Respostas ao desafio
Professores de três estados contam como conseguiram transformar os recursos tecnológicos em aliados didáticos
22/08/2011
| A era em que os laboratórios de informática são usados somente para que os estudantes façam pesquisas na Internet podem estar com os dias contados. Em várias escolas públicas brasileiras, professores do ensino fundamental e médio estão dominando algumas ferramentas tecnológicas que, além de multiplicarem o interesse dos alunos, resultam em vídeos, pesquisas, blogs de boa qualidade técnica e com muita visibilidade na rede. Os mestres que aceitaram o desafio tiveram surpresas e colheram frutos. “Os próprios alunos sugeriram usar mais os recursos de informática”, diz Paulo Roberto de Araújo, professor de Química do 3º ano do ensino médio da Fundação Bradesco, no Rio de Janeiro. “Esse foi o ponto de partida para a produção de vídeos que nos renderam um prêmio e a projeção da escola. A parceria com as classes ficou muito mais intensa e construtiva, e a compreensão dos conteúdos de Física e Química deixou de ser um bicho-papão”. Nem mesmo a falta de recursos técnicos intimidou educadores de regiões mais carentes. Em Fortaleza, um grupo de escolas participa, há seis anos, do projeto internacional River Walk, em que os estudantes documentam a história de vários rios. “No começo, não tínhamos Internet, mas os alunos, que sabem mais do que nós em matéria de informática, sempre achavam soluções, trabalhando em lan houses, usando suas câmeras digitais ou de celulares nas pesquisas de campo”, diz Nilourdes Lauriano, coordenadora pedagógica que iniciou o trabalho em 2003. Em São Paulo, outro projeto tem despertado jovens para a realidade do mercado de trabalho. “O objetivo não é profissionalizante, mas quando o aluno é motivado a fazer um trabalho que será assinado por ele, visto por outras turmas e por muita gente fora da escola, naturalmente isso cria um senso de responsabilidade pelo que está sendo produzido”, diz Carlos Eduardo Fernandes, professor de Artes da EMFM Vereador Antonio Sampaio, criador do projeto Cinema e Vídeo, que estimula a realização de animações e documentários, integrando o conteúdo de várias disciplinas. Nas três experiências, sobressaem os esforços de educadores para atingir de forma eficaz o objetivo mais básico de seu ofício: ensinar. |
| Parceria produtiva Há quatro anos, Paulo Roberto de Araújo, professor de Química, e Armando Gil dos Santos, professor de Física, ambos da Fundação Bradesco do Rio de Janeiro, resolveram aceitar o desafio de fazer um curso de capacitação e aprenderam a usar um programa de trabalho em dupla, aproveitando as ferramentas das tecnologias da informação. “Incluir esses recursos tecnológicos nos ajudou a mostrar aos alunos que aprender Física e Química pode ser muito divertido. Nessa nova proposta, para estudar os princípios do consumo consciente com as turmas da 3ª série do ensino médio, propusemos que as equipes fizessem comerciais de apenas um minuto, com mensagens contundentes que levassem qualquer cidadão a refletir sobre o tema”, conta o professor Paulo Roberto. Para isso, os alunos fundaram uma miniagência de publicidade que foi batizada de PISA e ficou conhecida em toda a escola. Eles se dividiram em grupos e começaram a produzir os vídeos do projeto Ponto de Idéias e Soluções Ambientais em 4R (Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Repensar). “Usando vários recursos de linguagem e um programa de edição, produziram cerca de 30 filmes, propondo maneiras de transformar nossos hábitos de consumo”, diz o professor Armando. “Percebemos que muitos estudantes tinham habilidade com o computador e logo passamos a aprender com eles, sem ter medo de inverter esses papéis. Isso intensificou muito a parceria com as classes, e o interesse pelas matérias foi crescendo. Os vídeos foram exibidos em toda a escola, nas 40 unidades da Fundação Bradesco, em todo o Brasil, e 10 filmes estão no YouTube”, completa Paulo. O projeto ainda provou o quanto é produtivo o trabalho integrado entre os mestres. Os roteiros foram escritos pelos jovens com assessoria da professora de Português. Esse