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O todo e as partes

O cérebro juvenil apresenta uma flexibilidade que multiplica seus interesses e forma seu modo de apreender o mundo

25/08/2011

25/08/2011

Frances Jones

Flexibilidade, criatividade e sensorialidade. Essas características marcantes dos cérebros de adolescentes e jovens deveriam ser exploradas por todos os professores e profissionais que trabalham especificamente com essa faixa etária, segundo o neuropediatra Mauro Muszkat, coordenador do Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil Interdisciplinar (Nani), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Quem lida com jovens deveria colocar as informações de forma mais múltipla, aproximando-se bastante de suas motivações”, afirma ele.

A colocação coincide com uma perspectiva mais orgânica, na educação juvenil, da interdisciplinaridade, pela qual se busca a superação das limitações decorrentes da visão fragmentada e estanque de quando se privilegia a divisão de disciplinas mais tradicional.
“As formas de dialogar devem ser mais próximas de como o jovem percebe o mundo; atitudes mais professorais não funcionam”, diz Muszkat.

Do mesmo modo que o amadurecimento cerebral da criança determina estratégias específicas da educação infantil, a percepção do nível cognitivo dos jovens auxilia a compreensão de seu processo de aprendizagem.

Ainda há muito que compreender sobre o desenvolvimento cerebral, que certamente não é linear, mas se sabe que o refinamento das estruturas e funções cerebrais ocorre seguindo a direção da parte posterior do cérebro – em geral associada ao processamento sensorial – para a parte anterior, ligada ao planejamento executivo. À medida que o cérebro amadurece, há um desenvolvimento maior das áreas simbólicas e o processamento de informações mais complexas.

“O jovem precisa de muita acomodação entre o que vê no concreto e a sua imaginação”, explica Muszkat. “Quando o jovem sai do mundo só da experiência e vai para o das idéias, fica entre dois mundos.” Do ponto de vista biológico, diz ele, o pensamento mais conceitual passa a ser o dominante. Além disso, ele sai do mundo das emoções primárias para chegar ao dos sentimentos. É uma fase na qual é muito comum se transitar entre dois polos – o da hiperatividade e o da apatia.
Detalhamento e abrangência

Segundo o neuropediatra, o cérebro sempre lida com duas possibilidades principais na forma de processar as informações: a partir das sensações, ou a partir do pensamento abstrato. “A criança primeiro processa o mundo no todo e reage mais sensorialmente”, diz. Conforme o cérebro se desenvolve, ele também vai se especializando. Os hemisférios cerebrais ficam com funções cada vez mais definidas. Enquanto o hemisfério esquerdo está relacionado à linguagem, o hemisfério direito é associado à comunicação não-verbal.
“O hemisfério esquerdo é mais do detalhe, analítico, vê as informações como numa ligação elétrica em série, enquanto o hemisfério direito é holístico, guestáltico, mais abrangente, como numa ligação em paralelo”, exemplifica o neurologista e psicanalista Deusvenir de Souza Carvalho, professor da Unifesp.
A especialização traz vantagens ao planejamento executivo, mas pode ter consequências na perspectiva mais geral. Para equilibrar as duas perspectivas, o estímulo às artes mostra-se como uma boa opção no trabalho com jovens.

Durante o período em que o córtex pré-frontal ainda está amadurecendo, o processamento das informações emocionais depende muito da amígdala, estrutura cerebral com forma de amêndoa que faz parte do “centro de recompensa” do cérebro e está associada à impulsividade, aos comportamentos compulsivos e sentimentos de medo e raiva.

Segundo Carvalho, a amígdala amadurece rapidamente nessa época e é responsável por soltar os ‘freios’ comportamentais. “Quem vai segurar são as áreas anteriores do cérebro, que amadurecem mais devagar”, acrescenta. “Com isso, cada emoção que o jovem tem, ele põe em prática. O amadurecimento é a defasagem entre as áreas que vão deixar as emoções se manifestarem mais e as que freiam isso.”

