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Medindo efetividade

Evasão por diferentes motivações e baixo índice de inserção produtiva são desafios para quem formula programas e projetos voltados para a entrada do jovem no mundo do trabalho

26/08/2011

26/08/2011

Regina Novaes

Qual é o papel das avaliações para a efetividade dos programas e projetos voltados para a juventude, na área de trabalho? Não há respostas fáceis para esta pergunta. Olhando para nossa realidade, destaca-se um grande contingente de jovens com baixa escolaridade e com dificuldades de inserção no mundo do trabalho. Por outro lado, as avaliações sobre projetos e programas (públicos ou privados) de qualificação e inserção ocupacional, voltados para a juventude, chegam a um lastimável veredicto: alta evasão e baixo índice de inserção ao fim dos cursos. Trata-se de um beco sem saída? Ou seriam outros os parâmetros de avaliação se, antes de tudo, olhássemos para os “jovens dos projetos” como parte da juventude contemporânea, submetida às contradições da vida social e do mundo do trabalho no século 21?
Condição juvenil

Vivemos em um tempo em que a rapidez das transformações tecnológicas e a produção econômica globalizada afetam diretamente o mercado de trabalho. A cada dia, é menor a dependência da mão-de-obra, enterram-se velhas profissões e nascem novas ocupações. Amplia-se o acesso à educação formal, mas cresce também o número daqueles que ocupam postos de trabalho que não correspondem ao nível educacional atingido.

De maneira geral, os estudiosos afirmam que o contexto atual está marcado pelo aumento dos patamares de desemprego, pela ampliação do tempo de procura por trabalho e pela recorrência da desocupação. Neste cenário – para significativa parte da população –, prevalece um contínuo sentimento de instabilidade. O que dizer da juventude brasileira? Se várias entradas e saídas da escola são mais comuns na trajetória dos jovens mais pobres, as entradas e saídas do chamado mundo do trabalho estão se tornando freqüentes para jovens de diferentes classes sociais. Estes movimentos afetam a seqüência e a previsibilidade de eventos que caracterizavam o modelo de transição para a vida adulta: fim da formação escolar, obtenção da ocupação, casamento e formação de uma nova família. Hoje existem novas modalidades de transição para a vida adulta, diversificando as trajetórias juvenis.

Certamente o “modelo” acima, com sua seqüência linear, nunca funcionou para todas as juventudes. Para jovens das classes populares, o período da infância sempre foi encurtado, e a idade adulta antecipada pela entrada precoce no mercado de trabalho. A “novidade” seria os jovens que não estudam, mas também não trabalham. Para esta juventude, está voltada a maioria dos programas. Aqueles que buscam atuar em larga escala lançam mão de estatísticas para caracterizar este “público-alvo”, facilmente encontrado na área rural e em bairros pobres de nossas cidades.

No entanto tal diagnóstico homogeneíza situações heterogêneas. Jovens que pararam de estudar e não conseguem estabelecer vínculos ocupacionais estáveis, embora com pouca idade, já conhecem os caprichos do mercado de trabalho. Observando seus pais, seu bairro, seus colegas, eles sabem, na prática, o que é desemprego. Ao chegar aos programas e projetos, já viveram diferentes experiências de exclusão e já sofreram preconceitos, seja pelo estigma negativo do lugar onde moram, seja pela sua aparência, que não é vista como adequada ao trabalho que é oferecido nos shopping centers e no setor de serviços em geral.

Enfim, as estatísticas dos “jovens que não estudam e não trabalham” se transformaram em um importante alerta para que a sociedade olhe para uma parcela significativa e socialmente vulnerável de sua juventude. Mas, tratando-se de um retrato estático, tal caracterização não dá conta do contexto mais geral de mudanças nas relações de trabalho; não ajuda a compreender as especificidades da atual “condição juvenil” e, o mais importante, contribui para esconder experiências diferenciadas de múltiplas entradas e saídas do chamado “mundo do trabalho”.
Sentidos para a evasão

No âmbito das iniciativas voltadas para a inserção produtiva de jovens, há um tópico obrigatório: “avaliar a evasão”. Contudo, normalmente, pouco se discute este conceito.

