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Carteira assinada

Os jovens ocupam 90% dos postos de trabalho formal abertos nos últimos anos. Mas o desemprego juvenil ainda é elevado e sofre impacto da escolaridade

26/08/2011

26/08/2011

Yuri Vasconcelos

 
Terça-feira, 17 de abril de 2007. Esta data vai ficar marcada para sempre na vida do jovem potiguar Patrick Swaysy Albuquerque de Almeida. Foi este o seu primeiro dia de trabalho. Conseguir um emprego com carteira assinada, numa grande rede de lojas de departamento de São Paulo, e com todos os benefícios garantidos por lei era um antigo sonho do rapaz, que desde os doze anos vive em São Paulo e atualmente mora com a mãe, num apartamento popular de 49 metros quadrados em Jandira, município vizinho à capital paulista. “Foi muito difícil conseguir esse emprego. Queria muito trabalhar para poder oferecer uma vida melhor para minha mãe e conquistar os meus objetivos”, diz o rapaz, que tem uma dura rotina, dividida entre o trabalho e o primeiro ano do curso de Administração em uma faculdade particular de São Paulo. “Acordo todo dia às 5 horas da manhã para ir pra faculdade. Entro no trabalho às 2 da tarde e volto pra casa de madrugada. É muito cansativo, mas vale a pena. Pra você conseguir alguma coisa na vida, é preciso sacrifício. E esse é o meu sacrifício”, afirma.

Patrick tem 19 anos e recebe um salário de 600 reais. Ele faz parte dos milhões de jovens brasileiros que conseguiram ingressar no mercado de trabalho formal, nos últimos anos. Segundo o documento-base da 1ª Conferência Nacional de Juventude, realizada em Brasília, em abril deste ano, os jovens ocuparam cerca de 90% dos seis milhões de novas vagas criadas com carteira assinada no País, entre 2003 e 2007. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, revelam que o boom do emprego juvenil continua neste ano. “Antes, havia uma crise de desemprego nas regiões metropolitanas, e o principal afetado era o jovem. Desde 2003, esse quadro reverteu-se”, afirma o economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Ele coordena uma ampla pesquisa destinada a traçar um retrato do emprego juvenil no País, relacionado à Educação, e que, ainda neste semestre, será disponibilizada ao público – jovem e especializado –, pelo Instituto Votorantim, patrocinador do estudo.

Dados preliminares revelados pela pesquisa, baseados em informações do Caged, da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) e da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a ocupação dos jovens não acontece de maneira uniforme em todas as faixas etárias. Enquanto, segundo a PNAD, a taxa de ocupação entre os mais velhos (entre 25 e 29 anos) era de 74% em 2006, o índice entre os mais jovens (15 a 19 anos) caía quase pela metade (38%).

“Já tentei muito arrumar um emprego, mas não é fácil. As empresas pedem três meses de experiência, mas como é o meu primeiro emprego, como posso ter experiência?”, indaga a pernambucana Aline Mota, de 18 anos, que foi um dos destaques da 6ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), ocorrida este ano, com um projeto de um pluviômetro alternativo. A jovem concluiu o ensino médio no fim de 2007 e está se preparando para fazer vestibular para Geografia, em dezembro. “Acho que depois de entrar na faculdade vai ser mais fácil arranjar um trabalho. Hoje, estou sendo superada por quem tem mais conhecimento e o diploma do ensino superior”, diz ela.
Impacto da escolarização

Aline está certa. “A escolaridade é um fator preponderante da empregabilidade dos jovens. Existe uma relação positiva entre ocupação e níveis educacionais”, diz o economista Marcelo Neri. Trocando em miúdos: quanto mais escolarizado é um jovem, maiores as chances de conseguir um emprego. O advogado cearense Francisco Itaércio Bezerra Filho, de 26 anos, sabe disso. Graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em 2003, hoje ele comanda a área tributária de um escritório de advocacia em Fortaleza e recebe 3.500 reais por mês, um bom salário para quem tem apenas quatro anos de formado. A intimidade de Itaércio com o trabalho, no entanto, vem de longe. Desde a adolescência, ele já ajudava a mãe no armarinho da família em Iguatu, cidade do sertão cearense, distante 400 quilômetros da capital. “Eu fazia os pagamentos no banco e ficava no caixa”, recorda-se. Aos 16 anos, mudou-se para Fortaleza, para fazer o terceiro ano do ensino médio. Passou no vestibular na primeira tentativa e já começou um estágio em um projeto conjunto da faculdade e da prefeitura de Fortaleza.

