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Território do saber

A condição juvenil contemporânea faz da escola um espaço de vivências a ser encarado como um caminho, e não um problema, para a educação

09/03/2012

09/03/2012



Por Carla Linhares Maia
O tema da juventude construiu um percurso muito peculiar na cena brasileira atual. Nos últimos cinco anos, a produção sobre juventude, em diferentes âmbitos, ganhou maior projeção e densidade analítica, abrindo perspectivas variadas. E grandes pesquisas têm sido desenvolvidas abarcando a quase totalidade do território nacional, mapeando a diversidade de condições juvenis brasileiras. 

Neste cenário, vários pesquisadores e estudiosos desenvolveram e orientaram pesquisas, fóruns de debates e estudos mais amplos e aprofundados, privilegiando os jovens moradores das periferias dos grandes centros urbanos, suas expressões culturais, sua relação com a educação, com a escola, religião, família, política, trabalho e outros temas. Todo esse debate acerca das juventudes ampliou os campos de análise e leituras sobre os jovens, evidenciando a diversidade de formas de viver e expressar as condições juvenis. Com isso, principalmente, deslocaram o eixo do debate da juventude como “problema social” para a concepção dos jovens como “problema político”, ou “das políticas públicas”. 

Com efeito, esses estudos contribuíram para problematizar e ampliar a discussão sobre o próprio conceito de juventudes e para repensar o papel da escola e de outros espaços educativos na vida desse segmento da população. Esse movimento compôs um mosaico mais diversificado dos diferentes contextos em que vivem os jovens no Brasil. Aprofundaram as reflexões sobre a relação das juventudes com a escola e, principalmente, com outros espaços de socialização juvenis, como os grupos culturais ligados à música e à dança, e outras expressões culturais juvenis. O debate acadêmico e dos movimentos da sociedade civil e do Estado tem modificado as representações sobre a juventude no Brasil e, em especial, permitido, aos educadores, repensarem a relação da escola com os jovens.
Escola e escola

Em artigo de 2006, intitulado “A Escola e a Esfinge: Culturas e Saberes Juvenis – Um Desafio Contemporâneo”, refleti sobre a relação entre juventude e escola tendo como pano de fundo a pesquisa de mestrado “Entre Gingas e Berimbau: Estudo de Caso sobre Culturas Juvenis, Grupos e Escola” (disponível no site www.biblioteca.pucminas.br/teses/Educacao_MaiaCV_1.pdf), em que observava e comparava o cotidiano juvenil em dois cenários: escola e grupo de capoeira. A pesquisa desvendou um universo extremamente interessante e diversificado, em que tanto a escola quanto o grupo de capoeira, de formas distintas, se mostraram como importantes territórios de socialização, aprendizagens e construções identitárias juvenis. 
Guardando as devidas diferenças entre escola e grupo, à medida que pesquisava, percebia que a capoeira era boa para pensar a escola, a relação entre educadores e educandos, mestres e aprendizes e, também, sobre os jovens e suas relações com os saberes, valores e espaços educativos, como a escola e os grupos culturais. 

Nos treinos, batizados, eventos e rodas, percebia a riqueza e a variedade de saberes que circulavam nestes espaços, onde os jovens eram constantemente postos em relação a eles. Esta relação era ativa, dinâmica e também variada. Envolvia saberes ligados diretamente à prática da capoeira, como golpes, alongamentos, cuidados com postura, rituais da roda de capoeira, ou tocar instrumentos como atabaque, berimbaus, pandeiros e xique-xique, canto, dança, expressão corporal, distribuição espacial, lateralidade; mas também relacionados aos códigos de inserção no grupo, seja a forma de falar, de vestir, do trançar e enfeitar os cabelos, das hierarquias, etc; saberes relacionados às trocas de experiências pessoais; valores como união, respeito, sinceridade, tolerância, amizade, franqueza; posicionamento diante do mundo, disciplina; estudos da história do Brasil, da história da capoeira, da cultura afro-brasileira; e saberes relativos à organização de eventos, trabalho comunitário, exercício de cidadania, entre outros. 

Assim, a pesquisa permitiu pensar que a escola pode oferecer mais do que tem oferecido aos jovens, se abrindo para o diálogo com os estudantes, suas expressões e grupos culturais. Para superar o que no discurso docente se expressava pelos termos “abismo cultural” e “cisão” entre “os mundos do jovem” e o “mundo da escola”, foi proposto como caminho a construção de canais de comunicação mais eficazes entre gestores e educadores e outros espaços de socialização, formação identitária e também construção e circulação de saberes juvenis. 

O ponto central deste argumento é a compreensão de que a escola e os educadores precisam transpor os muros escolares, mapear e reconhecer a existência desses espaços e se colocarem em relação e diálogo com os mesmos, para construírem projetos mais significativos e que levem em consideração os modos específicos dos diferentes jovens se relacionarem com os espaços e, também, com os saberes escolares.
Extramuros

A chave para esse caminho é o argumento posto por autores como Marília Spósito e Juarez Dayrell pelo qual a escola contemporânea, que acolhe e educa adolescentes e jovens, não pode mais viver fechada, ensimesmada, desconhecendo os outros espaços sociais por onde os seus estudantes circulam, produzem e apreendem hábitos, valores, visões de mundo e saberes – cultura – que trazem consigo para a escola, interferindo nas relações entre educadores e educandos, educandos e cultura escolar e entre os próprios educandos. 

