“Não há idéia milagrosa”
Diretora da escola de ensino médio mais bem avaliada na rede paulista, Mirtes Machado diz que resultado não tem segredo, mas trabalho no dia-a-dia
26/08/2011
Quem passa em frente à Escola Estadual Papa Paulo VI, localizada em um bairro de periferia de Santo André, na Grande São Paulo, custa a acreditar que ali estão os melhores alunos do ensino médio paulista, segundo os resultados do Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo), um indicador criado em 2008 pelo governo estadual para avaliar as condições da qualidade do ensino na rede que administra.
Inspirado no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que vale para todas as escolas do Brasil, o Idesp leva em conta dois dados: o Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) e a taxa de alunos que estudam em séries indicadas para a sua idade – e que podem sofrer variação, caso haja repetência e evasão.
A escola de Santo André obteve um índice de 6,21, superando em muito a média estadual no ensino médio, que foi de apenas 1,41, numa escala de 0 a 10. Mas não é pela aparência que ela se distingue. Isso porque o prédio não difere em nada dos milhares de escolas públicas existentes em todo o País. É antigo, o portão de ferro está enferrujado, a pintura dos muros é gasta e ele carece de uma boa manutenção. Para piorar, desde o ano passado, mais da metade da área foi interditada pela Defesa Civil, pois corria o risco de desmoronar.
Mas, como diz o ditado, “as aparências enganam”. Lutando contra as dificuldades, o corpo diretivo e os professores conseguiram implantar um projeto pedagógico consistente e agora colhem os frutos do trabalho.
“O resultado do Saresp é fruto do trabalho do dia-a-dia”, diz a historiadora e pedagoga Mirtes de Fátima Machado, diretora da escola, que faz questão de destacar a importância dos professores para a qualidade de ensino da escola. “São pessoas extremamente sérias e dedicadas.” Dos seus 30 professores, 90% são titulares. A maioria mora na própria região, muitos estão lá há vários anos e boa parte foi professor dos irmãos mais velhos de seus atuais alunos.
Com apenas 783 alunos, o colégio Papa Paulo VI é uma escola pequena para os padrões da Grande São Paulo. São vinte turmas da 5ª série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. No último Saresp, os alunos do 3º ano do ensino médio obtiveram as melhores notas tanto em Matemática quanto em Português, as duas disciplinas constantes do exame. Na primeira, alcançaram a média de 382,2 pontos, enquanto a média estadual foi de 263,7, e o nível adequado fica entre 350 e 400 pontos. Em português, atingiram 338,3 pontos, sendo que a média estadual ficou em 263,3, e o nível adequado está entre 300 e 375 pontos. O desempenho no Enem – Exame Nacional do Ensino Médio –, que avalia alunos em nível nacional, também foi satisfatório, com uma pontuação de 53,98 (acima da média estadual de 52,70 e da média nacional de 51,27), embora ainda bem abaixo dos 79,63 obtidos pelos alunos da escola pública mais bem classificada nesse ranking.
Para atingir essa posição, a escola não descuida de nenhuma disciplina desde a quinta série, investindo em estratégias de aprendizagem que contextualizem os conteúdos e façam sentido para o jovem, conforme revelou a diretora em entrevista concedida a Onda Jovem. Acompanhe a seguir seus principais trechos.