“Não era na minha área, mas me interessei por conta da remuneração. Recebia um salário mínimo e trabalhava somente pela manhã. À tarde, dava aula particular para alunos do ensino médio”, conta Itaércio. Segundo o jovem, a mãe sempre foi uma pessoa extremamente batalhadora e serviu como forte exemplo. “Nunca gostei de depender financeiramente de ninguém. Queria ganhar meu próprio dinheiro.” Quando estava no segundo ano da faculdade, ele conseguiu um estágio remunerado em uma banca de advogados e nela permaneceu durante todo o curso, até ser efetivado depois de formado. “Foi um desafio e tanto trabalhar durante a faculdade. Nem sempre conseguia me preparar direito para as provas. Mas não me arrependo, pois essa experiência me preparou para o mundo do trabalho”, afirma.
Desemprego elevado

Apesar de grande número de jovens – como o cearense Itaércio e o potiguar Patrick – ter conseguido o almejado emprego nos últimos anos, a situação do mercado de trabalho juvenil ainda está longe de ser ideal. No que parece ser uma grande contradição, os jovens são também a parcela da população que mais sofre com o desemprego. Segundo o estudo Juventude e Políticas Sociais no Brasil, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), órgão subordinado ao Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, 46,6% do total de pessoas desocupadas no País têm entre 15 e 24 anos. E mais: o desemprego entre quem está iniciando a vida profissional é 3,5 vezes maior que entre aqueles com mais de 25 anos. Vários fatores podem explicar essa situação. Os trabalhadores juvenis têm menos experiência, são considerados menos essenciais – exatamente pela falta de experiência profissional – e seu custo de demissão é menor. O estudo revela, ainda, que os jovens com mais dificuldade de arranjar trabalho são os de baixa escolaridade, os moradores de periferia e as jovens mulheres, especialmente as que têm filhos.

A paranaense Tatiane Marques da Silva, de 25 anos, teve a “sorte” de só ter virado mãe quando já estava empregada. “Muitas amigas minhas, que estão procurando emprego, me dizem que a empresa quer saber de cara se elas têm filhos. Eles preferem empregar mulheres solteiras ou casadas sem filhos. Acham que quando a gente tem filhos vai faltar no emprego por causa das crianças”, conta. Dona de um diploma de técnica em Contabilidade, Tatiane trabalha em uma ONG de Curitiba que atua na área de direitos humanos. Sua vida não é nada fácil, mas ela tem o apoio do marido para dar conta do cuidado das crianças, do trabalho e do curso de Administração, que faz à noite. “Estou satisfeita com minha vida profissional. Comecei como estagiária e hoje sou responsável pelo setor financeiro. A tendência é só melhorar quando concluir a faculdade.”
Informalidade

O mapa do emprego no Brasil também é muito desigual. Em algumas regiões metropolitanas, como Curitiba, Porto Alegre e Belo Horizonte, o índice de ocupação juvenil está na casa dos 62%. Em outras, como Belém e Recife, fica próximo a 45%. A informalidade é outra faceta cruel da relação dos jovens com o mercado de trabalho. Dados da PNAD apontam que, entre jovens de 15 a 19 anos, apenas 24% trabalham com carteira assinada.

Para o pesquisador Roberto Henrique Sieczkowiski Gonzalez, técnico de Planejamento e Pesquisa do IPEA, muitos jovens menos favorecidos do ponto de vista econômico entram precocemente no mercado de trabalho e se submetem à informalidade por uma questão de sobrevivência – e não apenas para conquistar autonomia pessoal.

A jovem paraibana Sheila Regina da Silva, de 21 anos, é um retrato dessa situação. Desde fevereiro de 2007, ela trabalha como educadora social em uma organização dedicada à prevenção da Aids em João Pessoa. São 20 horas semanais, remuneração de 300 reais e nenhum vínculo empregatício. “Quando sair, não terei direito a nada. Preferia que fosse com carteira assinada”, diz ela.

