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Expressões desiguais

Quatro estudantes do ensino médio conversam sobre o que é coisa de homem e coisa de mulher

12/08/2011

12/08/2011

Equipe Onda Jovem

A redução da desigualdade entre homens e mulheres aumentaria o crescimento do PIB brasileiro em 0,7%, diz um estudo do banco global Goldman Sachs. São cerca de 200 bilhões de reais a mais, tomando como referência o PIB de 2008, de cerca de 2,9 trilhões de reais. Não era dinheiro para desperdiçar e, sim, investir mais e mais na educação que resulta em menor desigualdade e, no caso, em maior participação feminina na sociedade, incluindo mercado de trabalho, com salários mais altos, planejamento familiar e exercícios de direitos.

A questão da desigualdade de gênero precisa ser abordada já na escola. Ela é o terceiro dos Oito Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM), que no Brasil são chamados de Oito Jeitos de Mudar o Mundo. Entre as formas de ajudar a meta a ser cumprida, está justamente a sugestão de repelir no ambiente estudantil percepções estereotipadas que costumam ser resumidas em frases como “isso é coisa de mulher”, ou “isso é coisa de homem”.

Aqui quatro estudantes do ensino médio debatem o tema:
 
   

Juciene da Silva, 16 anos

Membro da comunidade indígena Taba Lascada, no município de Cantá (RR), que, no 2º ano, não vê a hora de concluir o ensino médio para realizar o sonho de ser uma engenheira civil.

  Gustavo Vieira Pereira, 17 anos

Paulistano que cursa também o 3º ano no Colégio Doze de  Outubro.

 
   

Isaac Morais de Oliveira, 17 anos

Aluno do 3º ano da Escola Estadual Modesto Antônio de Oliveira, no município de Capitólio.

ONDA JOVEM: O que é coisa de mulher para você?

Juciene: É ter seus hábitos de fazer as coisas nas horas certas, gostar de estar na moda, de valorizar a beleza, de cuidar da saúde. É a mulher que cuida dos serviços domésticos, zela pela sua casa e seus bens materiais. Ela gosta de defender seu lado, mas também de ser educada, gentil. Batalha para ter suas próprias decisões e para conseguir o que pretende, seja no amor, no trabalho, na tendência de tornar agradável o convívio na comunidade e entre seus familiares.
Gustavo: Fofoca, ficar horas se arrumando, ir em dupla ao banheiro.
Jupiara: Para mim, não existe coisa específica de mulher, todos somos capazes de fazer tudo, só depende das nossas atitudes e força de vontade.
Isaac: Hoje em dia não tem mais coisa de mulher, ou de homem. Acho que cada um faz o que melhor lhe cabe e lhe agrada
O que é coisa de homem?

Gustavo: Zoeira, amizade fácil, futebol.
Juciene: Coisa de homem é ficar com seus amigos, seja na hora do futebol e em outras ocasiões. É também querer saber da ação social, querer fazer tudo sozinho, sem pedir opinião ou ajuda de uma mulher, embora homem goste de ter sua namorada, ou esposa ao lado. Outra coisa de homem, às vezes, é criticar a aparência de uma mulher, detestar mentiras, expressar as idéias sempre e querer ser reconhecido em tudo que faz, ser respeitado e valorizado.
Jupiara: Se para as mulheres não se devem rotular atividades específicas, para os homens muito menos. Independentemente de sermos homens, ou mulheres, somos primeiro seres humanos e devemos fazer o que nos dá prazer, o que nos faz bem. Ser homem, ou mulher não se limita a coisas de homens e de mulheres.
Isaac: Já disse. Para mim, não tem mais isso de mulher, ou de homem. Cada um faz o que lhe agrada.
Você já passou por alguma situação de preconceito de gênero? Como reagiu, ou como acha que esse conflito deve ser enfrentado?

Juciene: Não. Acho que cada pessoa tem seus problemas pessoais, independente de qualquer coisa, seja no seu direito, no dever, na vida comunitária, devendo ser respeitada na sua tradição, condição, cultura, raça, gênero, religião.
Isaac: Nunca enfrentei o problema, e o como agir dependeria da situação.
Gustavo: Quando eu era criança, com uns 11 anos, fiz 6 meses de ginástica olímpica na escola. Vários amigos ficaram me zoando, falando que era coisa de menina. Larguei a ginástica olímpica e fui pro futebol. Na época, iria largar a ginástica olímpica de qualquer jeito por ser muito alto, mas se eu realmente gostasse, se tivesse futuro nesse esporte, seguiria em frente, não importando o que eles falassem. Meus amigos de verdade iriam me apoiar.
Jupiara: Não passei por nenhuma situação dessas, mais acredito que em pleno século 21 não deveria existir esse preconceito, pois ser um homem não te faz ser superior a uma mulher. A diversidade está aí, e a falta de informação é que provoca, muitas vezes, o conflito. Acho que a escola é um lugar importante para promover informação, educar, formar as pessoas.
Se você fosse mulher, ou fosse homem por um dia, o que mudaria?

