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Falsa distância

No universo escolar, que reproduz os preconceitos da sociedade, o homossexualismo é o maior alvo de discriminação

12/08/2011

12/08/2011

Cristiane Ballerini

 A pesquisa “Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar”, realizada pela FIPE – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, da Universidade de São Paulo – e divulgada em junho deste ano, conclui que 99,3% dos entrevistados têm algum tipo de preconceito: contra pobres, negros, portadores de necessidades especiais, idosos, ou homossexuais. Mas a orientação sexual foi a principal razão apontada para se manter distante desta, ou daquela pessoa. No universo de 18.599 estudantes, professores, pais e funcionários de 501 escolas brasileiras, a maioria respondeu que prefere evitar o convívio com homossexuais.

O preconceito, normalmente mascarado, tende a ficar evidente quando se usa a abordagem adotada na pesquisa, que inclui perguntas como: Você aceitaria um homossexual como aluno em sua escola? E como seu colega de classe? Aceitaria que ele fizesse parte de seu grupo de trabalho? E que frequentasse sua casa? “Nesse caso, o índice de ‘distância social’, que mede quanto distante as pessoas querem estar de determinado grupo, ficou em 72, considerando uma escala de zero a cem,”, explica José Afonso Mazzon, coordenador do estudo e professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

“Esses preconceitos estão profundamente ligados à nossa cultura. É algo que os alunos trazem de casa. E que a escola ajuda a perpetuar”, diz Mazzon. Pelo menos 10% dos alunos ouvidos relataram ter conhecimento de situações de agressão, ou humilhação, a pessoas do universo escolar em consequência de discriminação.

Mas a intolerância não afeta um ou outro estudante de forma isolada. Em escolas onde as práticas discriminatórias são comuns, o aprendizado fica comprometido. É uma consequência direta, passível de ser medida. Quanto mais alto o nível de preconceito nas escolas, por exemplo, piores foram os resultados obtidos na Prova Brasil – utilizada como parâmetro para a pesquisa.
“É algo de se esperar. Imagine estudar em um lugar em que você é rejeitado, onde há grupos rivais que se enfrentam, ou o bullying é uma prática comum. Não há ambiente propício para o aprendizado”, diz o professor Mazzon.
Sofrimento solitário

Lidar com a discriminação é desafiador, afinal se trata de mudar paradigmas e comportamentos. Mas, quando o preconceito está relacionado à orientação sexual, a situação é ainda mais delicada e complexa. Muitas vezes, por não saber como levar o assunto adiante, ou ainda por se sentirem constrangidos com o tema, os professores acabam por ignorar insultos relativos à sexualidade dos alunos. O risco dessa omissão é ver o que começou com risinhos e insinuações assumir contornos mais graves, resultando em isolamento do aluno ofendido, abandono da escola, perseguição e até agressões físicas.

Sem apoio da própria escola, o aluno homossexual vítima de discriminação geralmente não recorre à família, ou a outras instituições para garantir seu direito de estudar e ser respeitado. “Ser ofendido por ser negro é algo que um menino, ou menina pode dividir em casa. Agora, quem é que vai chegar para o pai e falar que a turma está pegando no pé por ele ser gay?”, questiona o filósofo Beto de Jesus.

Consultor em Educação, Beto participa do Brasil sem Homofobia, programa do governo federal envolvendo vários ministérios, como os da Saúde e da Educação, e que prevê ações em diversas áreas. No momento, está em elaboração uma coleção de materiais didáticos que será distribuída, em 2010, a seis mil escolas do País. Idealizado pela ABGLT, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, o projeto envolve seminários preparatórios para a elaboração de livros, vídeos, bonecos e outros materiais de trabalho para os professores e os alunos.
Direito constitucional

Mais do que informar, projetos dessa natureza buscam sensibilizar os envolvidos, já que as reações à sexualidade estão relacionadas a valores morais, religiosos e uma infinidade de aspectos subjetivos. Para os educadores, é a oportunidade de refletir sobre um tema até agora inexistente na formação profissional. Um dos pontos mais enfatizados pelo programa é o fato de que um Estado democrático e laico, como o brasileiro, não pode admitir discriminação baseada, por exemplo, em princípios religiosos.
“Os professores e diretores precisam entender que, segundo a nossa Constituição, gays, lésbicas, travestis e transexuais têm direito à educação como qualquer outro jovem”, diz Beto de Jesus.

Longe destes direitos assegurados por lei, o ambiente escolar é discriminatório. Os alunos com orientação sexual diferente do que é considerado normal pela maioria são “esquecidos” na hora de formar os grupos de trabalho, ou times, raramente participam de atividades como representante da turma e mantêm poucas relações de amizade com os colegas. Mesmo sem ofensas explícitas, essa exclusão silenciosa acaba por comprometer o desempenho dos alunos e, muitas vezes, os afasta da escola.

Quando rapazes e moças assumem publicamente sua orientação sexual, a intolerância também costuma se expressar de formas mais explícitas. A ofensa verbal é uma das manifestações mais comuns e pode vir até mesmo de professores que, imaginam, por exemplo, estar ajudando o aluno gay quando o aconselham publicamente a se vestir como homem, ou a falar como homem.

