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Encruzilhada de sentidos

O resgate da identidade do ensino médio passa pela sua democratização

25/08/2011

25/08/2011

Helena Singer

O ensino médio no Brasil passa hoje por uma grave crise causada por elevadas taxas de evasão. De acordo com as estatísticas mais recentes do Ministério da Educação (MEC), menos da metade dos adolescentes com idade entre 15 e 17 anos estão matriculados no ensino médio no País, sendo que, no Sudeste, são pouco menos de 60% do total desta população e, no Nordeste, pouco mais de um terço. Ao contrário do que se imagina, não é a ausência de equipamentos escolares, ou a necessidade de os adolescentes trabalharem que produz esta baixa taxa de escolarização: a principal causa é a ausência de sentido da escola na vida destes jovens.

Esta ausência de sentido deve ser contextualizada em três aspectos que definiram a virada do milênio como o da constituição da chamada sociedade da informação. O primeiro deles é o desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação que, de um lado, facilitaram os processos de aprendizagem autônoma e a formação de comunidades de aprendizagem e de redes e, de outro, democratizaram o acesso à produção cultural, franqueando, até mesmo às populações jovens das periferias, a criação de filmes, fanzines, rádios, blogs, videorreportagens, entre várias outras possibilidades audiovisuais. É evidente que a escola não acompanhou este movimento, estagnando em sua estrutura de lousa, giz, carteiras enfileiradas, sinal, recreio etc.

O segundo aspecto marcante da virada do milênio é o esgotamento do paradigma disciplinar científico. A pesquisa de ponta, hoje, teve de ultrapassar as fronteiras disciplinares para buscar soluções aos problemas socioambientais criados pela busca incessante do progresso e, mais uma vez, a escola não acompanhou este movimento, mantendo seu currículo organizado pelas caixinhas disciplinares. Por fim, é preciso falar também das transformações no mundo do trabalho. O que aconteceu neste âmbito, nas últimas décadas, foi a desregulamentação das relações, a imprevisibilidade das carreiras e a multiplicidade dos caminhos profissionais possíveis. Novamente a escola ficou de fora do movimento.

O ensino médio, especialmente, viu-se numa encruzilhada de sentido que fica evidente quando observamos seu nome, médio, em relação à definição que lhe foi dada pela Lei de Diretrizes da Educação, a de etapa final da educação básica, e à expectativa social de que ele possibilite o início da vida adulta, seja via profissionalização, seja via ingresso na universidade. Esta encruzilhada, de certa forma, marca a própria fase da vida daqueles a quem se destina o ensino médio. O principal papel que a escola deveria desempenhar junto àqueles que estão deixando a adolescência é o de suporte para a construção de um projeto de vida.
Qualidade de ensino para todos

Quando se fala em falta de qualidade da escola brasileira, em geral, foca-se na educação pública. Mas é bom ressaltar que mesmo as escolas privadas, aquelas voltadas para as classes média e alta da sociedade, não têm, em geral, conseguido acompanhar as transformações sociais e ressignificar seu papel no sentido de apoiar seus estudantes na construção de projetos de vida. Talvez o maior desafio, tanto para as escolas privadas quanto para as estatais, seja colocar o estudante no centro do processo de aprendizagem, partindo dele e não mais de um currículo anterior e externo. Neste sentido, poderíamos dizer que as escolas privadas e estatais precisam tornar-se públicas, possibilitando o acesso a todos e organizando-se para que todos efetivamente participem desta comunidade de aprendizado.

A transformação necessária na escola para que ela se torne efetivamente pública passa pela flexibilidade e pela diluição das fronteiras disciplinares. As questões que os estudantes levantam e as visões de mundo que trazem para a escola não entram nas regras das disciplinas e são facilmente avaliadas como expressão de ignorância, ou crendice popular.

Da mesma forma, a classificação seriada, que tem por pressuposto a homogeneização das pessoas de mesma idade, é fator determinante do caráter excludente da escola atual. Ao contrário, na escola que tem o estudante no centro do processo, não se espera que pessoas da mesma idade sejam iguais em habilidades, interesses e talentos e não se aposta na homogeneidade para o progresso do aprendizado. A aposta se faz nos estímulos e desafios que a convivência com os diferentes possibilita. Com oportunidades para pesquisar o que é de seu interesse, cada estudante compartilha com os demais suas paixões e talentos. É na busca orientada por seus interesses e no exercício de seus talentos, que o estudante vai se tornando capaz de elaborar projetos que, aos poucos, vão conferindo forma e sentido a um projeto de vida.

Foi para superar as fronteiras disciplinares e a classificação seriada que, já há mais de uma década, a legislação brasileira propôs a organização escolar por projetos e ciclos, como fica claro em documentos como a LDB de 1996 e as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio lançadas dois anos depois. A grande distância que separa o que está na proposta legislativa e a realidade cotidiana das escolas é a própria cultura, algo que, para ser efetivamente transformado, depende da mobilização de gestores, educadores, estudantes, funcionários, pais e demais parceiros da comunidade.
O ingresso no mundo do trabalho

A mobilização da comunidade para a transformação da cultura escolar articula-se diretamente com a vinculação orgânica entre a escola, o mundo do trabalho e a prática social. Diante dos desafios socioambientais que vivemos, a escola deve tornar-se um espaço de aprendizado de como praticar a cooperação, a solidariedade e a igualdade de direitos na perspectiva de um empreendedorismo que seja capaz de melhorar a qualidade dos produtos, as condições de trabalho, as relações na cadeia produtiva, e a preservação e recuperação dos recursos naturais disponíveis. O aprendizado se estende às práticas de participação na política e na cultura da região, do país e do mundo. Para tanto, é preciso desenvolver as competências relativas à criatividade, ao exercício da curiosidade, à capacidade de pensar múltiplas alternativas para a solução de um problema, bem como à capacidade de trabalhar em equipe, à disposição para o risco, à comunicação e à busca permanente de conhecimento.

