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“Fora da família não há solução”

Para Ziraldo, autor do Menino Maluquinho, a adolescência e a juventude são travessias que exigem apoio e paciência dos pais

05/08/2011

05/08/2011



Foto: Deise Lane Lima A porta branca enfeitada por uma placa de madeira colorida com os dizeres “Ziraldo – Dibujante” se abre e revela lá dentro um senhor de cabelos encaracolados e grisalhos sentado numa cadeira cercada de estantes por todos os lados. As prateleiras estão abarrotadas de livros infantis, de arte e de ilustração, revistas em quadrinhos, desenhos acabados e inacabados. À frente do anfitrião, uma grande prancheta, coberta de lápis e canetas que fizeram muitos dos trabalhos também expostos nas paredes. Atrás, um busto em tamanho quase natural do Super Homem, de braços cruzados e olhar de herói, como que zelando pela paz do lugar. Não é difícil, para quem entra, imaginar que está aí um lugar onde o Menino Maluquinho, mesmo depois de crescido, se sentiria à vontade.

Pois quem ocupa esse endereço, na Zona Sul do Rio de Janeiro, é justamente o criador de um dos personagens mais famosos da literatura infantil brasileira. Ziraldo Alves Pinto, mineiro de Caratinga, tem 75 anos, e a palavra em espanhol que o anuncia na entrada apenas começa a descrevê-lo: ele é desenhista, sim, mas também pintor, cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista e escritor, como informa seu site na internet (www.ziraldo.com.br).

São tantas as atividades de Ziraldo que a pergunta “O que é que você tem feito?”, lançada assim, como quem não quer nada, só para começar o papo, é respondida com um pedido a uma das secretárias do estúdio: “Traz os livros aqui que o Marcelo tá mal informado!” O pronto atendimento produz uma respeitável pilha sobre a mesa. No topo está “Menina das Estrelas”, seu mais recente lançamento para o público infantil. Mas o tema da entrevista, o papel da família, remete a um livro bem mais antigo, que já virou história em quadrinhos, peça de teatro, filme, site na Internet (www.meninomaluquinho.com.br) e marca de muitos produtos. “O Menino Maluquinho” nasceu em 1980 e, desde então, faz parte da infância de milhões de leitores no Brasil, na América Latina e até na Coréia do Sul.

Como se descobre no fim do livro, é o relato da infância de um “cara legal, mesmo”, que, afinal, havia sido apenas um menino feliz. A história foi inspirada numa reunião de pais e mestres da qual Ziraldo, pai de três filhos, participava e na qual se discutia a “receita” para criar bem os filhos. O enredo do livro é coerente com sua convicção de que um canalha é alguém que não teve uma boa infância e o apoio da família. A seguir, Ziraldo fala da passagem da infância para a idade adulta e da importância da família nesse processo. Temas, a exemplo do Menino Maluquinho, universais.
ONDA JOVEM: “O Menino Maluquinho” (1980) retrata o personagem principal na infância e, nas páginas finais, salta diretamente para a idade adulta, quando ele se torna “o cara mais legal do mundo”. O que acontece no intervalo que permite essa transformação?

Ziraldo: Sou muito ligado à família. No mundo de hoje, fora da família não há solução. Na infância, o que há de mais importante é o amparo familiar, do pai e da mãe. O Menino Maluquinho tem um histórico familiar importante. Ele foi bem amado na infância, e é por isso que nas páginas finais do livro se descobre que ele foi, na verdade, um menino feliz. Minha tese, a confirmar, é de que quem foi querido e teve amparo na infância tem uma possibilidade muito grande de ser um cara melhor.
Esse amparo está ligado às condições materiais? O Menino Maluquinho tem uma qualidade essencial: pode se identificar com qualquer criança. É impossível perceber, por exemplo, a que classe social ele pertence. A história vale para qualquer situação social?

Uma boa passagem da infância para a idade adulta não é uma questão de recursos materiais. O cara pode ser rico e se tornar um sujeito péssimo. Veja o Collor (Fernando Collor de Mello, ex-presidente do Brasil e hoje senador por Alagoas). Esse cara teve todas as vantagens na infância. Ter uma infância boa não significa ser atendido em tudo. A qualidade essencial é ser amado.
Outra coisa que não fica clara é a idade do Menino Maluquinho. Ele foi criado para representar toda a infância?

Faço uma distinção entre criança e menino ou menina. Para mim, até por volta dos oito anos de idade somos crianças, indistintamente. Até temos lembranças dessa fase, mas é só entre os 8 e os 11 anos que inauguramos a memória afetiva e começamos a categorizar as pessoas. Essa é a fase em que somos menino ou menina. Nosso cérebro se torna uma máquina fotográfica com filme dentro. Eu, por exemplo, sou capaz de desenhar cada casa da rua onde morei, em Caratinga. Essa fase, que dura pouco, porque logo depois já começa a pré-adolescência, é a que retrato no Menino Maluquinho.
E como seria o adolescente Maluquinho?