Além de uma poderosa carga de humilhação, esses insultos, segundo a socióloga Miriam Abramovay, carregam uma mensagem: “Eles são a completa negação da diversidade. Partem do princípio de que há uma sexualidade correta e outra incorreta. E tornam evidente o paradigma de normalidade em nossa sociedade que inclui ser branco, heterossexual, homem”.

Miriam Abramovay, que atualmente é coordenadora do Setor de Pesquisas da RITLA, Rede de Informação Tecnológica Latino-americana, tem longa experiência em pesquisas envolvendo o universo escolar, juventude e violência. Recentemente coordenou um estudo em Brasília com 10.000 alunos e 2.000 professores, sobre violência e convivência nas escolas. Os resultados foram utilizados como parâmetros no curso “Juventude, Diversidade e Convivência Escolar”, uma parceria da RITLA e da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal.

Para Miriam, o professor brasileiro não tem instrumental para lidar com questões como preconceito: “Por isso, é preciso investir significativamente em formação. A partir de diagnósticos e cursos, podemos começar a intervir positivamente nas escolas. A lei do silêncio que paira sobre esse tipo de tema tem que acabar. Escola é lugar de socialização, de saber, e não lugar de discriminação”.
Família, escola e valores

A questão se estende aos livros didáticos. Segundo pesquisa realizada pelo Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gêneros, que analisou 67 dos livros mais utilizados em aulas como Língua Portuguesa, Biologia e História, as comissões avaliadoras do Ministério da Educação conseguem impedir ofensas e preconceitos explícitos contra grupos como homossexuais e negros. Mas as obras ignoram o tema da diversidade sexual. “Os livros não mostram um retrato real de nossa sociedade. E assim se omitem da tarefa de colaborar com os professores para desconstruir preconceitos”, diz a psicóloga da Anis, Tatiana Lionço.

Tatiana, que também atua na formação de professores do Distrito Federal, acredita que livros didáticos que abordem o tema da diversidade sexual podem ser bom apoio para professores que, ao tratar de sexualidade em sala de aula, enfrentam o preconceito dos pais. Motivados por razões religiosas e morais, muitos pais se manifestam contrariamente a esse tipo de conteúdo nas aulas.

Os professores precisam mostrar aos pais que a família tem uma dimensão privada, e a escola atua na esfera pública. E nem sempre a escola vai reforçar os mesmos valores defendidos pela família. “A escola dá ao aluno a oportunidade de ter contato com a diversidade social. Ele se dá conta de que há pessoas diferentes, com valores diferentes, mas com direitos iguais. Quando faz isso, a escola reforça a ética democrática”, diz Tatiana.
Estratégias de sobrevivência

O desejo de ser aceito faz com que muitos alunos homossexuais assumam papéis nada dignos no grupo. Logo cedo, eles descobrem que uma das estratégias contra o isolamento é tornar-se uma espécie de “bobo da corte” da sala. O jogo é caprichar nos trejeitos e apresentar a si mesmo como uma piada. Assim, desde que divirtam a turma, esses estudantes passam a ser aceitos e garantem até um lugar de destaque. “Eles acabam aceitando o deboche para permanecer na escola. Mas, claro, no fundo sabem que estão sendo desrespeitados”, diz Herbert Medeiros, professor de Língua Portuguesa da rede pública estadual do Piauí. Homossexual e integrante do Grupo Matizes, organização que defende o direito da livre expressão sexual, o próprio Herbert também enfrenta preconceitos: “Sei que minha atuação pode gerar mal-estar entre pais e colegas. Mas o que podemos fazer é aproveitar as situações de discriminação para derrubar certos padrões”.

O professor não fala sobre a própria orientação sexual em sala de aula porque considera pedagogicamente inadequado. Mas não esconde sua atuação à frente de projetos que lutam contra a intolerância. Este ano, durante oficinas sobre direitos humanos e sexualidade em duas escolas da rede pública de Teresina, Herbert pôde ver na prática do que a intolerância é capaz: “Não tive contato com histórias extremas, como casos de suicídio. Mas vi muitos jovens terem seu potencial intelectual, afetivo e social restringido por não serem heterossexuais. É como uma morte lenta”.

Uma vez estigmatizados, o risco é que esses estudantes passem a ser vistos e definidos pelo grupo unicamente por sua orientação sexual. Como se eles deixassem de ser alunos, filhos e cidadãos, para se tornarem apenas gays, lésbicas, ou travestis.

As experiências que tentam reverter esse tipo de situação demonstram que tornar a escola um ambiente livre de preconceitos, onde todos possam se desenvolver plenamente, é um trabalho árduo, mas possível.

Além de não tolerar insultos e preconceitos em sala de aula, o professor pode contribuir no cotidiano favorecendo a integração dos alunos. É o que aconselha o professor José Afonso Mazzon: “Vejo que os grupos de alunos tendem a ficar isolados entre si. Por isso, costumo fazer dinâmicas para formar parcerias inesperadas. Trabalhar com os diferentes pode exigir mais energia, mas, com o tempo, vamos colher os benefícios de ver como outras pessoas enxergam o mundo, exercitando a nossa capacidade de aceitar e compreender as diferenças. Esse é o princípio do respeito à diversidade”.