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Atraso nos planos

O abandono da educação embaralha projetos e atrasa o desenvolvimento dos jovens

25/08/2011

25/08/2011

Equipe Onda Jovem

Cássio e Lenilaisa estão de casamento marcado e ela, já grávida, deve dar a luz em novembro. Eles acreditam que daqui a alguns anos ele estará trabalhando como arquiteto e ela, formada em psicologia, fazendo o que mais gosta: dando aula para crianças. Enquanto isso não acontece, Cássio Gomes Santana, de 19 anos, e Lenilaisa Cordeiro dos Santos, de 25, tentam tirar o atraso cursando o último segmento do ensino médio pelo EJA (Educação para Jovens e Adultos), em escola pública de Brasília.

Não foi fácil para eles retomar seus planos de vida e tentar seguir o caminho de seus sonhos. Cássio conta que no curso fundamental era um aluno aplicado. Mas quando ingressou no primeiro ano do ensino médio, as aulas ficaram em segundo plano. Seduzido pelo ambiente dos novos colegas, envolveu-se com uma turma de alunos “que só queriam fazer brincadeiras”, como ele define. Para eles, a escola era uma chatice. Resultado: tomou pau. Decidiu deixar a escola e buscar um emprego. Como não tinha formação, não pôde escolher muito. Enfim, empregou-se como servente de faxina.

“Foi nesse momento que percebi o quanto era importante ter concluído o ensino médio. É o mínimo para se conseguir trabalho mais qualificado, com salários melhores”, diz ele.
De volta para o futuro

Mas voltar à escola regular já estava fora das possibilidades. Matriculou-se no EJA da própria escola em que fizera o ensino convencional. Cássio diz que, ao voltar à escola, reassumiu o controle da sua vida e passou a sonhar alto. “Descobri que na arquitetura a gente pode fazer um trabalho criativo e é um sonho eu conseguir me formar nessa área”.

Lenilaisa também se orgulha de ter enfrentado todas as dificuldades e poder concluir o ensino médio em breve. Desde criança ela sonhava ser cabeleireira e, na adolescência, fez cursos para começar a trabalhar num salão. Logo arrumou um emprego, mas, na escola, ia mal, com reprovações frequentes. “Eu achava que tinha dificuldade de aprender”, diz ela.

Quando entrou no ensino médio, já tinha 20 anos e mesmo assim não conseguiu passar do primeiro ano. Apesar das dificuldades, persistiu: entrou no EJA e, atualmente, cursa apenas matemática, a única matéria que falta para se formar. Mas nesse espaço de tempo, tudo mudou. Graças a uma oportunidade que teve para trabalhar como monitora numa escola para crianças, ela descobriu competências que ignorava e desenvolveu novos planos. “Descobri que eu tenho o dom de lidar com os pequenos. E que também adoro brincar com eles e educá-los”. Também percebeu que, para realizar seu novo sonho, precisa completar seus estudos e fazer faculdade. E não se acha mais incapaz de aprender. Ao contrário, quer aprender, e muito. “Quero ser psicóloga e pedagoga. Agora ficou tudo claro. Não quero mais ser cabeleireira. E sem estudar, não dá, né?”, diz ela.

Tanto Cássio como Lenilaisa lamentam não ter tido, mais cedo, orientação e apoio da escola para discutir o futuro e fazer planos que os estimulassem a continuar estudando sem interrupções. “Teria sido muito bom se eu já soubesse o que eu queria. Acho que não teria perdido tanto tempo repetindo ano e fazendo outras coisas. Mas não importa mais. Agora já tenho meu caminho. E quando eu quero uma coisa, vou até o fim”, diz Lenilaisa.