educadores, cabe a ajuda preciosa para tourear sentimentos novos, na fase em que aflora a sexualidade, e a exposição ao mundo torna-se mais intensa. Entre papéis tradicionais e novos modelos sociais, muitas meninas enfrentam o preconceito e o aumento das responsabilidades domésticas, enquanto os meninos embrenham-se num duelo permanente por poder e força.

Dramas e dilemas também cruzam o caminho de pais e professores, agravados pelos desafios sociais do Brasil contemporâneo. Quanto maior for a pressão do ambiente em que vivem, mais complexa será a travessia para os jovens. Em meio a uma torrente desordenada de informações, aparecem desafios, como o exercício da sexualidade, a prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, a luta contra a gravidez precoce, as responsabilidades impostas pelo amadurecimento.

Na Bahia, em São Paulo e em Belo Horizonte, educadores tentam, nas escolas e em casa, promover o diálogo transparente e a troca permanente de informações. A aproximação de pais e professores, o incentivo à conversa aberta, e a disponibilidade para ouvir o que os adolescentes têm a dizer são algumas das iniciativas que apresentam os melhores resultados. Das boas práticas, surgirão adultos mais conscientes e preparados, dizem educadores que se ocupam da questão.
Sentimentos intensos

O relato da professora baiana Andréa Senhorinho é exemplar. Coordenadora do grupo de saúde do Colégio Estadual Renan Baleeiro, em Águas Claras, comunidade popular de Salvador, ela desenvolveu um amplo trabalho por meio de oficinas com parte dos 1.500 adolescentes – 90% negros – que estudam na instituição. Foram oito turmas, do 5º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. A conversa tirou a tampa de emoções que ficavam reprimidas e ajudou os jovens a entender melhor a vida e o mundo que os cerca.
Foram jornadas de muita conversa, temperadas com exibição de filmes, debates e palestras. “Falamos intensamente das relações com pais e mães, os sentimentos envolvidos nessa convivência.

Descobrimos que ainda hoje os meninos são criados para serem machistas, e que, para ser fortes, não podem chorar”, conta Andréa. “Nosso trabalho tenta dissolver essa crença, para que o machismo não prevaleça”, diz ela, que observa um silêncio emocional nos meninos. Sempre na defensiva, escondem o que pensam dos relacionamentos sob uma couraça que, para eles, significa força. Uma eloquente barreira que precisa ser removida.

Surgiram questões dramáticas, como a homofobia que aparece ainda dentro de casa, com pais que se recusam a aceitar a orientação sexual do filho. Tudo foi tratado em dinâmicas que reuniram meninos e meninas, diálogos que levaram tempo, mas conduziram ao consenso.

Segundo Andréa, as meninas eram mais numerosas e participativas. Mas ela se lembra de um menino que discorreu sobre responsabilidade. “Ele disse que um homem de verdade precisava ser responsável. Falou ainda de amor e sexualidade. As atitudes estão mudando, e os jovens tentam assumir seu papel, com dignidade”, diz ela.
A escola participou de oficinas do programa Escola de Todos, do Cedaps, e contou com apoio também de organizações como a Promundo que defendem a mudança nas relações de gênero, buscando mais equilíbrio entre homens e mulheres. As intervenções da escola mudaram hábitos antes cristalizados. Os meninos refletiram mais sobre seu papel. “Descobrimos questões surpreendentes, como as maternidades do SUS, que são rosa, e não permitem que o garoto acompanhe a namorada no ultrassom”, diz Andréa. “Eles pensam: ‘Não vou lá porque é coisa de mulher’, e também não se sentem responsáveis”.

Além de reduzir a evasão escolar, as oficinas, iniciadas em 2003, diminuíram em impressionantes 90% os casos de gravidez adolescente. “A última oficina para gestantes que fizemos foi em 2006, quando eu estava grávida”, relembra a professora, mãe de uma menina de 3 anos. “Depois, não tivemos número suficiente para o trabalho”, comemora.
Espaço de escuta

Materializar esse diálogo tão desejável com os jovens ainda é um grande desafio, mostra estudo do professor Fernando de Assis Alves, da Universidade de Brasília, coordenador da Educavida, organização que trabalha com professores as questões da sexualidade e do protagonismo juvenil. Ele pesquisou comunidades populares no Distrito Federal com incidência de HIV/AIDS, altos índices de violência e gravidez adolescente e utilizou a Internet como espaço para o diálogo.

“Queria descobrir a utilidade da rede de computadores, se ela ajuda, ou atrapalha na troca de informações”, explica o professor, que trabalhou com 120 estudantes entre 10 e 17 anos. “Criamos um espaço para os jovens conversarem, mostrarem seus questionamentos e angústias. Os adolescentes preocupam-se com o exercício do prazer, seja jogar futebol, usar droga, etc. E a sexualidade segue como um tema bastante delicado”, diz Fernando.