trabalho rendeu aos professores o prêmio Microsoft Educadores Inovadores, na categoria Educador Inovador, em 2007. Por conta disso, a dupla foi convidada a fazer um giro por escolas da Espanha, berço da utilização da tecnologia no ensino. “Hoje, nós somos convidados a fazer palestras sobre esse tipo de aula, que pode ser adaptada para qualquer matéria do currículo oficial. Além disso, formaram-se muitas outras duplas na Fundação Bradesco que já superaram o medo da tecnologia na aprendizagem”, afirma Paulo. E a principal dificuldade dos estudantes foi mesmo passar no controle de qualidade dos professores: “Nós ficamos muito exigentes também em termos técnicos. Pedíamos para trocar imagens, para melhorar o som até chegar a um nível de excelência dos filmes. Esse também é um treino para o mercado de trabalho, pois acabamos unindo duas áreas chave, a de Meio Ambiente e a de Informática, que abrem muitas perspectivas profissionais concretas para esses jovens que, efetivamente, aprenderam a trabalhar em parceria e a serem avaliados como profissionais”, diz Armando Gil. Este ano, os alunos da 2ª série estão trabalhando em parceria com estudantes da Escola Edison, da Argentina, e das Faculdades de Economia e Finanças da Universidade de El Salvador, em São Salvador. Os do 1º ano se animaram a mexer com computação gráfica e estão criando animações. “Para isso, usamos softwares gratuitos baixados da Internet. O 3º ano está produzindo videoaulas com o tema “A Grande Revolução Científica”, que poderão ser usadas em aulas de qualquer disciplina”, diz o professor Paulo. |
| Luzes, câmeras, ação “Estresse no Trânsito”, “O que os Jovens querem para o Futuro”, “Prós e Contras da Lei Seca” foram os assuntos escolhidos pelos alunos para produzirem seus próprios documentários, no projeto Cinema e Vídeo, idealizado e posto em prática pelo professor Carlos Eduardo Fernandes, na EMFM Vereador Antonio Sampaio, na Zona Norte da capital paulista. Há quatro anos, ele resolveu levar sua paixão por fotografia e cinema para o ambiente escolar, sem deixar de lado o conteúdo oficial das aulas: “Os filmes são muito presentes na vida dos estudantes, e incentivá-los a trabalhar com imagens é uma forma muito envolvente de experimentar as várias linguagens e formas de expressão, do documentário à publicidade”, diz o professor Carlos. A escola não tem câmeras para captar as imagens nem computadores com memória suficiente para armazenar toda a produção das classes, e não há verba destinada ao projeto. Mas nada disso tem sido empecilho para fazer o trabalho. “A configuração ideal para trabalhar com vídeos e fotos é ter 80 giga de HD e 1 giga de memória. A memória das máquinas que temos corresponde apenas a um quarto disso. Para driblar essa limitação, os alunos que têm computador editam o material em casa, com seus grupos, e baixam o vídeo pronto no computador da escola. Sempre faço uma cópia e guardo comigo, pois muita gente mexe nas máquinas, e os filmes correm o risco de ser deletados”, explica o professor. A maioria dos alunos tem celulares e câmeras digitais que captam imagens. A edição e os efeitos ficam por conta dos softwares de edição de imagens, de manejo simples. Um aparelho de DVD e uma TV garantem a exibição dos filmes feitos pelos alunos e de outros escolhidos a dedo para ampliar o repertório da turma. “Para falar da linguagem do documentário, assistimos ao clássico ‘Cabra Marcado para Morrer’, de 1984, dirigido por Eduardo Coutinho. Eles não veriam normalmente, mas é um filme que dá referências para além do cinema comercial”, exemplifica Carlos. A professora de Filosofia e Sociologia, Beatriz Ferreira Rabello, integrou-se ao projeto, estimulando as classes a discutir os temas que serão transformados em filmes. Isso deu um novo brilho às aulas, que deixaram de ser apenas teóricas. “Além disso, a produção dos filmes contribui para integrar oito alunos com necessidades especiais (alguns são surdos e outros têm dificuldades de locomoção). Eles participam de todas as etapas, desde a filmagem até a finalização, e isso é possível por que trabalham em grupo”, diz Carlos Eduardo. “Procuro estimular a autonomia de todos. Quero que eles se sintam autores, donos dos filmes. Isso tem integrado mais as turmas e mantido o foco nos temas durante toda a semana. Nunca tenho que lembrar a eles o que discutimos na aula passada”, afirma o professor. E o sentido de continuidade e permanência não para por aí. No século 21, o ponto de encontro e de discussão da moçada são os blogs de estudos, mais uma forma para que cada projeto marque presença no cyberspace. “Os alunos vão sair da escola, mas a produção deles vai permanecer no ar nesses espaços virtuais. Esse é mais um incentivo para todos nós”, diz o mestre. |