| Onda Jovem: Qual o segredo da escola para tirar o primeiro lugar no Saresp, tanto em Português quanto em Matemática? Mirtes de Fátima Machado: Não há segredo nem idéia milagrosa. É o trabalho do dia-a-dia. Temos um grupo de professores e profissionais extremamente sérios e dedicados. São pessoas maravilhosas, que estão conosco há muito tempo. Até eu chegar aqui, há quase cinco anos, a troca na direção da escola era muito grande. Com isso, não havia um direcionamento nem uma proposta consistente e contínua. Eu gosto de criar raízes e vim como titular de cargo. Apresentei uma proposta pedagógica e contei com a confiança da equipe, formada, também, em sua grande maioria, por professores titulares. Com isso, não há troca [de professores] todo ano. |
| Qual é a vantagem de os professores serem titulares e ensinarem na escola há algum tempo? São várias, mas eu queria citar especificamente uma: o fortalecimento do vínculo com os alunos. Quase todos os professores são da região e conhecem a realidade local. Como estão aqui há mais tempo, eles também já foram professores dos irmãos mais velhos dos alunos e conhecem suas famílias. Isso cria vínculo, compromisso, responsabilidade e mais segurança, por conhecer a situação local. É bom lembrar que estamos num bairro de periferia, cercado por três favelas, com algum nível de violência. |
| Muitas escolas públicas convivem com faltas freqüentes de seus professores. Isso acontece aqui? Não. A cada ano, as faltas diminuem. Elas aconteciam mais com os professores que não eram titulares, mas que hoje são apenas 10% do total. Atualmente, os professores não tiram nem as seis faltas abonadas no ano, às quais todo servidor público estadual tem direito. Este ano [até o começo de abril], só tivemos três faltas. Mas não foram três dias – apenas três aulas. Queria destacar também a formação do nosso quadro docente. Todos os professores têm graduação – algo que não é comum em muitas outras escolas públicas – e dois têm título de mestre. Outros três estão fazendo mestrado, com bolsa de estudo do estado. E a grande maioria faz cursos de aperfeiçoamento freqüentemente. |
| Apesar dos bons resultados do Saresp, vocês devem enfrentar dificuldades comuns à maioria das escolas públicas do País. Sim, as dificuldades são muitas. Reclamações dos professores contra o baixo salário, prédio em mau estado de conservação, carteiras quebradas, falta de recursos... Um dos que acho mais grave diz respeito ao fato de não termos na escola os primeiros anos do ensino fundamental – as crianças entram aqui para fazer a 5ª. série do fundamental. Recebemos um número razoável de alunos de outras escolas públicas, e também particulares, que são analfabetos. Não sabem ler nem escrever. Esse é um problema sério. |
| Como vocês lidam com isso? Primeiro, fazemos um diagnóstico para identificar a situação de cada novo aluno, já que não recebemos relatório sobre sua vida escolar pregressa. Em seguida, tentamos uma aproximação com a família daqueles que apresentam mais dificuldades. Muitos pais atendem aos nossos chamados, mas outros, não. O professor, então, faz um trabalho de recuperação continuada em sala de aula. Nós contamos também com um recurso a nosso favor, disponível na rede pública estadual de São Paulo, que é a recuperação paralela. São mais duas aulas de reforço que podem ser dadas por professores diferentes, fora do horário das aulas. |
| Essa mesma deficiência detectada em relação ao ensino de Português acontece com a Matemática? Sim. Muitos novos alunos chegam sem dominar as quatro operações e sem raciocínio lógico. |
| E o que vocês fazem? Apostamos na parte concreta. Não adianta ficar pondo exercício na lousa, nem muito blá-blá-blá. Temos que partir para o concreto, elaborando problemas de Matemática com assuntos da vida do aluno. Isso facilita a aprendizagem. Outro instrumento válido é recorrer a jogos. Mas uma coisa deve ficar clara: a gente não está ali para brincar. O jogo é legal, mas é também um instrumento de ensino e aprendizagem. Os alunos têm bem claro o que cada jogo lhes possibilita. São coisas pequenas, mas que surtem um grande resultado. |
| E qual é o segredo para atrair os jovens do ensino médio para o estudo? O fato de eles serem jovens inspira alguma estratégia específica? O trabalho desenvolvido com os alunos do ensino médio se preocupa principalmente em estabelecer estratégias de aprendizagem que contextualizem os conteúdos e façam sentido para o jovem, já que o mundo moderno oferece infinitas possibilidades de interação com o conhecimento. Cabe à escola, portanto, estabelecer uma ponte que dê uma direção aos alunos e abra-lhes perspectivas para o mercado de trabalho e o efetivo exercício da cidadania. |
