A natureza da educação
A fragmentação disciplinar é circunstancial, pois educar remete sempre a um sentido de totalidade
25/08/2011
| A educação, fenômeno mais abrangente do que ensino e aprendizagem, escola e formação profissional, é por natureza multi e interdisciplinar. Toda formação que envolve conhecimentos, habilidades, competências, valores, condutas, ideias, crenças requer a cooperação e a integração de disciplinas e de práticas escolares. O conceito de educação remete a um sentido de totalidade e, nessa perspectiva, vai além da setorização dos conhecimentos e das ações pedagógicas. Por isso, examinar as relações entre educação e interdisciplinaridade não é nada mais do que explicitar as modalidades de inter-relação que, nos processos educativos e pedagógicos, ocorrem entre as disciplinas e as práticas escolares. A interdisciplinaridade na pesquisa é natural, pois o cientista resolve um problema científico buscando os conhecimentos e os métodos adequados onde quer que estejam. Já no ensino, a interdisciplinaridade depende da atitude cognitiva do professor e do aluno com a realidade. Mas o verdadeiro ensino é interdisciplinar. Olga Pombo afirma que a interdisciplinaridade é algo que necessariamente fazemos, ou devemos fazer, e, portanto, não depende apenas de um projeto voluntarista (2004, p. 20). Não se age interdisciplinarmente só por decisão, mas por necessidade que surge do processo educacional. Não fazemos interdisciplinaridade apenas porque usamos o termo, mas porque agimos conforme os padrões que a educação atual exige. A noção de interdisciplinaridade é recente. Não é um conceito claro, distinto e, por isso, consolidado. Ela nasce como um fenômeno constatado por diversos autores, filósofos e cientistas, a partir da segunda metade do século 20. Nos últimos sessenta anos, realizaram-se congressos e seminários, foram escritos livros e artigos, e também foram realizadas experiências interdisciplinares em diversas partes do mundo, em todos os níveis de ensino: do ensino fundamental até universidades (PAVIANI, 2008). Entretanto ainda não temos um conceito de interdisciplinaridade acessível e aceito universalmente pela comunidade científica e educacional, sem objeções e críticas. A interdisciplinaridade é apontada, às vezes, apenas como um sintoma escolar das deficiências da educação. O uso polêmico do conceito, todavia, não impede que se reflita sobre a questão para a qual ele aponta. |
| Nomes e conceitos A questão fundamental da interdisciplinaridade está na compreensão do conceito de disciplinaridade. O simples uso de prefixos como pluri ou multi, inter, intra e trans não esclarece o problema da fragmentação do conhecimento e do surgimento de novas disciplinas. As disciplinas são arranjos pedagógicos e científicos que resultam da sistematização de conhecimentos, às vezes, fundada em critérios epistemológicos, outras vezes, em critérios político-administrativos das instituições de ensino e, ainda, em outras ocasiões, em critérios de política econômica. Portanto, tendo como base a validade desses pressupostos, a interdisciplinaridade não tem o objetivo de dissolver as disciplinas, ao contrário, quer valorizá-las no exato sentido de que os limites entre elas são flexíveis e variam com o desenvolvimento do conhecimento e da educação. Uma disciplina completa a outra, é apenas uma parte de um todo e, por isso, uma requer a integração na outra, a cooperação entre os professores. Língua portuguesa, por exemplo, é assunto do professor de português, mas também de todos os outros, pois o fenômeno da linguagem é comum e universal à vida e aos conhecimentos. O mesmo se pode afirmar da matemática, ou de qualquer outra disciplina. As disciplinas desenvolvem-se com base na troca de conceitos, de teorias e métodos entre elas. Para entender o conceito e a ação interdisciplinar, é necessário conhecer a história da formação das disciplinas, desde o ensino na Academia de Platão e no Liceu de Aristóteles até o fantástico número de disciplinas existentes numa grande universidade hoje. A fragmentação do conhecimento em disciplinas é, ao mesmo tempo, uma necessidade natural e também um problema político-administrativo ligado aos interesses corporativistas. Portanto a autonomia das disciplinas é relativa às necessidades da educação do cidadão e do profissional. Sem clareza sobre o estado da ciência hoje, do desenvolvimento tecnológico e das novas possibilidades pedagógicas decorrentes da situação atual, é difícil perceber que ações interdisciplinares podem ser praticadas. Em vista disso, o agir e o fazer interdisciplinar exigem o atendimento de requisitos. Entre eles, podem-se mencionar as transformações nos modos a) de produzir ciência; b) de perceber a realidade social e histórica; c) de proceder nas relações político-administrativas das instituições escolares e científicas; d) de entender a clara exigência de se desfazerem a rigidez, a artificialidade e a falsa autonomia das disciplinas; e) de cooperação e de boa vontade dos professores para trabalhar em conjunto. Finalmente, é preciso registrar que o agir e o fazer interdisciplinares são múltiplos, pois existem modalidades diferentes de praticá-los. A prática da interdisciplinaridade no ensino fundamental e no ensino médio não pode ser a mesma dos cursos de graduação e de pós-graduação, apesar da existência de processos comuns. Em cada caso, torna-se necessário considerar as variáveis próprias de cada situação. E, igualmente, o grau de criatividade que ela exige e suporta. |