É interessante notar, aponta Muszkat, que o caminho feito pelo cérebro, da perspectiva mais geral para o particular, normalmente é percorrido de volta na velhice, na direção contrária, quando se passa novamente do particular para uma visão mais geral.
Longo amadurecimento

A educação pode se valer muito do conhecimento mais aprofundado a respeito do desenvolvimento do cérebro, que fornece muitas pistas sobre o comportamento de adolescentes e jovens. Até não muito tempo atrás, pensava-se que o cérebro de uma pessoa já estivesse praticamente formado na infância, em especial até os três anos. Os avanços científicos dos últimos anos, no entanto, permitiram a realização de pesquisas mostrando que não é bem assim. Apesar de, aos seis anos, o cérebro já ter entre 90% e 95% do tamanho que atingirá na idade adulta, e já nascermos com a maior parte dos neurônios de que disporemos ao longo da vida, grandes e importantes transformações acontecem até a adolescência – e mesmo depois.

Munidos com informações provenientes de imagens por ressonância magnética funcional, os cientistas foram capazes de perceber que o amadurecimento de algumas regiões cerebrais, em especial nas regiões frontais e pré-frontais, não acontece antes dos 25 anos, às vezes até dos 30 anos. Essas são justamente as regiões associadas ao planejamento executivo, à organização e ao controle inibitório. “Os comportamentos passam por uma interface biológica”, diz Muszkat.

O maior período de produção de neurônios ocorre ainda no útero, entre o terceiro e o sexto mês de gestação. Depois, nos meses anteriores ao nascimento, o cérebro passa por um processo de remodelamento, no qual neurônios excedentes e desnecessários são desativados. Mais recentemente, os cientistas descobriram uma segunda onda de transformação cerebral. Ela ocorre no final da infância, quando há uma grande proliferação de conexões nervosas entre os neurônios, as sinapses. Os neurônios ficam mais espessos, com novas ramificações, criando novas vias para os impulsos nervosos.
O aprendizado ocorre nas sinapses entre os neurônios, à medida que as células excitam ou inibem umas às outras e desenvolvem sinapses mais robustas com a repetição do estímulo. A excitação celular permite que crianças e adolescentes aprendam, por exemplo, idiomas e instrumentos musicais com maior facilidade que os adultos.

Igualmente importante é o processo de desativação das sinapses desnecessárias, a chamada poda sináptica – e, nessa segunda onda de transformação, isso acontece até o final da adolescência. As pesquisas indicam que determinadas conexões são fortalecidas, ou descartadas, conforme o uso e a necessidade. As conexões são fortalecidas quando a parte mais comprida dos neurônios (axônios) é envolta por um material composto por proteína e gordura, a bainha de mielina. “É como se fosse uma capa de plástico envolvendo um fio de metal”, explica Carvalho. “Sem ela, o impulso nervoso não segue um caminho único.”
Diálogo

Somando-se a essas transformações, há uma verdadeira “invasão hormonal” vivida pelos jovens, quando os hormônios pautam o ritmo do desenvolvimento e das grandes mudanças verificadas no corpo dos jovens. Uma forma de atenuar as instabilidades da adolescência é a prática de atividade física, que favorece a produção de neurotransmissores (como dopamina, serotonina e endorfina). “Esses atuam na área de recompensa do cérebro, melhorando a própria cognição”, afirma Muszkat.

Para ele, outra maneira de educadores facilitarem o desenvolvimento mais harmônico dos jovens seria relacionar o máximo possível as experiências a juízos de valor. Carvalho, seu colega na Unifesp, ressalta que o importante ao se trabalhar com essa faixa etária é não “fechar questão” e manter o diálogo aberto. “O conflito ocorre porque o adolescente tem a emoção que se exterioriza como comportamento, e o adulto tenta brecar isso.”