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Convivências diversas

Em Minas Gerais, Brasília, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, projetos promovem reflexões sobre gênero no contexto escolar

12/08/2011

12/08/2011

Lélia Chacon

A escola é um lugar privilegiado para a promoção da igualdade de gênero porque oferece muitas possibilidades de debates sobre o tema e mudanças de comportamento. Em Minas Gerais, Brasília, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, quatro iniciativas utilizam diferentes estratégias para despertar os alunos da educação básica para a questão.

Na Escola Família Agroindustrial de Turmalina, no Vale do Jequitinhonha (MG), a pedagogia da alternância (um intervalo de tempo na escola, um intervalo de tempo com a família) permitiu a criação do internato feminino, resolvendo a resistência das famílias em mandar as filhas à escola. “Hoje temos turmas mistas, e o sistema contribui especialmente para a permanência dos jovens na escola”, diz a coordenadora pedagógica Marinalva Farias Silva.

No Rio, o Projeto Diversidade Sexual na Escola, vinculado ao Programa Papo-Cabeça, da UFRJ, realiza oficinas capacitando professores e envolvendo alunos no combate à homofobia e ao sexismo. O coordenador de comunicação do projeto, Alexandre Bortolini, diz que talvez o mais difícil de superar entre os jovens seja um modelo de masculinidade machista. “O menino acha, por exemplo, que não ser preconceituoso contra gays faz com que outros suspeitem que ele também é gay.”

Em Brasília, o Brasil-Afroatitude, Programa Integrado de Ações Afirmativas para Negros, apoia iniciativas como a do estudante pesquisador do Curso de Artes Cênicas da UnB, Devs Oliveira, que usa o teatro para debater o tema com jovens do ensino médio de escolas públicas. “O teatro é uma das melhores formas de atrair estudantes para o debate e a reflexão. O impacto é visual e atrai muito. Um jovem, após uma oficina, me disse: ‘O que vocês estão fazendo é bárbaro, porque palestra dá sono’”.

No Rio Grande do Sul, um dos recursos é o futebol de rua, no Programa Esporte Integral – PEI, trabalho de extensão da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo. “Uma das estratégias da ação com os jovens é a troca de papéis, fazer com que o aluno se coloque em um lugar diferente do seu”, diz a coordenadora pedagógica Juciane Teixeira.
Conheça melhor estas propostas a seguir.



MG - Escola Família Agroindustrial de Turmalina

 
   

 

Conjugando educação formal e ensino profissionalizante para crianças e adolescentes de áreas rurais, a Escola de Turmalina, no Vale do Jequitinhonha (MG), tem origem em uma associação que mobilizou um grupo de pais para resolver a questão escolar na periferia do município, prejudicada, entre outros fatores, pela falta de transporte. A escola foi inaugurada em 1998, com um regime de internato que solucionava o problema da distância

Conjugando educação formal e ensino profissionalizante para crianças e adolescentes de áreas rurais, a Escola de Turmalina, no Vale do Jequitinhonha (MG), tem origem em uma associação que mobilizou um grupo de pais para resolver a questão escolar na periferia do município, prejudicada, entre outros fatores, pela falta de transporte. A escola foi inaugurada em 1998, com um regime de internato que solucionava o problema da distância das residências dos alunos. E, nesse sistema, meninos e meninas passaram a frequentar a escola em períodos alternados, contornando a oposição das famílias à frequência mista. A solução favoreceu o acesso das meninas ao ensino, já que o internato misto não era problema para as famílias dos rapazes. A composição por sexo do quadro discente logo se alterou: na época, dos cerca de 130 alunos atendidos, 90 eram meninas. Neste ano, no ensino médio, há 38 meninas e 29 meninos, mas, considerando o total de alunos das turmas – anos finais do ensino fundamental e as três séries do ensino médio –, os garotos são mais numerosos (92) do que as garotas (60). “No princípio, havia essa preocupação de meninos e meninas juntos, mas hoje, com base em discussões com os pais, que participam com a escola das decisões de como funcionar, a questão de gênero não é mais um fator preponderante. Nossa atenção se volta para educar todos, meninos e meninas, para uma convivência harmoniosa, responsável e de respeito mútuo”, diz a coordenadora pedagógica Marinalva Farias Silva.