Juciene: Mudaria o jeito de eu fazer minhas diversões pessoais. Estaria mais ativa em tudo, teria mais diálogo com amigos, poderia me expressar com mais pessoas, descobrir como um homem pensa antes de agir, ou falar com uma mulher e também eu faria um trabalho pesado e veria como é a profissão de um homem.
Gustavo: Eu veria a vida do ponto de vista feminino, poderia entender melhor o que se passa na cabeça de uma mulher e iria compreendê-la melhor.
Jupiara: Não mudaria nada, pois o fato de ser mulher não me impede de fazer as coisas que quero e, acredito, sejam elas coisas de homem, ou de mulher.
Isaac: Provavelmente, algumas atividades do cotidiano.
Você gostaria de ser do sexo oposto em que situação? Por quê?

Juciene: No momento de conseguir um emprego, para conseguir ter um bom diálogo e também ter acesso a várias oportunidades. No caso do trabalho doméstico, seria bom porque eu trabalharia menos e descansaria mais.
Isaac: Acho que gostaria de ser mulher na hora das tarefas pesadas. Na maioria das vezes, essas tarefas não são destinadas a mulheres.
Gustavo: Seria bom ser mulher na hora de ir pra balada. Mulher sempre consegue vip.
Você não gostaria de ser do sexo oposto porque...

Juciene: Porque gosto de estar com o pensamento mais sensível e de poder não trabalhar esforçadamente.
Isaac: Pelas facilidades que o homem tem e a mulher, não.
Gustavo: Não gostaria de ter TPM, cólica e sofrer a dor do parto.
Jupiara: Não gostaria de ser do sexo oposto em nenhuma situação, não me limito por conta do meu sexo biológico.
Que vantagens e desvantagens você vê em ser homem e em ser mulher?

Juciene: O homem tem acesso mais fácil ao trabalho, mas tem a desvantagem de ser mais explorado em suas economias. Para a mulher, é uma vantagem poder ganhar espaço com sua beleza, dedicação e moral. A desvantagem é que ela é discriminada, não importa aquilo que faz, ou deixa de fazer.
Gustavo: A força física do homem é uma grande vantagem. A vantagem feminina é ter um lado mais humano, mais racional, que ajuda em muitas horas.
Jupiara: Não vejo vantagens físicas nem psicológicas entre um e outro. A única coisa que diferencia a mulher, e não diria que é vantagem, ou desvantagem, é o fato de ela ser responsável por gerar e dar à luz um filho.
Isaac: Homens não têm ciclo menstrual, têm maior liberdade perante a sociedade (“ele é homem, então pode ir...”) e não são tão influenciados pela ditadura da beleza. Mas as tarefas mais difíceis são destinadas a homens. Eles têm menos conforto que as mulheres e menos proteções.
Que situação você não gostaria de passar como homem, ou mulher?

Isaac: Gravidez.
Jupiara: De ser discriminada por conta da minha orientação sexual, raça/etnia, ou local onde moro.
Gustavo: Bom, em duas situações eu não gostaria de ser mulher. A primeira é na hora de sentir a dor do parto, e a segunda é ser aquela amiga que acompanha a outra ao banheiro. Não é muito melhor conversar em outro lugar?
A desigualdade de gênero vai acabar um dia, ou isso é coisa inevitável de uma sociedade?

Isaac: É coisa que acontece na nossa sociedade, nem com o passar do tempo vai acabar.
Jupiara: A desigualdade de gênero é construção antiga, do tempo dos nossos avós. Devemos lutar para eliminar todas as formas de desigualdade.
É importante a escola ter um trabalho voltado à discussão de gênero? Por quê?

Juciene: É importante. Ainda não acontece na minha escola essa discussão, mas deveriam ser discutidas coisas que o homem faz e que ele acha que a mulher não pode fazer.
Gustavo: As escolas devem, sim, ter um trabalho voltado à discussão de gênero, e isso deve ser feito a partir da pré-escola, quando a criança é pequena. Ao crescer, estaria mais educada para não discriminar. Na minha escola é muito difícil acontecer uma situação de desigualdade, pois estamos habituados a realizar várias atividades juntos, sem nenhum problema.
Jupiara: Na escola em que estudo não têm essas discussões, mas eu participo de um coletivo juvenil que debate qual é o papel da mulher na sociedade e outras questões relacionadas a gênero. Mas acho que a escola é responsável por uma boa parte da educação dos jovens e deveria abrir espaço formal, ou informal, para a questão de gênero.
Isaac: É sempre bom ter uma discussão na sala de aula.