| E como vocês lidam com a falta de colaboração da família no processo educacional dos alunos? Esse é um problema sério. Nossos alunos são, muitas vezes, filhos de analfabetos ou de pais sem condições de dar apoio. Mas muitos poderiam estar mais presentes e não estão. Alguns até reclamam que a escola dá muita lição de casa, o que os obriga a estar ali do lado. Para eles, isso é obrigação nossa. É uma situação conhecida da maioria das escolas. Para tentar resolvê-la, criamos horários mais flexíveis para atender os pais. Se ele não pode vir no dia da reunião, então que venha outro dia. Também abrimos espaço para eles nas HTPCs, que são horários de trabalho pedagógico com os professores. Por fim, criamos um espaço de palestras e cursos sobre assuntos diversos – violência, droga, sexo etc – para os pais. Queremos fechar o cerco para que eles não tenham desculpas de não vir à escola. |
| Vocês têm problemas com alunos que usam drogas na escola? Até bem pouco tempo atrás, tivemos sérios problemas com álcool, que muitos não consideram uma droga. Encontrávamos garrafas nas mochilas e alguns alunos já chegavam de manhã bêbados. O que fizemos? Fomos a todos os mercadinhos, bares e vendas em volta da escola e pedimos aos donos para evitar vender aos alunos. Depois, procuramos as famílias, para que elas também assumissem a responsabilidade, pois muitos alunos traziam a bebida de casa. Falamos para os pais que o mínimo que eles deviam fazer era escondê-la dos filhos. Os professores, por sua vez, passaram a abordar a questão das drogas em sala de aula. E adotamos uma rígida fiscalização, com ajuda da ronda escolar. Foi uma ação intensa que deu resultado. Em um ano e meio, o problema foi superado. |
| Quando entrei na escola, reparei em algumas estantes com livros no corredor. Vocês não têm biblioteca? Tínhamos. No ano passado, a Defesa Civil detectou um problema na estrutura física da escola, e uma área de 60% do prédio precisou ser isolada. Nesta área funcionava não apenas a biblioteca, mas também a quadra esportiva, a horta, a sala de Educação Física, o pátio coberto, o laboratório de Informática e o auditório para as apresentações do nosso grupo de teatro. Diante dessa adversidade, tivemos que ser criativos. Com algumas estantes, criamos cantinhos de leitura espalhados pelos corredores e outros locais da escola. A coisa está funcionando tão bem que pretendemos manter os cantinhos mesmo quando a biblioteca reabrir. Além disso, elaboramos kits de leitura com caixas de plástico, que o professor leva para a sala de aula. A leitura é o coração da escola. |
| Com a interdição de parte da escola, os alunos perderam boa parte de seu espaço de lazer? Sim. E, com isso, passamos a enfrentar outro problema. Com a redução do espaço, os alunos naturalmente se aproximaram e percebemos que as brigas e conflitos poderiam se potencializar. Para evitar que isso acontecesse, compramos alguns jogos para os alunos brincarem no intervalo. Dama, palavras cruzadas, dominó, xadrez, pingue-pongue... Adquirimos também instrumentos musicais. Para isso, tivemos que fazer um planejamento austero, pois os recursos da escola são limitados e têm de ser usados com muito critério. |
| Qual o papel da coordenação aqui na escola? O coordenador atua na questão disciplinar, faz a ponte entre os professores e a direção da escola e participa também na área pedagógica. É um mediador, responsável pela condução das reuniões semanais com os professores. Usamos esse período para fazer planejamento, tirar dúvidas e, fundamentalmente, estudar e reciclar os professores. Estudamos mesmo, muito seriamente. |
| A sra. poderia apontar um diferencial importante da escola? Não sei se é um diferencial, mas é uma coisa que valorizamos muito: as atividades extraclasse. Levamos os nossos alunos para ver peças de teatro, visitar o Masp, o Museu da Língua Portuguesa, conhecer o festival de folclore de São Bernardo do Campo, conhecer Paranapiacaba [distrito de Santo André com uma das estações de trem mais antigas de São Paulo]... Mas, além de levar os estudantes, estimulamos os professores a irem também em seus horários de lazer. Como é que queremos mostrar aos alunos a importância dessas manifestações culturais e de visitar esses lugares se os próprios professores não os valorizam? |



