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Por Vera de Sá
Ela foi a primeira mulher do rap brasileiro a assinar contrato com uma grande gravadora, divulgou seu CD de estréia com o parceiro Helião em programas de grande audiência na Globo ("Guerreiro & Guerreira", a faixa-título, foi incluída na trilha da novela Começar de Novo) e está no elenco de Antonia, filme que Tata Amaral começa a rodar em fevereiro. Aos 25 anos, quase dez fazendo rap, Negra Li, que ainda divide o mesmo quarto com a irmã na casa da mãe, em Vila Brasilândia, periferia de São Paulo, se diz "uma sobrevivente". Preconceito, machismo, armadilhas usuais no caminho de uma mulher negra e pobre, no entanto, não são questão de endereço: "Se existe um lugar, a periferia é o melhor. A gente tem orgulho do lugar onde mora".
Voz quase sempre grave, que poucas vezes se eleva, Negra Li fala sem pressa. Nascida Liliane de Carvalho, ela é a caçula de um time de duas irmãs e três irmãos ("O mais velho está preso porque foi pego com droga"). Herdou a religiosidade da família evangélica e fez o ensino básico numa escola particular como bolsista. Acredita que "a gente é que nem um ímã" capaz de atrair o que se deseja muito.
Negra Li teve uma aproximação mais formal com a música ao entrar para o coral da Universidade de São Paulo, em 2000, mesmo ano em que gravou o hit pop "Não É Sério", com o grupo Charlie Brown Jr., entoando o refrão: "Na tevê, o que eles falam sobre o jovem não é sério". Contralto, há um ano e meio começou a freqüentar uma escola de música, com a mensalidade paga por um amigo. Acha que "a música pode mudar o mundo" e que "tem uma responsabilidade". Por conta talvez deste último credo, já divulgou como sua a história exemplar vivida pela irmã Lilian, que ouviu o cochicho da examinadora ao sair de uma entrevista de emprego: "Mas tem de ser bonita", traduzindo a pouca chance que tinha de conseguir a vaga por ser negra. "Feia é o que eu não sou", a réplica de Negra Li, já não é dublagem: "Eu nunca fui feia", diz essa admiradora de Nelson Mandela.
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Onda Jovem: Música e cinema eram seu projeto de vida?
Negra Li: Desde criança ficava em frente ao espelho, punha xale na cabeça, fingia que o desodorante era microfone, ficava imitando apresentadora. Cinema é uma coisa que eu sabia que uma hora ou outra ia chegar na minha vida. Porque a gente é que nem um ímã: quando a gente quer muito uma coisa, acho que ela vem. As coisas também acontecem comigo porque eu nunca me deslumbrei com nada, sempre tive a maior calma. Não tem aquela coisa de querer ser rica: eu gosto de morar onde eu moro, de ser pobre, sabe? Tem uma certa alegria que o rico quer muito, mas o pobre é que tem, aquela alegria de viver assim no bairro, todo mundo se conhece, todo mundo se fala, se cumprimenta. Há uma certa liberdade que só sendo da periferia pra saber. E a periferia quer aquilo que o rico tem, que é o dinheiro, a vida boa. |
Você incorporou a história da sua irmã para ilustrar o preconceito racial. Foi algo que te afetou especialmente?
Negra Li: Realmente, acontece muito com a gente, o preconceito com o negro, não vêem a beleza dele. E eu sofri isso muito na escola. Naquelas brincadeiras de beijo-abraço-aperto de mão, os caras não se interessavam em me beijar. E eu nunca fui feia! Mas acho que eles não enxergavam, sei lá. Como eles eram meninos, a gente não pode julgar. Mas na televisão sempre passou a figura loira, os olhos claros, e a criança vê uma coisa assim pra se apegar. Até hoje, andando com amigas minhas, elas brancas e mais feias do que eu, vejo os caras mexerem mais com elas do que comigo, entendeu? |
E a cultura hip hop, o que ela representa?