De maneira geral, se lança mão da equação utilizada pelo sistema formal de ensino: quantos se matricularam e quantos chegaram até o fim. No âmbito do sistema escolar, há um pressuposto básico: a uma grande massa de jovens de idade similar, independentemente de sua origem social, está se oferecendo uma universalizada escolarização obrigatória. Seria o mesmo no caso dos programas e projetos sociais voltados para a inserção de jovens no mundo do trabalho? Ou o reconhecimento de que estamos convivendo com distintas modalidades de transição para a vida adulta exige que se descreva melhor a realidade e se chegue a caracterizar também distintas modalidades de evasão?

De fato, as indagações são várias: como distinguir a evasão por desinteresse do participante daquela que pode ser atribuída às falhas de implementação; ou daquela que obedece a opção pessoal ou familiar por uma oportunidade de trabalho que surgiu inesperadamente; ou, ainda, daquela que foi imposta por mudança de endereço (por questões econômicas, de segurança ou afetivas)? A “evasão” teria o mesmo significado para um jovem de 18 anos que nunca trabalhou e para um jovem de 24 anos com várias experiências de trabalho?

Como tratar de “evasão”, considerando que este segmento da juventude experimenta inúmeras situações de violência relacionadas ao tráfico de drogas, uso de armas de fogo e falta de preparo das polícias para lidar com a juventude? Envolvimentos pessoais, relações de amizade e parentesco com pessoas envolvidas com o tráfico de drogas ilícitas; mortes prematuras e violentas de pares (irmãos, parentes e amigos) fazem parte da história de vida destes jovens. Além de uma possível resistência em deixar para trás tais “fontes de renda” (ilícitas, mas concretas), há também redes de relações anteriores que envolvem sentimentos contraditórios de afeto e medo.

Estas e muitas outras indagações estão a exigir muita reflexão e outras propostas mais criativas e adequadas para classificar e “medir evasão”. O que estou propondo é uma reflexão prévia e continuada sobre motivos e motivações da permanência e da desistência dos e das jovens que participam dos programas e projetos, pois a partir daí se poderá melhor qualificar o debate e estabelecer modalidades de evasão.
Resultados e impactos

Avaliar é comparar dados de desempenho com objetivos e metas traduzidas em indicadores de eficiência, eficácia e efetividade. Na literatura disponível, consta que a eficiência se refere aos recursos mobilizados na implementação. Sua principal finalidade é evitar a dispersão de recursos financeiros e a prática de gastos desnecessários. Na avaliação de eficácia, a questão central é saber se os atores estão fazendo as coisas certas, nos momentos certos e obtendo resultados parciais suficientes para a consecução dos resultados finais esperados. E, finalmente, a avaliação da efetividade apenas se pode realizar na conclusão de um programa ou projeto. No que diz respeito à inserção produtiva juvenil, não é simples avaliar a efetividade. Duas dimensões expressam tal dificuldade.

A primeira dimensão refere-se às distinções entre as trajetórias juvenis. Diferenciações preexistentes entre os jovens farão diferença no momento de sua inserção no mundo do trabalho. Aqui os indicadores não podem se restringir a nível socioeconômico, grau de escolaridade, relações formais no mercado de trabalho. É preciso considerar outros que revelem marcas sociais produtoras de preconceito e discriminação (de gênero, étnico-racial, de orientação sexual, de deficiências físicas). Assim como levar em conta pertencimentos (a redes comunitárias, a grupos de adesão ou produção cultural; a igrejas ou grupos religiosos), que podem ser tanto obstáculos quanto facilitadores de inserção ocupacional. Uma bem dosada articulação entre todos estes aspectos é fundamental para medir a potencialidade de um programa de inserção de jovens no mercado de trabalho.

Muitas vezes, também é preciso apreender o grau de desconfiança em relação a programas e ações – sobretudo governamentais –, com suas grandes distâncias entre o que é prometido e o que é realizado. Enfim, não se pode esperar que, como em um passe de mágica, jovens voltem a confiar em si, nas organizações sociais, nos governos.

A segunda dimensão considera as conjunturas e vários fatores externos. O aumento da “empregabilidade” dos jovens de um programa específico estaria relacionado a resultados de uma política macroeconômica, ou a qualquer outro fator intangível não relacionado diretamente ao programa em questão? Ou seu sucesso deve-se ao crescimento da oferta local de empregos, naquele setor ou comunidade? Tal ocupação foi eventual, ou será sustentável? Ou o impacto de determinados projetos deveria ser procurado em outros espaços para onde (sazonalmente, ou de maneira permanente) migraram os jovens?