Uma chance de driblar a informalidade é tentar entrar no mercado por meio de um programa de qualificação profissional. Esse foi o caminho percorrido pela paulistana Michele Gomes de Siqueira da Rocha, de 22 anos. Em 2004, ela participou do Programa Faz Tudo, promovido pela Associação Profissionalizante da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) e destinado à inclusão social de jovens pobres. “Além de noções na área da Construção Civil, aprendi também a lidar com documentos e a fazer o trabalho de secretariado”, relembra Michele. O curso durou sete meses e, uma semana depois de concluído, a instituição indicou a jovem para uma vaga numa loja especializada em produtos para a casa. “Fiz a seleção e comecei a trabalhar na semana seguinte. Isso já faz quatro anos e ainda estou lá. Entrei como repositora, que é a função mais básica da loja, e hoje sou auxiliar de loja. Meu salário passou de 401 reais para 870”, diz Michele, que estuda pela manhã e trabalha das 16h às 22h.

O crescimento da remuneração de Michele foi impulsionado não apenas pelo seu tempo de empresa e bom desempenho profissional, mas, também, pela melhora do seu nível educacional. Quando começou a trabalhar, ela não havia concluído o ensino médio e hoje está no segundo ano do curso de licenciatura em Educação Física, na Uniban Brasil.

“De acordo com os dados do nosso estudo, a renda de um jovem ocupado sem ensino médio é de 600 reais em média, enquanto a daquele com ensino médio sobe para 1.700 reais. A Educação tem grande impacto na vida do jovem, e ele nem sempre percebe isso”, diz o economista Marcelo Neri, da FGV.

Aluno da oitava série do ensino fundamental, Wellinton Luiz Teodoro, de 16 anos, conhece muito bem a relação entre baixa escolaridade e maus salários. Ele trabalha quatro horas por dia nas ruas de sua cidade, Ourinhos, no interior paulista, vendendo talões de estacionamento rotativo zona azul, e recebe 190 reais por mês.

“Decidi trabalhar desde cedo para garantir um futuro melhor. Pago a conta de água de casa, dou um pouco de dinheiro para os meus pais e fico com o restante”, diz Wellinton. “O trabalho não atrapalha meus estudos, que são pela manhã, mas também não pretendo fazer faculdade. Quando terminar o ensino médio, quero ser caminhoneiro, como o meu pai.” Antes do trabalho atual, cujo contrato tem prazo determinado de dois anos, o rapaz já havia trabalhado como lavador de carro. “Era só nos fins de semana. Ganhava 20 reais por dia”, conta. “Hoje, é muito difícil um jovem conseguir trabalho. E quando arruma alguma coisa, o salário é lá embaixo.”
Disputa acirrada

É para fugir do “salário lá embaixo”, tão comum entre os jovens trabalhadores com pouco estudo, que a carioca Tainá Bilate de Souza, de 20 anos, está batalhando pelo diploma universitário. Ela cursa o 5º semestre de Jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e seu sonho é trabalhar como repórter em um grande jornal carioca. Por enquanto, ela faz estágio numa revista científica da própria universidade. “Minha função é controlar o fluxo de artigos que serão publicados”, afirma. “Estou louca para começar a trabalhar na minha área, mas o mercado para jornalista aqui no Rio é muito difícil. Já participei de algumas seleções, mas não consegui a vaga.” Para Tainá, a UFRJ, a despeito de todos os problemas comuns às universidades públicas, oferece uma boa formação profissional.

Ela acredita que o mercado de trabalho para os jovens esteja mais receptivo do que no passado, mas, mesmo assim, ainda é difícil obter uma colocação. “O problema é a grande concorrência e o pequeno número de vagas.” Como Tainá pertence a uma família de classe média – a mãe é dona de um restaurante e o pai, de uma pequena empresa de entregas urbanas –, o trabalho para ela, nesse momento, não é uma necessidade, mas a busca de uma realização. “Quero estar em contato com o dia-a-dia da profissão. Quanto mais cedo começar, mais vou me desenvolver”, diz ela. “E, nessa fase da minha vida, é a hora de experimentar, de ver com o que me identifico mais”, conclui.