Fontes de inspiração
Em casa ou na escola, o educador que estimula o jovem a questionar experiências e conhecimentos está fazendo seu melhor trabalho
25/08/2011
| No ensino médio, os alunos vão aos poucos se sentindo impelidos a pensar no rumo que darão a suas vidas. A fase desperta curiosidades, dúvidas e inseguranças, mesmo naqueles que precocemente parecem convictos de suas escolhas. Por isso, é importante que a escola, os professores e os pais façam parte desse processo. No contato diário com os jovens, eles se tornam fonte de experiências, informações e opiniões. É o que procuram fazer duas professoras de escolas públicas de Sergipe e do Rio de Janeiro, assim como um grupo de pais de Belo Horizonte. Não se trata de exercer o papel de orientador profissional dos estudantes, mas de abrir espaços para a ação e criar oportunidades para discussões. Nesses momentos, quando um educador consegue transmitir um conhecimento de modo que ele gere novas idéias, atraia o interesse, ou estimule os questionamentos dos jovens, está fazendo o seu melhor trabalho e, talvez, marcando com um toque inspirador sonhos de vida promissores. As palavras de um mestre em quem um jovem deposita confiança podem ser uma influência poderosa, como mostra o exemplo da professora carioca Vânia Aparecida Silva Corrêa Pinto. Na adolescência, ela ouviu de uma professora: “A filosofia auxilia o aluno a lançar outro olhar sobre o mundo e a transformar a experiência vivida em experiência compreendida”. Nesse dia, Vânia se apaixonou pela filosofia, disciplina que hoje leciona no Colégio Estadual Vicente Januzzi, no Rio de Janeiro. “Frase linda, não é? De lá para cá, estou sempre envolvida e envolvendo meus alunos com a busca desse outro olhar”, conta Vânia. Uma de suas iniciativas resultou no projeto “Brasileirinho: Sarau de Poesia e Filosofia no Bosque”, duplamente reconhecido: em 2007, pelo Prêmio Cultura Viva, do Ministério da Cultura; em 2008, pelo Prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação (MEC). |
| Filosofia no bosque O projeto nasceu como estratégia para incentivar o prazer pela aprendizagem na escola. “A adolescência é um período de transição, em que surgem novas possibilidades, começam a se desenhar projetos de vida. A escola é o espaço para vivenciar essa mudança, e eu me entristeço quando ela não dá prazer aos alunos, porque parte dos sonhos deles começa ali. Eu queria, antes de tudo, que meus alunos tivessem alegria de estar na escola, e eu também queria sentir alegria de estar com eles”, diz Vânia. Para isso, segundo a professora, a filosofia não podia estar distante do interesse real dos estudantes. E ela encontrou o tratamento interdisciplinar e contextualizado que desejava na obra “Brasileirinho”, apresentada em show da cantora Maria Bethânia. “Estavam ali os suportes necessários para articular os conhecimentos filosóficos com diferentes conteúdos, de forma prazerosa”, diz Vânia, que pensou na música como estratégia inicial do projeto por acreditar que a adolescência tem trilha sonora. “A música ocupa lugar muito forte na vida do aluno, às vezes até na sala de aula, às escondidas do professor. Eu resolvi canalizar esse grande interesse para algo construtivo na aprendizagem.” Os jovens estranharam a proposta de aprender filosofia por meio da música popular brasileira, mas toparam a empreitada. Fizeram leituras compartilhadas das letras, a interpretação dos conteúdos, cantaram e começaram a sugerir outras músicas de CDs que saíam de suas mochilas. Depois, assistiram ao show “Brasileirinho” em DVD, dividiram-se em grupos para construir propostas sobre suas músicas prediletas na obra e engrossaram todo esse caldo com pesquisas no laboratório de informática sobre a diversidade da cultura brasileira. Desse processo, surgiu a idéia de um sarau de poesia e filosofia como fechamento dos trabalhos apresentados pelas 12 turmas. Havia crônicas, poesias, pinturas, desenhos, música erudita e popular, teatro. Nesse cenário, Vânia