 

RJ - Projeto Diversidade Sexual na Escola, do Programa Papo-Cabeça, da UFRJ

 
   

Ajudar a superar preconceitos, desmascarar uma suposta tolerância à diversidade sexual e estimular educadores e estudantes a se reconhecerem como atores na cumplicidade ou no combate à discriminação são os objetivos do projeto, lançado no Fórum Mundial de Educação de Nova Iguaçu, em 2006, ocasião em que se integrou ao Programa Papo-Cabeça realizado pela Faculdade de Medicina e pela Maternidade-Escola da UFRJ. As escolas, de educação comunitária, ou formal, são convocadas a parcerias para o desenvolvimento das atividades, incluindo gestores, professores e alunos. Em 2009, foram realizadas 40 oficinas de sensibilização para 900 professores de 28 escolas. Um curso de capacitação de educadores teve três edições, formando 252 profissionais. Mais de 1.000 estudantes foram estimulados para o debate sobre gênero, por meio de 10 apresentações teatrais feitas por jovens, em 10 escolas. Os mesmos jovens são autores de dois vídeos com depoimentos que expressam diferentes orientações sexuais. Os trabalhos, disponíveis no YouTube, renovam o olhar sobre estereótipos sexuais. “A gente não leva receita pronta para o ambiente escolar. Não tem o que é certo, ou errado”, diz Alexandre Bortolini, coordenador de comunicação do projeto. A intenção, ele acrescenta, é desestabilizar preconceitos. “É mostrar que a diversidade existe e está na nossa escola, na nossa comunidade, entre os alunos e os educadores. Que todos possamos reaprender a olhar para si e para os outros.”

DF - Programa Afroatitude/Projeto “Reflexões, por meio do teatro, sobre os impactos visuais dos corpos transviados”

 
   

Os corpos transviados são das pessoas que fogem a padrões como o do heterossexual branco, explica Devs Oliveira, autor do projeto de iniciação científica, estudante do Curso de Artes Cênicas da Universidade de Brasília, pesquisador em diversidades pelo Programa Afroatitude, integrante do Núcleo de Estudos em Diversidade e Gênero da UnB e membro do Grupo Klaus – Diversidade. O instrumento do projeto de Devs é a peça “Carta de um Espectro”, que conta a história de Gustavo, personagem que “costura” as diversas experiências de outros personagens: travestis, lésbicas e homossexuais. O texto foi criado a partir de entrevistas e é apresentado a estudantes acima de 14 anos de escolas públicas, seguido de debates com professores e alunos. “Nem sempre somos bem recebidos nas escolas, às vezes somos até insultados, mas sempre fica um questionamento, uma reflexão. Uma ocasião, um jovem se manifestou. Para ele, tinha mesmo era que bater em homossexual, porque o pastor de sua igreja dizia que era errado ser assim. E outros jovens argumentaram: se seria errado agredir o pastor pela sua crença religiosa, não seria também errado agredir o homossexual pela sua orientação?” Devs apresenta a peça em cinco escolas, desde 2008. Estima que mais de 600 estudantes tenham visto o espetáculo. “Eles gostam porque o discurso é visual. Dizem que palestra dá sono. E tem a discussão depois, especialmente importante para jovens fora dos padrões terem a chance de se manifestar, deixarem de ser espectros em suas comunidades”.


RS - Futebol de Rua no Programa Esporte Integral, da Unisinos

 
   

Alternativa para reduzir a violência em Medellín, depois que um jogador colombiano foi assassinado após um jogo de copa do mundo, em 1994, o “Futbol Callejero”, ou futebol de rua, difundiu-se como tecnologia social. No Programa Esporte Integral (PEI) da Unisinos, a ideia foi adotada este ano para fortalecer “a integração de gênero, raça ou credo no esporte, aproveitando o poder mobilizador do futebol, que já era prática do PEI”, diz a coordenadora Juciane Teixeira. O programa, complementar à escola, é dirigido a alunos da rede pública de São Leopoldo, com idades entre 7 e 18 anos. Ao mesmo tempo, contribui para a formação dos acadêmicos da Unisinos. No futebol de rua, os jovens formam grupos e registram qualidades para o bom andamento do jogo. Todos avaliam se as qualidades são, ou não, determinadas por gênero. A partir daí, constituem-se equipes mistas para dar visibilidade às qualidades. As regras, construídas coletivamente, devem contemplar os aspectos técnicos, as relações de convivência (a importância de perceber as potencialidades do outro) e o investimento afetivo (a expressão de uma virtude que, se vivida pela equipe, influencia a pontuação do time). Dificuldades, às vezes motivadas pela vivência esportiva na escola, que segrega grupos para melhor desempenho técnico, são resolvidas com dinâmicas de troca de papéis, ou criação coletiva de estratégias de boa vizinhança. Em 2009, 22 dos participantes eram do ensino médio. Já estão escalados para o Festival de Futebol de Rua no fim do ano.