Esta vinculação orgânica entre a escola, o mundo do trabalho e a prática social depende, de um lado, da superação das séries e das disciplinas pelos ciclos e projetos. De outro lado, passa pela própria gestão da escola, com o compartilhamento das responsabilidades entre gestores, estudantes, educadores e funcionários, e a participação de todos nos processos decisórios. Cada um torna-se, neste sentido, responsável por si, mas também pelos demais e pelo bem comum. O aprendizado das competências para o mundo do trabalho e a prática social se dá com a experiência. Trata-se de grande variedade de práticas de mediação e tomadas de decisão, cuja vivência é indispensável para o desenvolvimento das responsabilidades necessárias à vida adulta.

Apesar de a legislação propor há mais de uma década o desenvolvimento das competências para o mundo do trabalho e a prática social, as escolhas do estudante permanecem extremamente limitadas, reduzidas quase sempre a cumprir, ou não, as tarefas que lhe são impostas. A evolução do aprendizado, promoções, ou repetências, e muitas outras decisões que afetam sua vida são tomadas por superiores, por razões que, em geral, ele desconhece. Quando a escola se torna um ambiente colaborativo de aprendizado, o jovem passa a ser membro de um coletivo, encarregado de tomar tais decisões, se responsabilizando por elas e sendo reconhecido em sua individualidade.
O educador como orientador de processos

Quando se fala da universalização da escola, é comum pensar em um currículo único para todo o País. Esta é a perspectiva que busca estender aos filhos dos trabalhadores o acesso à “cultura”. As transformações tecnológicas, que estão democratizando não só o acesso ao consumo dos produtos culturais mas também o acesso à produção cultural, exigem uma mudança neste posicionamento. Democratizar a escola passa a significar reconhecer, legitimar e partir das diversas culturas de seus estudantes, educadores e da comunidade onde está inserida. Com este ponto de partida, a escola precisa converter-se em um espaço de produção de conhecimento, que não reproduz, mas certamente dialoga com a cultura acadêmica.

Ao se democratizar, a escola não só transforma os papéis de estudantes e educadores como abre seus portões, abre-se para o mundo, trazendo pessoas da comunidade para desenvolver projetos, promovendo trilhas educativas pela cidade, intervenções no bairro, participação nas organizações comunitárias e parcerias com outras comunidades de aprendizagem. Dado que até 25% do currículo do ensino médio pode ser realizado fora da escola, esta pode estabelecer parcerias para oferecer aos estudantes, dentro ou fora de seu espaço, cursos voltados para assuntos que sejam de seu interesse. Quando a escola é democrática, o conhecimento produzido reflete o ambiente que o forjou. A escola pode, assim, constituir uma identidade própria, com base nas vocações do lugar em que está inserida. Com possibilidade de escolha, cada estudante constrói seu currículo com base nos estudos, projetos, cursos e atividades que realiza. Tudo isto já está previsto na legislação.

Para além da reestruturação curricular e administrativa da escola, possivelmente o aspecto mais importante para a garantia do seu caráter público é a atitude de acolhimento e respeito e a criação de vínculos entre equipe e estudantes.

Considerando que o objetivo maior do ensino médio é possibilitar aos estudantes o desenvolvimento das competências necessárias para o mundo do trabalho e a construção de um projeto de vida, o educador tem como principal tarefa acompanhar um processo de emancipação que vem da autoconfiança, do prazer do aprendizado, da motivação e do engajamento no próprio processo de conhecimento e na superação de desafios. Este processo começa com o acolhimento e continua com a descoberta dos talentos que irão possibilitar a realização de projetos de vida. Afinal, o aprendizado é permanente, começando no nascimento, e talvez por isso mesmo não faça muito sentido falar em educação básica, ensino médio, fim de etapa...
Sobre a autora

Helena Singer é socióloga, sócia fundadora do Instituto Politeia Educação Democrática e diretora pedagógica da Cidade Escola Aprendiz
Saindo da rotina

“Fiz o ensino médio numa escola em que a direção parecia limitar o trabalho dos professores e, em conseqüência, o aprendizado dos alunos. Não havia muito empenho para sair da rotina dos livros didáticos e a maioria das aulas era chata, dava sono. Também havia resistência a manifestações culturais dos alunos. Nesse ambiente, a exceção eram os professores de História. Menos conformados com a situação, eles inventavam projetos mais criativos e movimentados, apresentando filmes, documentários, realizando seminários com os alunos e também nos levando a exposições. Acho que essa experiência teve influência na hora do meu vestibular. Minha escolha foi História, e curso o primeiro ano no Centro Universitário Jorge Amado. E uma outra experiência, fora da escola, ajudou a definir um pouco mais o caminho. No fim do ensino médio, eu queria trabalhar e não conseguia emprego. Aí, me inscrevi no Projeto Juventude Cidadã para um curso de preparação para o primeiro emprego, que incluía aulas de cidadania e direitos, uma oficina de plano de vida e carreira e um período de trabalho voluntário. Nesse atividade, eu dei aulas sobre os cuidados com o meio ambiente para crianças de escolas municipais. Foi aí que decidi fazer História para trabalhar com educação.”
Valesca Amaral dos Anjos Silva, 18 anos, participou do Projeto Juventude Cidadã, da Fundação Luis Eduardo Magalhães (www.flem.org.br; flem@flem.org.br) em Salvador (BA)