| Padrão contemporâneo Entre os problemas educacionais, merece uma atenção especial o da aprendizagem. Basta observar e analisar a literatura recente sobre o assunto para perceber que as contribuições para descrever e explicar o fenômeno da aprendizagem partem de diversas áreas do conhecimento. A aprendizagem é, ao mesmo tempo, um problema filosófico, psicológico, sociológico, biológico e histórico. Todos os pesquisadores podem contribuir para esclarecer os processos de aprendizagem, pois a produção do conhecimento não se faz de modos isolados. Tudo está interligado. A especialização exige transversalidade. Não é mais possível que as decisões e as ações pedagógicas se realizem isoladamente, cada um com seus alunos, em sua hora e local definidos, sem saber o que acontece com os outros. A interdisciplinaridade é o padrão dos projetos educativos atuais. Isso requer o entrecruzamento, bem entendido, das disciplinas escolares. Exige, igualmente, significados amplos e relevantes para os conteúdos disciplinares, pois, só expandindo a validade do “conteúdo” e da informação, é possível produzir o conhecimento desejado, a competência requerida. Aliás o verdadeiro procedimento interdisciplinar não separa conhecimentos de habilidades e de competências. Saber, por exemplo, distinguir, definir, classificar algo, identificar variáveis, analisar situações-problema, sintetizar, julgar e abstrair conceitos, construir argumentos, solucionar problemas, elaborar propostas etc. requer ao mesmo tempo domínio cognitivo, habilidades e competências. Para completar, é possível sublinhar que o conceito de interdisciplinaridade exige um permanente esforço crítico e de colaboração. Não existem fórmulas nem modelos de interdisciplinaridade que podem ser repetidos de modo automático. Projetos e definições que exprimem meras intenções e desejos não são suficientes para um trabalho com resultados. As atividades interdisciplinares não se limitam a estabelecer arranjos e justaposições externas ao processo de aprendizagem. Ao contrário, exigem procedimentos detalhados e coerentes, próprios da lógica interna do ensinar e do aprender. |
| Referências: • FAZENDA, I. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. São Paulo: Papirus, 2002. • PAVIANI, J. Interdisciplinaridade: conceitos e distinções. Caxias do Sul: EDUCS, 2008. • POMBO, O. A interdisciplinaridade: ambições e limites. Lisboa: Relógio D´Água Editores, 2004. |
| Sobre o autor Jaime Paviani é professor e coordenador do Programa de Pós-graduação em Educação, Mestrado, da Universidade de Caxias do Sul. É autor dos seguintes livros, entre outros, Problemas de Filosofia da Educação e Interdisciplinaridade: conceitos e distinções |
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Depoimento “A interdisciplinaridade sempre esteve muito presente na minha formação, pois cursei o ensino médio integrado ao curso técnico de edificações, no Cefet Minas Gerais. Então a proposta já era relacionar áreas de conhecimento. E isso acontecia na sala de aula e também nos eventos extras como a Semana Cultural, que integrava assuntos de português, história e geografia, por exemplo, e na Semana Nacional da Ciência e Tecnologia que a escola adotou, integrando disciplinas de exatas. Na própria pesquisa com a qual venci o Prêmio Jovem Cientista 2007, eu usei essa prática, utilizando conhecimentos da biologia, da microbiologia, da história, da área de edificações, além de informações da comunidade em que o projeto foi aplicado e conhecimentos da minha experiência pessoal. O projeto, desenvolvido com uma colega, foi a construção de um concentrador solar, feito de garrafas pet e outros materiais recicláveis, para a desinfecção da água. Pesquisamos as condições sanitárias e de escolaridade de uma comunidade próxima de um rio. O produto final, além do concentrador, foi uma cartilha educativa sobre os riscos de um rio poluído, os cuidados sanitários e um passo-a-passo para a construção do aparelho. O prêmio, um computador com impressora, é ótimo porque a interdisciplinaridade tem na Internet uma grande ferramenta que abre todas as portas para relacionar e integrar conhecimentos. Júlia Soares Parreiras, 19 anos, estudante de psicologia na UFMG, conquistou o 1º lugar na categoria Ensino Médio da última edição do Prêmio Jovem Cientista, como aluna do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais |
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