“Os meninos mais novos perguntam mais; elas preferem acompanhar as discussões. A sociedade impõe aos garotos serem os mais importantes, mais poderosos. Isso gera um comportamento-padrão: quanto mais idade, menos coragem de expor dúvidas. Com 16 anos, eles têm de saber tudo”, diz o professor.

O estudo, que durou três anos (de 2004 a 2007), constatou mudanças que muitas vezes surpreendem os adultos. Por exemplo: ficar, que um dia foi apenas beijar, agora significa consumar o ato sexual.

“As relações são casuais, efêmeras e implicam menos responsabilidade”, traduz o pesquisador.

Fernando Alves detecta outra mudança no cotidiano adolescente: o contexto familiar está se alterando e criando novas demandas. A figura do pai, crescentemente, inexiste, e a mãe sai para trabalhar. Com isso, avós e empregadas passam a ter papel cada vez mais importante. As famílias transformam-se em territórios comandados pelas mulheres, o que minimiza a responsabilidade dos rapazes.
Está muito presente, ainda, o conceito de que homem não engravida. Os jovens que participaram do estudo entendiam a gravidez e, consequentemente, o filho como atribuições exclusivas das mulheres. As meninas, por sua vez, encaravam um filho precoce como a possibilidade de independência. “As políticas públicas não tratam da adolescente que quer ser mãe. A prevenção é para gravidez não-planejada, e algumas querem ter filho. Mas passam despercebidas: entram como vítimas, ou vilãs”, diz o professor.

A maioria das políticas públicas, diz ele, nasce fadada ao fracasso, porque não tem conexão com a realidade atual dos meninos e meninas. “Elas se baseiam na época em que seus formuladores eram jovens. Ninguém ouve os adolescentes”, diz ele, que cita o incentivo ao uso de preservativos, que segue tímido. “Os jovens têm o produto, ouvem que têm de usar, mas não sabem o porquê de usar.

Desconhecem o que acontecerá com a vida deles se tiverem o filho. Os meninos acham que até a prevenção é responsabilidade das meninas. Inexiste o engravidar junto”, acrescenta Fernando, defendendo o trabalho num tripé: insumo, informação e pertencimento.
Em casa e na escola

Colega de Fernando e Andréa, a mineira Maria Celina Dias conhece as duas pontas dessa história. Professora de Artes em duas escolas de Belo Horizonte – uma delas em Alípio de Melo, periferia da capital –, ela integra a Confederação das Associações de Pais de Alunos (Confenapa), na qual avalia as ações pedagógicas com a perspectiva de mãe de dois jovens estudantes. E, na sua opinião, as coisas não vão bem. “As escolas estão péssimas nesta questão de gênero. As meninas, sem orientação nenhuma sobre sexualidade, se tornam frágeis no convívio com os meninos”, diz. “Ninguém mostra a responsabilidade da reprodução, por exemplo. As garotas só vão descobrir muito adiante. E os meninos preocupam-se com outras atividades, ligadas a poder, força e dominação”.

Para Celina, a responsabilização feminina está inclusive nas políticas públicas – os rendimentos do Bolsa Família, maior programa social do Brasil, são entregues às mulheres. Se, de um lado, a focalização da política pública nas mulheres responde à necessidade de eficácia no alcance do alvo, de outro, retira dos homens a oportunidade educativa de compartilhar essa responsabilidade. Enquanto isso, algumas jovens preferem engravidar, porque ganham respeito nas comunidades.

“Meu filho namorou uma moça que tentou uma gravidez para fugir do universo em que vivia. O filho, em muitos casos, é uma produção até para o mercado”, diz a professora, mãe de Frederico, 24 anos, cuja namorada “toma pílula, frequenta ginecologista”, e, vinda de uma comunidade sem-terra, já disse que não vai engravidar antes de se formar. “Não vou ser vovó tão cedo”, brinca Celina, que foi mãe solteira aos 33 anos.

Como exceção à regra, a professora mineira lamenta que informações mais consistentes cheguem muito tarde aos adolescentes, também porque as famílias ainda resistem a tocar em assuntos que consideram delicados, e a escola não está capacitada a falar sobre isso. “Sexo ainda é um tabu nas salas de aula. Quando um professor fala, a informação é vinculada ao conteúdo de livros, e não combina com a realidade. Falta diálogo”, diz. “Na verdade, sempre me pautei pela premissa de que a família é o primeiro modelo que as crianças têm, e o que irá marcá-las profundamente por toda a vida. À escola cabe fazer a diferenciação entre os modelos que chegam”.

Maria Celina enxerga, aí, um grande conflito entre família e escola. “É necessário que a escola abra suas portas para que a família discuta e encontre um equilíbrio no discurso. Mas as escolas, principalmente as que atendem os alunos menos favorecidos, estão fechadas para o diálogo, para as famílias. Daí a importância das associações de pais.”