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“Eu deveria estar quase terminando a faculdade”, lamenta Ricardo Ferreira do Nascimento, 21 anos, aluno do 3º ano do ensino médio de uma escola estadual em Pau Miúdo, bairro popular de Salvador. O rapaz faz parte do grande número de adolescentes brasileiros que amadureceu nos bancos escolares. Segundo dados do Ministério da Educação de 2007, 42,6% dos estudantes brasileiros do ensino médio estão na condição que os especialistas chamam de defasagem idade-série, ou seja, estão atrasados na escola. Há, ainda, um número significativo – 9,4% – que abandona a escola já na 8ª série.
O rapaz teve de deixar a escola várias vezes para ajudar no sustento dos irmãos e da mãe. “Passava o dia perambulado pelas ruas da cidade, nos ônibus, vendendo balas, cartões telefônicos, verduras. Quando chegava à escola, já não tinha forças para estudar”, conta Ricardo. E a escola também não ajudava, com seu excesso de aulas teóricas enfadonhas. A interdisciplinaridade tendia a zero. “Quando perguntava alguma coisa que me interessava, às vezes o professor reclamava que aquilo era da outra matéria”, conta. |
Volta por cima
Apesar de fazer parte das estatísticas negativas da educação, Ricardo é um vitorioso. Consciente de que deveria redobrar os esforços para aprender, o rapaz começou a ler tudo o que lhe caísse nas mãos. Ele se orgulha de ler uma média de um livro por semana, sempre emprestado por alguém.
Foi observando tudo o que via ao redor e aprendendo nos livros que Ricardo se conscientizou da necessidade dos estudos. Depois de mais um ano longe dos bancos escolares, ele finalmente conseguiu voltar à escola. Ao mesmo tempo, passou a frequentar aulas de reforço e fez alguns cursos gratuitos, já de olho no mercado de trabalho.
Graças ao seu empenho, o estudante se integrou ao programa Menor Aprendiz. Ganha uma bolsa para trabalhar como auxiliar de escritório por meio período e pode se dedicar aos estudos no resto do dia. Seu sonho é chegar à faculdade. Sobre a escola, Ricardo sabe exatamente o que mudar para que outros jovens, iguais a ele, não se afastem dela: “Nem sempre os professores ajudam. Tem aqueles muito autoritários, que não admitem questionamentos. Há também aqueles que são professores de verdade, que conversam com você. Mas o que eu acho que falta mesmo é falar de assuntos que têm a ver conosco. Até hoje, tive só umas duas aulas em que a gente pôde falar de drogas, de sexo e outras coisas que fazem parte da nossa vida”. |
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