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Masculino e feminino

Cientistas procuram na genética e no ambiente respostas para questões sobre gênero e orientação sexual

12/08/2011

12/08/2011

Sérgio Adeodato

 As garotas são mais delicadas, preferem filmes de romance, aguardam ser chamadas para dançar. Os garotos, mais agitados e ariscos, gostam de ver super-heróis em ação. E tomam a iniciativa para começar o namoro. Na aula de Educação Física, elas jogam vôlei. Eles não dispensam o futebol. As mulheres são intuitivas, cuidam dos filhos e da casa. Os homens são racionais, provedores da família. Nossos pais e avós que o digam: rótulos não faltam para impor papéis e achar diferenças entre feminino e masculino. O que há de verdade e mentira nisso tudo? Qual a origem biológica e o significado de ser diferente?

Em busca de respostas, os cientistas vasculham os nossos genes – o código da vida que nos distingue e contém informações únicas sobre cada um de nós. Procura-se uma chave para explicar o que é ser homem, ou mulher, e, assim, entender melhor o comportamento humano.

Tradicionalmente, a prioridade da genética é a descoberta de informações para diagnosticar e tratar doenças. Mas agora o foco se volta também para o comportamento, invadindo a seara das ciências sociais e humanas. A tarefa é difícil e polêmica. Reúne distintos pontos de vista no meio científico, mas os avanços despertam fascínio.

“Da sexualidade à violência, a característica biológica tem influência no modo de agir masculino e feminino”, afirma o pesquisador Renato Flores, do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para o cientista, há pistas sobre as peculiaridades de homens e mulheres no cérebro. O centro das atenções é o hipotálamo, onde há um núcleo (o INAH-1) que tem a forma redonda nas mulheres, mas é oval e abriga o dobro de células no homem.

“O caminho natural do corpo humano é ser mulher”, afirma Flores. Ele explica: “Para se tornar homem, muitas transformações precisam acontecer na formação do organismo, tanto na genitália como no cérebro”.

Resta saber como esses intrincados mecanismos interferem no jeito de ser feminino e masculino – se isso, é claro, for possível destrinchar. “Sabemos que o cérebro do homem é compartimentalizado, enquanto o das mulheres tem estrutura mais integrada, com maior cruzamento de fibras nervosas entre suas partes”, diz Flores. Isso explica, em sua opinião, porque as moças têm mais facilidade para falar de suas emoções: “No homem, o lado cerebral responsável pela fala não consegue se comunicar direito com o lado dos sentimentos”. Ele vai além: “Talvez por isso as mulheres em geral consigam fazer mais tarefas ao mesmo tempo”.
Pistas genéticas

A genética entra em cena para achar pistas. Um campo candente de provas é a sexualidade. Como são construídas a identidade e a orientação sexual? No mundo globalizado cada vez mais liberal, os cientistas buscam nos genes a explicação para um antigo tabu que cada vez mais ganha espaço na sociedade: o homossexualismo.

Em pesquisas que fazem a varredura para comparar o código genético de irmãos com diferentes orientações sexuais, até o momento os pesquisadores encontraram indícios do comportamento homossexual masculino no cromossomo X, além de outras três suspeitas nos cromossomos 7, 8 e 10.

“Tudo leva a crer na origem genética do homossexualismo masculino, pois não há nada na sociedade, cultura, família ou religião que possa mudar isso”, destaca Flores.

Já nas meninas a realidade é diferente. Elas são mais suscetíveis a efeitos do ambiente: “Segundo pesquisas, mulheres vítimas de abuso sexual na infância têm maior predisposição ao lesbianismo”, conta o pesquisador.

“Pesquisas com genes em seres humanos são difíceis, porque não há como analisar comportamentos sem levar em conta o ambiente onde as pessoas vivem ou foram criadas”, diz a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo.

No caso dos estudos sobre homossexualidade, essa barreira é evidente. “Acredito na existência de uma predisposição genética para a preferência sexual, mas ainda não há comprovação científica, pois seria preciso reunir grande quantidade de gêmeos idênticos criados juntos e em famílias diferentes para ter uma estatística confiável.”