Estas duas dimensões revelam por que nem sempre é possível estabelecer uma relação de causação direta entre o projeto e os impactos encontrados ou medidos. O que se espera é que a avaliação construa hipóteses pertinentes a cada projeto.
Reflexão

No momento atual, formuladores de programas e projetos estão desafiados a encontrar caminhos para livrar-se de um tipo de onipotência que desconsidera os obstáculos presentes na realidade, sem se entregar aos sentimentos de impotência que imobilizam e embotam a criatividade. Como ponto de partida, é preciso acreditar no potencial destes jovens tão desacreditados.

Por isto mesmo, nas avaliações, de modo geral, é importante buscar relatos dos próprios jovens tanto sobre os motivos e as motivações para entradas e saídas da escola e do mundo do trabalho, quanto sobre os diferentes efeitos dos programas e projetos em suas vidas. Cabe à avaliação: cotejar a opinião de quem está avaliando com a opinião dos jovens e com a visão dos educadores e gestores; levantar e sistematizar múltiplas visões latentes sobre o contexto do projeto. A reflexão compartilhada resulta em aperfeiçoamentos do que está sendo feito e ajuda a construir melhores parâmetros para a avaliação.

Em resumo, programas e projetos voltados para a inserção produtiva podem produzir impactos de várias naturezas. Por isto mesmo, sua efetividade não pode ser medida apenas pela imediata “empregabilidade”. Considerando as características da sociedade contemporânea, é preciso apreender outros efeitos que implicam mudanças na vida dos participantes. Quantos voltaram a estudar depois de participar de um programa ou projeto? Quantos e quais jovens puderam (ou poderão) traduzir o aprendizado para formas de trabalho autônomo, ou em grupos de economia solidária? Que outras mudanças na sociabilidade juvenil podem ser creditadas à experiência vivenciada em um programa ou projeto? Os tempos atuais exigem que as avaliações acompanhem os jovens, por um tempo, após o término dos programas. Só assim poderemos dizer se um programa ou projeto valeu a pena, ou se não deu certo. A avaliação final deve responder a uma pergunta mais geral: até que ponto tais iniciativas contribuíram para ampliar o campo das escolhas e possibilidades desta parcela de jovens brasileiros?

Finalmente, ao produzir conhecimento e reflexões inéditas, as avaliações podem jogar um papel ativo para o nascimento de novas percepções em torno da juventude, provocando questionamentos e modulações nas imagens dominantes sobre os sujeitos jovens. Neste sentido, as avaliações sobre os programas e projetos voltados para a inserção produtiva juvenil também podem ser construtoras da realidade social desta geração.
Sobre a autora

Regina Novaes é doutora em antropologia e professora de pós-graduação de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi secretária nacional-adjunta de Juventude e presidente do Conselho Nacional de Juventude de 2005 a 2007. É pesquisadora do CNPq e consultora do Instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas (IBASE)
 
   

Depoimento

“A gente precisa trabalhar, mas quando começa a procurar emprego, percebe que em geral as empresas exigem que já se tenha concluído o ensino médio. É um primeiro ‘funil’. Aí vem o segundo: as empresas querem que você já tenha experiência profissional. Fica difícil. Por isso, quando um amigo me deu a dica da Fundação Mudes (Movimento Universitário de Desenvolvimento Econômico e Social), instituição com vários programas, entre eles os de recrutar e colocar em empresas estagiários, trainees e aprendizes, eu me inscrevi para um estágio e fui selecionada para um trabalho de recepção na própria Fundação. Agora, no estágio, também ajudo no cadastramento de estudantes e dou informações sobre os programas. Quando sair, em dezembro, estarei concluindo também o ensino médio na escola pública e, assim, com os requisitos mais básicos exigidos no mercado de trabalho: a formação escolar e a experiência profissional. Terei dado um bom salto e aprendi muita coisa, a começar pela postura profissional, que é uma coisa que você tem noção, mas que é importante colocar em prática: o modo de falar, sentar, se comportar, a roupa adequada no ambiente de trabalho etc. Acho que o estágio também ampliou minhas escolhas para a carreira. No vestibular, vou tentar também a área de recursos humanos, além de Marketing e Publicidade.”
Juliane do Nascimento Germano, 18 anos, estudante do 3º ano do ensino médio e estagiária na Fundação Mudes (www.mudes.org.br)