contextualizou a mitologia grega, que mostra a origem da filosofia, além das mitologias africana e brasileira. Numa das etapas de avaliação das atividades, os alunos constataram que a escola não tinha condições físicas de abrigar o grande sarau. Sugeriram realizá-lo num parque municipal ao lado do colégio e se encarregaram de pedir autorização para o evento e obter patrocínios para a montagem de um palco na beira de um lago. A direção da escola também se envolveu, ajudando na confecção de convites, enviados à comunidade e a membros do poder público. A cantora Maria Bethânia gravou uma mensagem especial aos alunos. O sarau tornou-se prática anual na escola e desperta interesses até no exterior, depois que Maria Bethânia convidou a professora Vânia para participar de um debate na TV. “Em 2008, uma professora chilena veio conhecer o projeto para implantá-lo em seu país”, diz a educadora. Com a autoestima elevada por conta dos resultados do projeto, alunos e professores criaram um ambiente de alegria e otimismo na escola. “A proposta formou alunos leitores, escritores e, principalmente, assíduos, interessados em conhecer e desvendar possibilidades de vida e futuro, com a escola e por causa dela”, diz Vânia. Enfim, os efeitos se revelaram no aproveitamento escolar: as notas bimestrais aumentaram, assim como os índices de aprovação das turmas. |
| Pais presentes À sua maneira, o casal Ivan e Déborah Kallás conseguiu contribuir para repetir o feito da professora Vânia: valorizar a escola como espaço de aprendizado voltado à construção de projetos de vida. Eles são pais da estudante Ângela, de 16 anos, que cursa o 2º ano do ciclo médio na Escola Estadual Leopoldo de Miranda, em Belo Horizonte. A garota andava meio perdida, desinteressada da vida escolar, com pouco entusiasmo e participação, notas ruins, problemas de relacionamento com colegas. Atentos ao papel de pais e conscientes da importância da educação na vida dos adolescentes, Ivan e Déborah decidiram se aproximar mais da escola da filha. Engajaram-se na iniciativa de um grupo de pais e da escola para criar a Associação Amigos da Escola. “Antes disso, a Déborah tinha aquela participação formal, apenas nas reuniões escolares”, conta Ivan. Num primeiro momento, a ação não vingou como esperado, travada em burocracias e falta de tempo dos envolvidos. Mas os pais de Ângela perceberam que o movimento começava a ter reflexos positivos no comportamento da filha. “No mínimo, estávamos demonstrando maior interesse na vida dela, e a escola é uma parte importante disso”, analisa Déborah. A atividade da Associação foi retomada. “Fizemos uma reunião, apareceram muitos pais, mas ainda assim a participação efetiva ficou reduzida a oito pessoas”, conta Ivan. O grupo fez de tudo – organizando festas, campanhas, criando redes virtuais, editando boletins informativos e outras atividades – para mobilizar o interesse de outros pais. No meio do caminho, a direção da escola mudou e a nova direção chegou com entusiasmo para dar força ao esforço das famílias. Este ano, no final de março, convocada nova reunião do grupo, 30 pais entre os participantes se candidataram a ingressar na Associação. “Foi a maior reunião de pais da escola. Vamos eleger nova diretoria e reativar de vez a Associação Amigos da Escola”, diz Ivan. Com a maior participação dos pais nas atividades da escola, as mudanças no comportamento de Ângela também foram reforçadas e ganharam nitidez. “Hoje, ela não desperdiça o espaço da escola”, diz o pai. Segundo Déborah, a filha está mais interessada em tudo, mais responsável e envolvida com as situações escolares, e as notas também melhoraram. O mesmo movimento aparece na casa da família, onde a menina passou a colaborar mais com as tarefas domésticas. “Ela está muito bem no caminho da maturidade. Está apostando em suas escolhas, quer cuidar dos bichos, ser veterinária. E toda essa história também animou a nós, como casal, ao criarmos novas relações com outros pais da escola e seus filhos”, diz Ivan. Pela experiência, o casal garante que os filhos cujos pais têm esse engajamento na escola apresentam melhor desempenho e envolvimento. “Esses alunos se dedicam mais e colherão mais no futuro. Somente uma associação não faz uma escola, mas ela faz a diferença porque o espírito associativo gera mais e mais participação”, diz o pai. “Com outra disposição, hoje a minha filha está desfrutando do mundo da escola, sabendo que os conhecimentos e experiências de que partilha vão ajudá-la a vencer no mundo, a ser alguém melhor na vida”, finaliza Déborah. |