Para o pesquisador Vitor Motta, da Universidade de Brasília, “é preciso diálogo com as ciências sociais”. Ele explica que a cultura e as circunstâncias do meio geram motivação para determinados comportamentos: “Nunca tivemos tantos direitos e liberdade de assumir a identidade sexual”.

Para a historiadora Carla Adriana Bessa, do Instituto Pagu, da Universidade Estadual de Campinas, o dilema reflete uma inquietação da nossa sociedade. A genética tenta mostrar que a orientação homossexual nasce com a pessoa. Sendo inata, livra o ser humano de culpa e torna o “problema” socialmente aceitável. “Mas a força do debate para a união civil entre indivíduos do mesmo sexo deveria estar no direito à cidadania plena e não, na origem genética”, avalia Carla. Ela admite que novos avanços da ciência, como as técnicas de inseminação artificial e as “pílulas do amor”, como Viagra e remédios similares para a ereção masculina, podem influenciar nas relações entre homens e mulheres. “Mas é preciso saber que a biologia e a genética não são as donas da verdade”, diz Carla.
Relações entre gêneros

E o que dizer daquele garoto “elétrico”, líder das encrencas na escola e amante de aventuras radicais? E da menina de temperamento explosivo, impulsiva, inquieta e ávida por novidades? O assunto, até então restrito a psicólogos, ganha força nos tubos de ensaio da genética.

Segundo pesquisa pioneira do renomado Instituto Nacional de Saúde dos EUA, a explicação para o comportamento agitado pode estar no código genético – especialmente no gene ligado à dopamina, uma substância do cérebro que atua na transmissão de informações entre neurônios e está associada à sensação de prazer.

Os cientistas realizaram um amplo estudo com meninos e meninas de diferentes países para achar semelhanças entre os genes e o traço da personalidade naqueles que não sossegam. Encontraram no DNA vestígios herdados de geração em geração. Mas o pesquisador Richard Ebstein, um dos autores do trabalho, fez uma ressalva: a diferença genética não dá uma explicação definitiva.

São pesquisas consideradas importantes também porque, apesar dos limites, podem chegar a descobertas objetivas em outros campos, como o uso de drogas. No caso da cocaína, o organismo pode receber uma descarga anormal de dopamina, favorecendo o mecanismo da dependência. Isso explicaria por que algumas pessoas têm mais predisposição ao vício.

É cada vez maior o campo de ação da genética no comportamento humano, como a relação entre homem e mulher. Na hora de escolher alguém para namorar, tendemos a buscar parceiros que sejam geneticamente distintos, diz um estudo da Universidade Federal do Paraná.

O trabalho científico, apresentado neste ano num congresso na Áustria, mostra que pessoas casadas têm, em certa região do genoma, mais diferenças entre si do que pares de desconhecidos. O pedaço do código genético em foco é responsável pelo sistema imunológico. Conclusão: pais com genes diferentes podem oferecer aos seus filhos mais chances contra infecções porque o sistema imunológico será mais diverso. Além disso, a atração “natural” pelo diferente evita o incesto, ou relações dentro da mesma família.

As notícias vão além. Ao mexer no código da vida para explicar por que algumas garotas entram na puberdade cedo demais, cientistas do Centro de Pesquisa em Toxicologia do FDA (agência de saúde do governo americano) encontraram uma surpresa: um gene que acelera a queda da produção de testosterona, o hormônio masculino. Cerca de 90% das meninas que tinham duas “cópias” desses genes específicos começaram a desenvolver seios na idade de nove anos e meio, enquanto a média é de 13 anos.

Há pesquisas afirmando que a genética – e não apenas os fatores psicológicos – influencia não só o desejo sexual. Nas universidades de Harvard e da Califórnia, nos EUA, os geneticistas concluíram que até a popularidade de uma pessoa e sua habilidade de formar grupos sociais é, em parte, influenciada pela herança dos genes.

No Brasil, no Instituto de Biociências da USP, pesquisas com ratos mostram que mesmo a diferença entre uma mãe que cuida bem dos filhos e outra “desnaturada” pode estar nos genes. Mas, na opinião de André Ramos, do Laboratório de Genética da Universidade Federal de Santa Catarina, é preciso cautela: “A genética não é um destino e não determina o que você vai ser, pois todos estão sujeitos a influências ambientais que podem mudar a expressão dos genes, ou fazer com que eles não se manifestem”.