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Por Daniela Rocha
No Distrito Municipal 8, zona mais pobre de Santa Cruz de la Sierra, a cidade mais populosa da Bolívia, um grupo de 670 moradores entre 14 e 29 anos está projetando um futuro diferente para suas vidas e sua comunidade. Há dois anos, eles integram a Promoção da Participação Cidadã de Jovens para o Desenvolvimento Comunitário, projeto coordenado pelo sociólogo Miguel Ángel Vespa Jiménez, 28 anos. "As vozes dos jovens são pouco ouvidas pelas autoridades da Bolívia, ainda mais se eles forem de populações pobres", diz Vespa Jiménez, membro da COIJ (Coordinadora de Organizaciones e Instituciones Juveniles de Santa Cruz), organização dirigida por jovens e para os jovens bolivianos, em atividade desde 1995.
Os participantes do programa são todos residentes nas chamadas "zonas vermelhas", bairros que se destacam por seus altos índices de pobreza e violência, numa área que foi ocupada por 3 mil desabrigados da enchente do rio Piray, em 1982, e hoje concentra 150 mil pessoas. A maioria é de migrantes, que vivem em condições precárias. Nesse cenário, a implementação do projeto era um grande desafio, mas em sintonia com a proposta da COIJ, de promover o desenvolvimento integral do jovem, criaram-se espaços de participação democrática e aprendizagem para a mudança social.
O objetivo é também fortalecer a juventude, num processo participativo de formação de lideranças nos bairros e comunidades. Para isso, é necessário desenvolver o capital social dos jovens, não apenas no exercício de direitos e deveres, mas garantindo acesso às tecnologias de informação e comunicação e melhoria da educação. Cidadãos com visão crítica e propositiva da realidade podem exigir tudo isso do governo, diz Jiménez.
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Articulando iniciativas
Os participantes foram selecionados num universo de 35 organizações juvenis e oito colégios de ensino secundário. "A finalidade era articular esforços para que os jovens trabalhassem com as associações locais, na tomada de decisões políticas - por exemplo, alianças com o Sindicato das Organizações de Moradores do Distrito Municipal 8, para o gerenciamento conjunto do orçamento da cidade. Essa integração deu tão certo que, hoje, 70 jovens são dirigentes de associações de moradores", diz o sociólogo.
A metodologia do projeto está baseada no processo de formação cidadã, com atividades como oficinas, seminários, encontros. A possibilidade de se informar e de debater com seus pares reorienta as perspectivas desses jovens. Eles passam a fazer articulações entre si, ampliando suas capacidades não apenas administrativas, mas também desportivas, artísticas e culturais. "Eles identificaram suas prioridades e uma delas vem sendo executada com êxito: a implementação dos Centros Juvenis de Internet", diz Jiménez. Muitas atividades vêm sendo realizadas para a geração de renda local, incluindo o funcionamento do cinema comunitário.
O projeto tem ainda um enfoque de gênero: mais de 60% dos beneficiários são garotas líderes, com idades entre 14 e 18 anos. Segundo Jiménez, nessa faixa etária as mulheres dos bairros têm um importante papel público, que é fundamental nas articulações. "A própria Rede Social Juvenil é presidida por uma jovem, Silvana Hutado."
Para Vespa Jiménez, nas sociedades latino-americanas, é essencial promover um processo sistemático de formação de líderes do futuro. "É preciso preparar os jovens para o exercício de seus direitos e deveres de cidadãos, e isso somente é possível com informação.Temos de formá-los sobre os valores democráticos profundos, recuperar a ética, a transparência, o princípio do serviço à comunidade como um exercício cotidiano." É esse espírito que anima os jovens do Distrito Municipal 8 a integrarem-se à juventude boliviana e engajar-se no processo de transformação de seu próprio futuro e da realidade do seu país. |
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