| Criando perspectivas A professora de educação física Josefa Iranilde Dantas Santana, que trabalha no Colégio Estadual Professor João de Oliveira, no município de Poço Verde, em Sergipe, queria o mesmo que os pais de Ângela em relação a seus alunos: que eles se envolvessem com o aprendizado na escola, não por obrigação, mas que o incorporassem com interesse e perspectiva de futuro, como um projeto em suas vidas. A meta específica da professora era tirar os alunos do sedentarismo, mas o propósito mais amplo, a partir da prática esportiva, era torná-los pessoas ativas em seu meio – exatamente a perspectiva que motivou e conquistou os jovens para participar do projeto Caminhando com a Comunidade, iniciativa premiada na Feira Nacional de Ciências da Educação Básica (Fenaceb) e também destacada na 3ª edição do Prêmio Professores do Brasil, do MEC. Na primeira etapa do empreendimento, a professora convidou os jovens para um passeio a pé, uma caminhada até a barragem da cidade. A atividade motivou a segunda etapa: uma pesquisa sobre os benefícios fisiológicos que a prática de caminhar produz nos sistemas orgânicos. Divididos em grupos, os jovens apresentaram suas pesquisas em seminários. Na sequência, foram convocados a caminhar três vezes por semana num espaço de uma associação local. “Nesse momento, eu considerava com os alunos aspectos científicos do exercício para que eles o realizassem no que chamamos zona alvo, a ideal para alcançar os melhores resultados, e comentávamos as observações deles sobre outras pessoas que viam caminhar na comunidade. Essa atividade nos encaminhou para a terceira etapa do projeto, uma pesquisa de campo”, conta Iranilde. Munidos de um questionário, os alunos entrevistaram moradores que faziam o exercício da caminhada. O objetivo era identificar o perfil deles e suas características, como a roupa, o calçado, a alimentação e a ingestão de água, o alongamento antes da prática esportiva. Os resultados da pesquisa, com cerca de 300 pessoas, foram demonstrados em gráficos e analisados pelos alunos. “Foi esse trabalho que deu caráter científico ao projeto”, diz a educadora. As informações coletadas renderam mais: cada grupo de alunos produziu um boletim com informações importantes para o praticante de caminhadas e distribuiu o material na comunidade. Uma quarta etapa estava prevista para coroar o projeto, segundo Iranilde. Durante a atividade, os jovens se deram conta de que as pessoas caminhavam à beira da estrada por falta de um local apropriado e decidiram formar uma comissão para cobrar dos órgãos públicos a construção de um espaço para caminhadas. “Queremos realizar essa etapa na próxima edição do projeto e também fazer dele uma atividade extracurricular, para atender alunos que estão acima do peso”, diz a professora. Para Iranilde, um dos ganhos do projeto foi os alunos se darem conta de que os problemas da comunidade são deles também, porque eles são a comunidade. Outro foi a valorização da educação física na escola e na vida dos jovens. “Muitos alunos passaram a adotar a prática da caminhada”, conta. O maior ganho talvez os jovens percebam no futuro: com o projeto, desenvolveram a autonomia na busca pelo conhecimento, explorando novos meios como a internet e também habilidades como transmitir o conhecimento assimilado em seminários e trabalhar em equipe. Eles saíram do projeto mais preparados para construir seus projetos de vida.” |