A adolescência não é uma fase tão brilhante, tão maravilhosa quanto essa de menino ou menina. É uma época de muitos traumas. O adolescente já tem as funções do adulto, pode ter um filho, por exemplo. Mas não tem vivência, é despreparado. Escrevi um livro sobre a adolescência, “Vito Grandam”. O adolescente é um estabanado, porque o cérebro dele ainda acha que comanda os braços de uma criança, mas os braços já cresceram, têm o tamanho dos de um adulto.
A história de Vito Grandam fala de amor. O amor familiar, que você considera fundamental na passagem para a idade adulta, pode ajudar também a atravessar a adolescência e a juventude?

Outro problema do adolescente é que a mente dele já está pronta, mas ainda tem pouca informação. Só que ele acredita já ter elementos suficientes para julgar o mundo, principalmente o pai e a mãe. Isso abre uma gama de possibilidades muito grande: ele pode se tornar uma pessoa difícil ou ter uma grande consciência do que ocorre à sua volta. O Chico Buarque de Hollanda foi criado numa casa com uma ordem moral importante e se tornou um adulto brilhante. Mas na adolescência “puxou” um carro. Os pais se desesperaram, acharam que o filho tinha descambado para a criminalidade, mas no fim descobriram que era só uma farra, uma brincadeira entre amigos. São coisas que acontecem na juventude.
Quer dizer então que o Menino Maluquinho, mesmo tendo sido amado na infância e se tornado o cara mais legal do mundo na idade adulta, não teve garantias ao enfrentar a adolescência?

O adolescente não tem saudade da infância. A adolescência é um mergulho num mar sem fundo. O cara emerge de lá um adulto bom ou ruim. E o amor e a segurança que ele recebeu na infância vão representar um papel muito importante nessa transformação. O Menino Maluquinho pode ter virado um adolescente maravilhoso ou o adolescente mais chato do mundo. A adolescência é uma travessia. O que os pais têm de fazer é tentar se lembrar da travessia deles.
Mas as travessias não são sempre diferentes? Nem sempre os pais reconhecem nos filhos as mudanças pelas quais eles próprios passaram.

Muitos pais ficam se perguntando o que eles fizeram para que seus filhos se transformem em adolescentes consumistas, por exemplo. Mas isso não vem necessariamente da infância, pode ser apenas uma reação do adolescente às influências da sociedade. Outra área sujeita a isso é a da sexualidade. Outro dia vi um programa de televisão que tratava como homossexualismo o fato de uma menina gostar de outra. Não é nada disso! É uma fase de descobertas, e meninas são mais carinhosas. Também são mais reflexivas, e por isso gostam de relatar suas experiências em diários. Você sabia que no Orkut (site de relacionamentos da Internet) 80% dos perfis são de adolescentes do sexo feminino?
Entre a adolescência propriamente dita e a idade adulta, o Menino Maluquinho, como todos os meninos e meninas que fazem o que você chamou de travessia da adolescência, passou pela juventude. Podemos imaginar também como seria o Jovem Maluquinho?

Isso dependeria muito da época. Hoje em dia, os jovens que precisam ajudar na renda da família encaram desde cedo o mercado de trabalho, mas nas famílias de classe média a adolescência pode ir até os 30 anos. Os filhos da classe média demoram cada vez mais a sair da casa dos pais, e o medo da violência faz com que a casa ocupe mais espaço na vida das pessoas. É cada vez mais comum, por exemplo, namorar em casa. Grande parte desses filhos de classe média vai acabar dando certo, mas os pais e mães de garotos imaturos precisam ter paciência. Não acho que se deva deixar o filho sofrer para aprender.
O jovem Maluquinho já estaria sujeito a esse processo?

Essa história de filhos pendurados nos pais foi inaugurada quando os filhos da minha geração se tornaram pais. Quando eu saí de Caratinga, aos 16 anos, para ganhar a vida, peguei um empréstimo com meu pai, com avalista e tudo. Paguei cada centavo depois que consegui um emprego. Hoje ninguém imagina uma situação dessas. A música “Eduardo e Mônica”, do Legião Urbana, que foi composta alguns anos depois que escrevi o Maluquinho, é um retrato perfeito do nosso tempo. Eles acabam se casando e tendo filhos, mas no começo... (vai se lembrando da letra aos poucos) o Eduardo gostava de novela e jogava futebol de botão com seu avô...
Finalmente, chegamos ao momento em que o Menino Maluquinho se torna o cara mais legal do mundo. O que é, para você, um cara legal? E como seria o adulto Maluquinho?

Um cara legal é aquele que não vai precisar gastar metade do salário com análise (risos). No Menino Maluquinho, eu não tinha como desenhar esse cara. Tentei fazer um retrato de um amigo meu que era muito legal, mas no desenho ele ficou um cafajeste. A solução foi pedir a Apoena, filha dele, então com seis anos, que desenhasse essas páginas. Assim, o livro termina com a visão infantil de como é um cara legal. É o melhor retrato que se poderia ter do Maluquinho hoje.