| O curso dos rios O Projeto River Walk foi criado pelo Instituto de Comunicações e Simulações da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, é financiado pelo governo japonês e fincou raízes em Fortaleza, capital do Ceará. Essa “volta ao mundo” e todos os desdobramentos que surgiram a partir dessa prática de ensino são possíveis por causa das tecnologias da informação e comunicação. “Há seis anos, eu soube dessa possibilidade numa reunião de gestores do ProInfo, do Ministério da Educação. Mesmo sem ter Internet na escola, me interessei em incluir a informática no processo de aprendizagem, inicialmente como algo opcional. Com o apoio do professor Eduardo Junqueira, coordenador do projeto no Brasil e professor do Instituto Universidade Virtual, percebi que não era impossível levar isso para as escolas de Fortaleza”, conta Nilourdes Lauriano, coordenadora pedagógica. A proposta original é que jovens do mundo todo façam um reconhecimento completo dos rios de suas cidades e publiquem suas pesquisas num site multilíngue. Eles também têm acesso a um chat, para trocar informações e experiências. Nilourdes convidou professores de Geografia, Biologia e Português para aprender a usar as ferramentas de informática relativas ao projeto. Em seguida, fizeram juntos uma pesquisa de campo levantando aspectos interessantes do rio Cocó que podiam integrar ao currículo. O projeto teve início de fato na EEFM Professor Paulo Ayrton Araújo, no bairro de Cajazeiras. De 2005 a 2008, foi a vez do River Walk conquistar alunos na EEFM Maria Gonçalves, em Boa Vista. Ambas as escolas ficam bem próximas ao rio Cocó. “O jovem estuda o que está em seu entorno. Este também é um ponto forte para manter a motivação dos jovens. A informática e a pesquisa de campo nos ajudaram, inclusive, a resgatar classes com dificuldade de aprendizagem, com vários repetentes. As notas e comportamento melhoraram muito, pois eles se sentiram integrados ao processo”, diz Nilourdes. Este ano, o River Walk segue seu curso com conteúdo produzido na EEFM Virgílio Távora, no Parque Iracema. A meta da pesquisa é detalhar tudo o que acontece na lagoa Messejana. Além disso, o River Walk Brasil foi integrado como projeto de extensão na Universidade Federal do Ceará. A interdisciplinaridade é um ponto forte do programa. “A professora de Português foi buscar nas margens do Cocó a inspiração para que os alunos produzissem poemas, crônicas e charges. Em Biologia, foram estudadas as plantas próximas às águas, o processo de descarte do lixo e reciclagem. Em Geografia, o desafio foi colher dados para fazer mapas e gráficos estudando a população do entorno, as diferenças ao longo do curso do rio, as áreas degradadas e preservadas”, diz Nilourdes. De volta à escola, os textos, fotos e imagens são levados para o laboratório de informática. Juntos, docentes e estudantes formatam as páginas, que são enviadas ao site, que se encarrega de pôr no ar essas “excursões virtuais”, com visibilidade pelo mundo afora. “Nos três primeiros anos, as escolas não tinham Internet, o que dificultava muito o acesso ao site e aos chats, mas persistimos. Hoje, há 20 computadores para que os alunos trabalhem em grupos, e o professor do laboratório de informática participa das atividades multidisciplinares. Todo o processo valoriza alunos e professores”, diz a coordenadora. “Valeu a pena persistir.” |
| Contatos www.proyecto4r.blogspot.com www.granderevolucaocientifica.blogspot.com www.riversproject.org Cinema e Vídeo: cefjunior@yahoo.com.br |