Já podemos considerar, por dados de diferentes pesquisas, que este tem sido um caminho fecundo, mesmo que não isento de riscos e com limites, para desatar um dos “nós” da relação professor-aluno posto em alguns discursos docentes. A saber: os professores reconhecem que a escola é vivenciada como espaço privilegiado de socialização juvenil, mas se ressentem de os estudantes jovens não se interessarem por estudar e se envolver com as atividades “propriamente” escolares. A escola seria apenas lugar de encontros, namoros, amizades, para a maioria dos jovens, mas os aprendizados escolares não seriam significativos para a atual geração de jovens estudantes. 

Dayrell (2006) propõe, para a compreensão da relação juventude e escola, a necessidade de romper com visões apocalípticas, com educadores e estudantes jovens responsabilizando-se mutuamente pela crise da escola. Ou, então, visões simplistas, reduzindo a explicação da tensão na relação professor-aluno aos “muros” materiais e simbólicos da escola. Ele nos convida a pensar essa relação dentro de um contexto mais amplo, apresentando a hipótese de que “as tensões e os desafios existentes na relação atual da juventude com a escola são expressões de mutações profundas que vêm ocorrendo na sociedade ocidental, interferindo na produção social dos indivíduos, nos seus tempos e espaços”. Pois, para ele, elas afetam diretamente as instituições e os processos de socialização das novas gerações. 

Em sua compreensão, as instituições classicamente responsáveis pela socialização, como a família, a escola e o trabalho, vêm mudando de perfil, estrutura e também de funções. No contexto dessas mudanças, os jovens da atual geração vêm se formando e se construindo como atores sociais de forma muito diferente das gerações anteriores. Para ele, essas mudanças nos tempos e espaços de socialização interferem diretamente nas formas como os sujeitos jovens vivenciam o seu estatuto como alunos, trazendo novos desafios para a relação intergeracional, na qual os adultos e, especificamente os professores, não podem mais contar tanto com a sua experiência anterior como referência para lidar com os jovens atuais. 

No limite deste artigo, é importante enfatizar que as pesquisas e estudos no campo da juventude também apontam: 

1. A necessidade de se pensar na formação do professor que trabalha com a população jovem, em especial com a de camadas populares, estudantes de escolas públicas de ensino fundamental e médio. Jovens esses que chegam em número cada vez mais elevado a uma escola massificada e, no dizer de Rui Canário (2005), em um contexto de profundas mutações sociais que afetam e tornam complexas suas relações e representações da educação das juventudes contemporâneas. 

2. Planejar projetos pedagógicos que dialoguem com o universo cultural juvenil e considerem que a vivência das condições próprias da juventude no espaço escolar é parte do processo de educação destes jovens, que envolvem as diferentes formas de sociabilidade expressas no espaço escolar, e são constitutivas dos modos como os jovens se relacionam com os saberes e aprendizagens escolares. 

Concluindo, proponho que uma das mais importantes pistas para desatar os “nós” da relação professor-aluno seja compreender que a socialização é parte constitutiva dos modos como os sujeitos jovens vivenciam e constroem suas relações sociais afetivas e identidades e, também, das relações que estabelecem com os saberes escolares. 

Situações de aprendizagens escolares e socialização não devem ser significadas e vivenciadas como separadas, mas pensadas como integrantes do processo mais amplo de formação das novas gerações. Ou seja: a formação humana. O risco é separar o que está intrinsecamente relacionado e perder a oportunidade de ver, reconhecer e também criar situações de aprendizagens escolares imbricadas nos processos de socialização e expressões juvenis.
Sobre a autora

Carla Linhares Maia é graduada em História, doutoranda em Educação e membro do Observatório da Juventude na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais


Depoimento

“A escola da qual os jovens gostam é aquela que dá apoio e liberdade para o aluno buscar e construir o conhecimento com base em suas experiências pessoais, explorando os assuntos que são mais do seu interesse em atividades ou projetos práticos, em aulas mais lúdicas, dinâmicas, com grande interação entre estudante e professor. Essa seria uma escola ‘asa’, que vai conseguir estimular e interessar até aqueles alunos que só querem fazer bagunça. Já a escola ‘gaiola’ determina e delimita o que o aluno deve aprender, mas aí ele não aprende, faz mais bagunça porque os assuntos não têm a ver com a realidade dele, não interessam. Eu pude comprovar isso com uma pesquisa que fiz no colégio, dentro da disciplina de Iniciação Científica, comparando a escola com asas e gaiolas. A gente entrevistou 300 alunos e eles disseram que o que pode tornar a escola um lugar mais interessante são justamente aulas mais dinâmicas, com práticas que tenham relação com a vida deles, com temas que eles possam escolher. Nós mesmos, os pesquisadores, demos aulas para alunos de 1ª a 4ª série para testar tipos de aulas. Usamos o método tradicional e práticas mais lúdicas, com jogos e bastante diálogo, e estas aulas fizeram muito mais sucesso. Acho que não existe uma escola totalmente asa ou totalmente gaiola. A minha, felizmente, está mais para asa, porque me permitiu sugerir e construir esse projeto.” 
Natália Romana Gomes da Silva, 15 anos, aluna do 2º ano do ensino médio no Grupo Educacional de Camaragibe (PE) , autora da pesquisa “Escolas: Gaiolas ou Asas”