Negra Li: É que nem um Quilombo dos Palmares, é um refúgio pra um certo tipo de pessoas que são do mesmo estilo, que vivem o mesmo tipo de vida, que é o da periferia. São pobres, não só negros, mas todos aqueles que se sentem injustiçados, que se incomodam e querem ter um grito de guerra, querem falar. Acho que é um movimento muito importante pra nós porque resgata, tira os jovens das drogas, as meninas da prostituição. Os jovens, em vez de ficarem pensando um monte de besteiras, se ocupam, fazem seu grupinho de dança, de break, compram seu disco, vão ser DJs. É uma cultura que abrange quatro elementos: o MC, que é o mestre de cerimônias, o cara que agita a festa, o DJ, o break e o grafiteiro. Essa é uma maneira da gente não ficar só se lamentando e de fazer acontecer alguma coisa que a gente queira, nem que seja na pintura de um grafite, numa dança: o jeito que os breaks dançam é uma atitude de se impor. |
Como foi sua vivência do lado mais difícil da periferia?
Negra Li: Quando eu era criança, muitas vezes fui pra debaixo da cama por causa de tiroteio. Durante anos eu convivi com o universo masculino, o machismo, demais, no meio dos rappers. Acho que a mulher, quando entra num lugar dominado por homem, tem de provar duas vezes mais. É por isso que eu não aderia à roupa curta, me vestia como eles, calça larga... pra ser respeitada. Era uma forma de me defender. |
A chance de a mulher ficar no meio do caminho é maior?
Negra Li: É. Mulher não tem aquela liberdade que o homem tem. Se ela ficar grávida, é ela que carrega na barriga, é ela que tem de cuidar da criança. Muitas mulheres deixaram seus sonhos pra trás porque tiveram um filho ou porque são dominadas por um namorado ou um marido. Então, eu me sinto uma guerreira por não ter tido esse tipo de problema, por não ter me perdido. Não vendi meu corpo, e por mais que em casa tenha passado vontade das coisas, nunca quis traficar. Eu sou uma guerreira por ter resistido a essas tentações. E uma sobrevivente. |
Hoje, o que mais te perturba na situação da periferia?
Negra Li: Meu sobrinho foi pro hospital com febre, mal, e o médico disse que era intoxicação porque comeu ovo durante uma semana. Isso que é o mais duro: ver uma criança que não pode ter uma alimentação à pampa. E isso já vai influenciar em como ele se sai na escola. Se não se alimentar direito, não vai conseguir estudar direito e como vai ser o futuro dele? A maioria dos negros é pobre, já está comprovado, e se não têm uma boa alimentação, não têm nem prazer de estudar. Eu mesma não me vejo numa faculdade. Meu poder de concentração não é daqueles. Admiro muito quem lê livros e livros... Eu não consigo e acho que muitos negros e pobres também não. |
O rap tem um sentido de protesto, de denúncia. Você, contratada por uma grande gravadora, se apresentando na Globo, não tem medo de ser absorvida?
Negra Li: Eu não tenho medo porque dentro de mim eu sei o que eu quero. Eu não faço música por fazer, eu tenho um sentimento no meu canto, tenho toda uma responsabilidade e tenho de agradecer a Deus pelo dom que ele me deu. E tenho de compensar isso de alguma forma. Não gosto de música vulgar, jamais cantaria uma coisa vulgar. Acho que hoje as crianças já estão aprendendo coisas que não era hora delas aprenderem. Eu acho que a música é capaz de mudar o mundo. Nas escolas devia ter a matéria "Música". Eu sempre afirmo que a gente tem de estudar a música pra ser respeitado por todos os gêneros musicais, pro rap ser levado a sério. A música mexe muito dentro da gente. |
Como você imagina que poderia ser uma política honesta para o jovem da periferia?
Negra Li: Eu acho que uma pessoa que é muito boa, que quer o bem pra todo mundo, não entra na política. Então, vai ser difícil a gente ter uma política honesta, perfeita. Todo mundo pensa no seu dinheiro; dinheiro é todo o problema. |
O quanto a escola atual está distante da realidade do jovem?
Negra Li: O jovem devia ter opções na vida, uma escola devia ser completa, devia ensinar também o que o jovem quer aprender. Mas está distante, parece que eles não querem deixar a gente inteligente o suficiente pra não eleger alguém que vai nos enganar mais tarde. Acho que devia ter aula de música, esporte... e ensinar a ser um profissional. Você vê o pessoal chegar ao segundo colegial e ainda não saber o que quer ser. Acho que tinha de despertar, mexer mais com criatividade, dar mais opções pra pessoa poder procurar dentro dela o que ela gostaria de ser. |
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